Em um contexto onde podemos ao mesmo tempo verificar a popularização do estilo (e sub-estilos) Heavy Metal e as facilidades para se formar e divulgar uma banda, associadas a uma necessidade quase impositiva de ‘fazer sucesso’ presente no imaginário social, cada vez mais presenciamos o fenômeno (que sempre existiu e que ficou conhecido como o tal do ‘jabá’) de bandas dispostas a investir, às vezes, altas quantias de dinheiro para alavancar seu nome na cena.

Pagar para tocar não se resume apenas àquelas bandas que pagam uma nota para abrir shows de bandas famosas (geralmente gringas), mas é muito mais amplo que isso. Pagar para tocar, pode-se interpretar também, muitas vezes o fato de não se cobrar o justo e merecido cache. Porquê? Bom, não é novidade para ninguém que o Underground é muito pequeno e restrito em se tratando de oportunidades para as bandas. 

Shows raramente lotam e dão algum lucro para o organizador, então dá para entender quando o mesmo não paga as bandas, pois muitas vezes não há retorno financeiro suficiente para garantir a manutenção do evento. Da mesma forma, e do outro lado dessa relação, ter uma banda é arcar com muitos gastos, desde a compra de instrumentos musicais, manutenção dos mesmos, aluguel de horário para ensaios em estúdios até as passagens de ônibus ou custo de combustível para se deslocar até o ensaio. Quando se trata de tocar em outra cidade os custos são ainda mais altos. Para pessoas de baixa renda que montam uma banda, isso é sentido de uma forma ainda mais forte, mas há casos de bandas que arcam com isso de maneira natural e quase indolor. Essas, que muitas vezes contam com "paitrocínios", conseguem abrir shows de bandas grandes pagando uma nota para o produtor. Dificilmente dá errado para um organizador desse porte, pois além de receber das bandas de abertura, ainda se aproveitam do fato do público não se queixar de pagar caríssimo por ingressos de eventos com bandas famosas. 

Essa realidade é muito oposta com eventos de menor porte, os realmente Undergrounds. Nesse caso, há até reclamações e tentativas de entrar de graça por parte de pessoas que se julgam apoiadores da cena, mas que preferem gastar a grana em cachaça ao invés de pagar um simbólico valor de ‘entrada’. Não precisa ser nenhum gênio para notar que o organizador desse tipo de evento se complica muito mais e, por consequência, as bandas que gastaram uma grana para estarem ali, independente se vieram de outras cidades ou estados.

Gastos sempre haverão, mas um fato curioso no Underground é o chamado "mercenário". Classificam assim muitos organizadores de eventos Undergrounds que cobram um valor um pouco mais alto do que 10 ou 15 reais em um evento que geralmente dá 200 ou 300 pessoas. Esses que os classificam dessa forma não tem noção dos gastos das bandas e do organizador, que estão ali trabalhando, ao contrário do público que está curtindo.

Por outro lado há a visão de custear um 'hobby', tal qual ocorre como qualquer outro. Ou seja, cientes de que o Underground não lhe dá lucros financeiros por vários motivos, muitos optam em ter uma banda exclusivamente por prazer, mesmo que essa lhe custe alguma grana, e não se importam com isso. Tocar em outros lugares, para alguns, vale a pena mesmo que tenham de tirar dinheiro do bolso para estar lá, em cima do palco, já que em alguns casos esses mesmos pagariam do bolso a entrada para apenas estar vendo os shows.

De toda forma, tal tema possui muitas possibilidades de discussão e debate, abrindo vertente para diferentes argumentos. Nessa matéria queremos coletar opiniões de vários lados e tentar entender os motivos que levam uma banda, na maioria das vezes, a arcar com prejuízos para se manter na ativa.



Qual a sua opinio sobre o famoso jab, ou ento, sendo mais abrangente, sobre uma banda tirar dinheiro do prprio bolso para se manter na ativa ou ascender na cena?


Essa matéria foi elaborada por Alex Neundorf, Carrascu e André Arruda, e publicada no dia 25/01/2012.
Cristiano Martinez  (Integrante da banda Vomepotro)
Infelizmente essa uma grande realidade e que faz com que muitos desistam de seguir em frente! Tudo que envolve msica esta relacionada a dinheiro, mas acredito que seria necessria toda uma mudana pra que as coisas funcionem, a primeira coisa que uma banda no obrigada a se sujeitar a tocar sem as mnimas condies e nem tocar sem pelo menos o pagamento dos custos da viagem pelo organizador do show, bandas que aceitam qualquer tipo de negcio esto prejudicando quem faz um trabalho srio!!!! No entanto existem muitas pessoas que no "organizam" shows e sim so aventureiros que por amor ao metal se acham no direito de organizar eventos e que no sabem como funcionam tudo que envolve o mesmo, sendo assim acabam prejudicando as bandas, pois acreditam que qualquer coisa que estiver disponvel e que faa barulho para uma banda tocar est bom, ento fica a pergunta, porque ensaiar tanto e fazer um som de qualidade? Sabendo dessas condies muitas vezes o pblico no apoia o evento e a desculpa que o metal morreu e ningum mais vai aos shows para prestigiar!!!
 
Pra finalizar no condeno quem paga para tocar e quem sou eu para julgar algum, cada um faz o que acha melhor e vai aonde pode $$$, s acho que a nica diferena que no adianta pagar para tocar ou ficar se "auto-intitulando isso ou aquilo sendo que a mesma ainda no nada disso e o pblico que deveria fazer isso muitas vezes nem gosta da banda ou nem conhece direito. Os fs de Heavy Metal tem o poder de aclamar um artista e no ela mesma, ento ai que mora o perigo, pois a banda acaba se queimando ao invs de se promover!!! A galera tem que gostar da sua banda no voc ficar implorando para que as pessoas faam isso por voc!!!
Sandro Muniz  (Integrante da banda Fates Prophecy.)
Uma banda sempre ir precisar investir... mas existe uma linha muito tnue entre investir e pagar para aparecer...
 
Infelizmente o famoso jab prejudica todas as bandas da cena, inclusive as que esto pagando jabs. Hoje em dia quase nenhuma banda consegue receber um cach justo (na realidade algumas no conseguem nem receber) por conta dessa atitude. O Fates j foi convidado diversas vezes para abrir shows e nunca cedemos ao fato de pagar para tocar. Na minha cabea quando somos convidados temos que receber, pra mim no existem bandas de abertura ou bandas convidadas e sim o show de duas bandas.
 
Quando se participa de um evento beneficente jamais iramos cobrar nada, do contrrio, como podemos tocar sem receber? J imaginou seu chefe chegar e falar olha tem que bater o ponto s 8h, tem 1h de almoo e sai s 18h, mas como nossa empresa uma multinacional conceituada voc no ir receber, pois estar melhorando seu currculo!!! Isso no existe, e com a falta de lugares para se tocar, o excesso de bandas covers (que no tenho nada contra) acaba acontecendo isso, as oportunidades que so poucas acabam se tornando um leilo de quem cobra menos cach at quem pague para tocar.
 
Fala-se muito da cena metal brasileira... ela realmente existe, mas o dia que deixarem a panela de lado e passarem a olhar as grandes bandas que temos na cena, das quais se for nomear aqui no haver espao pela quantidade de grandes bandas nacionais que no tem a menor ajuda ou apoio da mdia (e no por falta de talento ou grandes trabalhos) infelizmente a grande maioria das bandas dependem unicamente do timo trabalho musical e nada mais.
 
O problema que temos um dos maiores (seno o maior) pblico de metal do mundo, no entanto so poucos os que saem para prestigiar (por diversos motivos). Uma das solues, na minha opinio, seria uma participao maior do nosso pblico para prestigiar nossas bandas, com isso todos ganhariam, o pblico que com isso teriam mais opes de shows com ingressos bem mais em conta (a um custo menor para um produtor / dono de casa de show) pois seria mais acessvel e mais em conta contratar bandas nacionais, as bandas teriam mais oportunidades para mostrar seus trabalhos e receberiam por isso e todos ficariam satisfeitos.
M. Mictian  (Integrante da banda Unearthly.)
Eu desde que fundei o Unearthly sempre fui contra pagar para tocar e felizmente nunca nos dobramos a essa prtica, j fomos convidados para vrios shows que teramos que pagar e nunca demos o brao a torcer mesmo que ficasse-mos de fora do evento, eu sempre defendi que as bandas tem que receber para fazer shows essa minha posio e a mantenho at hoje e mesmo no nos apresentando em vrios shows que se cobram pra tocar fico feliz por me manter firme, apesar que hoje em dia conseguimos um status que no se cogita mais o Unearthly ter que pagar jab pra se apresentar em eventos grandes.
Alex Zuchi  (Vocalista da In Torment.)
A questo do jab pode ser interpretada de vrias maneiras e depende da viso e/ou objetivos de uma banda, quer ela seja iniciante ou mais antiga. H casos em que funciona e impulsiona carreiras. Pessoalmente, porm, no concordo em pagar para tocar em um evento. Dentro do IN TORMENT, acreditamos que essa no a melhor forma de estar presente em um evento com um alcance maior. Tentamos ainda acreditar que se uma banda possui talento e sua sonoridade tenha relao com a banda principal, ela esteja apta a desempenhar um bom papel. Sabemos que na prtica a coisa no funciona dessa forma, mas no queremos fazer parte desse tipo de atividade nem queremos manter contato com esse tipo de produtor. Tenho visto ainda, muitas bandas totalmente amadoras pagando caro para abrir para bandas gringas. Essas bandas deveriam primeiramente criar boas msicas, ensaiar muito, desenvolver um show interessante e com presena de palco. Ao limitarem-se exclusivamente a insero forada em eventos maiores, essas bandas apenas tem conseguido ser motivo de chacotas por parte do pblico. J testemunhei isso ocorrer em mais de uma ocasio.
O segundo ponto, que se refere a tirar dinheiro do prprio bolso para manter a banda na ativa, acredito ser uma prtica perpetuada por quase 100% das bandas underground. Tocar metal requer amor pela msica e fora para encarar adversidades. O sujeito precisa realmente se desvincular da opinio do grande pblico. Tem que haver prazer em se levar adiante s atividades de uma banda pequena. Tem que se acreditar no que se faz e tirar dinheiro do bolso para concretizar ideias.
H a questo do cach, que na verdade limita-se a uma ajuda de custo, uma ajuda que muitas vezes no custeia o prprio transporte da banda. Para mim, esse o ponto mais crtico em toda a cena. J fomos tratados como mercenrios por alguns ditos produtores por exigirmos coisas que somente uma banda rock star poderia pedir (irnico) como: ajuda no transporte, gua no palco, alimentao...
Enfim, difcil se manter ativo na cena underground nacional com todas as dificuldades econmicas que enfrentamos diariamente. preciso muito empenho e luta para tentar elevar sua banda  a um novo patamar. Porm, acreditamos que ainda vale a pena tentar.
Marcio Pandolfi  (Dono do blog O Arranca Toco.)
Essa uma relao de prostituio, mesmo que s avessas. Existem patamares diferentes, em que mesmo dentro do Underground h um certo "mainstream"; Bandas conhecidas dentro desse circuito, que tocam pra 100, 200 pessoas, mas que desconhecida do "grande pblico" em geral. Estas bandas tem uma certa estrutura e at um grau de exigncia pra tocar em determinados lugares. Muitas vezes para alcanar um nvel mais alto, "crescem o olho", ou seja, se "vendem" em busca de maior visibilidade. Nem que para isso topem em entrar pro "esquema" tradicional (jab), abrindo mo de serem Underground. Tudo pelo $uce$$o.

Diferente no caso de bandas que pagam pra tocar, por no haver outro jeito. H milhares de bandas em eventos, cuja organizao ou mais precisamente o local, no pagam estas bandas. Seja por no haver caixa suficiente ou por mesquinharia mesmo. No final das contas, cada banda investe em seu trabalho, j que no h como fazer msica de graa ou sobreviver dela mesma. O "hobby" de tocar movido pelo esprito e o sentimento em fazer um som, esbarra nessas questes que muitas vezes se tornam um estorvo e colaboram para abreviar uma carreira musical que poderia ser mais longa e duradoura.
Marcelo Miranda  (Integrante do duo Olam Ein Sof.)
Realmente um assunto que pode ser encarado de inmeros pontos de vista, pois tudo no mundo independente do que faamos e qual propsito, e mais ainda gostando ou no vai envolver o famoso dinheiro.
 
Isso j algo muito maior do que as vezes pensamos, realmente como o sistema est embasado e sendo vivido, at que algum consiga eliminar isso, algo prximo ser criado por conta que ele s simboliza a troca entre servios ou produtos. Porm o problema que o dinheiro, no meu ponto de vista, tomou valores maiores do que realmente ele vale, e virou o objetivo da grande maioria dos seres humanos.
 
Para muitos o dinheiro ainda est associado a ser ganho com um trabalho que no gosta para ser gasto com algo que gosta, manter sua ideologia, prazer, hobbies e afins. Por conta disso, quando tratamos da arte de forma geral, os pensamentos ficam mais confusos. Pois a arte, a msica no caso da discusso, pode ser feita por qualquer um e de qualquer forma, no precisando realmente da pessoa ser um profissional nisso. E no metal, especificamente nesses anos todos, vejo que no Brasil foi muito associado somente com ideologia, rebeldia, hobby, e tudo mais; sem problemas e deve ser assim, porm no impede de tudo isso ser feito e ter uma postura tambm profissional, no sentido que vai gerar dinheiro para algum de alguma forma e tudo isso podia ter um subsistncia se as pessoas envolvidas realmente se informassem melhor, no ficassem presas a discursos sem fundamentos, e no misturassem gostos, egos, ganhos, gastos e tudo o que se envolve para fazer eventos e shows. E, principalmente, se aqueles que realmente tm possibilidades de fazer algo tivessem feito, revistas, lojas especializadas, produtores de mdio e grande porte, que realmente s apostam nos gringos e no apoiam em nada a cena local.
 
Tudo que falo no porque vi outros comentarem e sim por estar h mais de 20 anos na msica, no underground e em outros movimentos musicais, pois vivo hoje em dia exclusivamente da msica, e j pensei de vrias formas sobre isso. J estive em todos os lados. Ento pagar para tocar no justo mesmo de forma alguma. Hoje penso que se um produtor no tiver capacidade de organizar um evento de verdade melhor no organizar. Se a pessoa no sabe buscar patrocnios, valorizar o que ela faz, no deve se meter nisso e deve procurar outra atividade. Cada um leva uma banda como quiser, para todos um prazer, talvez o maior da vida, mas nesse todo alguns tem isso tambm como profisso, ento saber separar quem quem. Lgico que como qualquer negcio que comece, s vezes, dependemos de dinheiro vindo de outra fonte, mas sempre da para notar quem quem.
 
Outro lance que as pessoas tm que saber diferenciar o que arte e um simples momento de fama. Se voc faz o que acredita mesmo, ser atemporal, e no ter desespero para aparecer, isso comento, pois pensar mais antes de querer gastar muito para subir logo, isso complicado, o preo alto e muitas vezes no levam a nada. Quem fica porque fez sua parte com honras e verdade e no porque comprou um lugar. s ver na grande mdia o que lembramos que fez sucesso rpido e hoje nem lembramos.
 
E ao pblico respeitar o artista nacional como algum que deve ser valorizado, pois isso vem tambm da nossa cultura de valorizar tudo que vem fora, antigo e est incrustado em nossa mente como brasileiros. E no precisamos de nos enganar, s ver como atuamos mesmo, pagamos muito para ver um gringo e no sabemos nem o que acontece na rua do lado de nossa casa.
 
Concluindo: a hora que realmente nos respeitarmos e termos orgulho real do que somos e do que fazemos todas essas questes sero tratadas de forma natural: tem um show que tem gastos para ser produzido, tem custos com bandas, parte tcnica, a pessoa ou equipe que organiza, o pblico pagar e curtir... muito simples.
Paulo Henrique  (Editor do Metal Maniacs Zine.)
Bom pagar para tocar ou o famoso e insano pay to play uma coisa grosseira e absurda, na minha opinio, e isso que no possuo mais banda, hoje em dia vemos muito disso no mundo e aqui no Brasil, produtores que visam apenas lucros, no se importando com o pblico. Este meio Jabazeiro est envolvido no meio musical como um todo, e no apenas no circuito underground do rock, mas irei falar dentro do underground. Aqui em Sampa triste e existe muito disso realmente, algumas casas, bares, produtoras, tiram a responsabilidade de suas costas, responsabilidade essa que seria de divulgao de tal evento geralmente. J fui em muito local onde o cara enche um bar com at 12 bandas, faz alguns poucos cartazes e fica a cargo da banda a divulgao, que seria em vender determinados nmeros de ingressos, geralmente de 10 a 20 ingressos... Na realidade, a banda ir vender esses ingressos para seus chegados, familiares, etc., e geralmente pagando pelos restantes dos ingressos no vendidos: Geralmente a casa no teria um ambiente destinado para suportar tais nmeros de bandas e fora ainda que h aquela velha briga por horrio, pois nenhuma banda quer ser a ltima a subir ao palco, pois o pblico iria embora com os seus amigos aps encerrar seu espetculo. Geralmente a banda arca com as despesas do prprio bolso para poder tocar, algumas vezes no conseguem vender os ingressos acordados, ento ficam na divida, trazendo ou no pblico.
 
Uma coisa que a banda tem que ver , so msicos e devem ser tratados como tais, devem receber o cache, pois existem gastos, com transporte at o evento, estdio para ensaio, instrumentos, alimentao, cervejas, divulgao, etc. Hoje em dia manter uma banda existem muitos sacrifcios e gastos, e na grande maioria dos casos, o msico, ele trabalha para poder arcar com suas despesas dirias, sendo que a banda no lhe d um retorno financeiro para poder viver exclusivamente da sua musica. Tocar de graa em um evento gratuito, eu acho uma forma de divulgao muito boa para a banda pois poder mostrar seu trabalho ao pblico e divulgar as suas ideias. Agora existem as bandas que por outro lado no se importam com isso, o importante para elas terem seu logo vinculado ao cartaz e se sentirem rock stars. J vi um monte de banda pagando vendendo ingressos para veicular sua banda em algum show de alguma banda internacional, apenas para dizerem que sua banda abriu para determinada banda. P, se os caras vo pagar o cache para determinada banda, sinceramente, eles podem pagar para essas bandas de abertura. O que eu quero dizer com isso seria: as produtoras tiram de suas costas o que realmente eles deveriam fazer, divulgao, espao apropriado para comportar o nmero de pessoas, as vezes voc vai em um ambiente onde a casa no tem aparelhagem apropriada, sendo a cargo da banda se locomover com seus instrumentos e aparelhos, tais como caixas, mesa de som etc., a banda que literalmente no tem como se locomover com toda a sua aparelhagem ficaria com o som estragado, devido a no poder utilizar os equipamentos completos. Mas tambm o que mais ajuda a isso o publico, geralmente o cara no quer desembolsar 10 a 15 reais em um evento, e fica enchendo a cara de cachaa do lado de fora, e tentam entrar ao evento quando metade das bandas j at tocaram. Aqui em sampa j vi muitos caras fazendo eventos com trocentas bandas e colocando bandas de renome em seus eventos... e se a banda no consegue vender o nmero estabelecido de ingressos seu logo no cartaz removido, sobrando espao apenas para bandas que conseguiram tal feito. J fui em eventos onde tinham em seus flyers de divulgao at 15 bandas, e chegando no local apenas 5 a 6 bandas realmente tocaram. E o mais foda disso tudo que algumas bandas so lesadas por caras desse tipo de pensamento, se fodem pagando para poder tocar e mostrar ao pblico seu trabalho. No final, montam eventos com esquemas do mesmo tipo, fazendo isso um ciclo vicioso, j que foram usados, iro usar o mesmo meio para poder ter algum tipo de lucro. Detalhe no estou colocando todos no mesmo patamar, apenas estou passando uma ideia do que acho do assunto. Se voc tem uma banda, deve sim receber pelo seu trabalho e no pagar literalmente para subir ao palco.
Eduardo  (Integrante da banda Bestial.)
Ns somos contra, mas cada um livre para fazer o que quiser para o interesse de sua banda.
Calebe  (Baterista da banda Harmony Fault.)
Pagar para tocar, eis um dos tabus que cercam o nosso querido underground. No vamos falar do jab propriamente dito, isto , pagar para abrir shows ou at mesmo para tocar em rdios. Agora, indiretamente, via de regra, paga-se para tocar. Sim, porque existem gastos para ensaiar, manter os instrumentos, adquirir equipamentos, locomoo para as gigs, etc.

Primeiramente, temos bem claro o tamanho da responsabilidade e do risco de organizar eventos underground, at porque j organizamos vrios. Assim, entendemos quando no possvel repassar alguma grana para as bandas. No fundo, na maioria das vezes o prprio organizador acaba tendo que tirar do prprio bolso para cobrir os gastos do evento. Ser que no toa que o nmero de promotores de shows undergrounds escasso?

Por outro lado, caso o evento for lucrativo, nada mais justo do que dividir uma parte da grana entre as bandas participantes, at porque sem elas no rolaria gig alguma...

Alm disso, tem-se que pagar para tocar est longe de ser a situao ideal, porm a banda que solicita uma ajuda de custo para cobrir os gastos acaba sendo mal vista. Ajuda de custo no cach, que fique claro. Esse auxlio interessante para o deslocamento da banda, mas quando a ajuda no possvel, enfim, d-se um jeito de tocar, de um modo ou de outro.

Outro ponto a ser abordado que pelo underground afora no raro a presena da turma que faz planto na portaria do evento para mendigar desconto no ingresso ou at mesmo conferir o show sem pagar nada. Tambm existem aqueles que optam apenas por encher a cara (e seus congneres) e ficam na rua. E o pior, so os primeiros a decretar a estagnao ou a morte do underground! No fim, o que se escuta porra, t caro o ingresso hein!, ou ainda, d um desconto a pra comprar o teu CD. De mais a mais, so seres sem comprometimento com a cena e o tempo se encarregar de mostrar quem quem.

Particularmente, a Harmony Fault um hobby para ns. Assim, j sabemos e nos preparamos de antemo para os gastos relacionados com ensaios, gigs, etc.. No fim das contas, mais ou menos como se a gente jogasse futebol nos fins de semana e tivesse que pagar o aluguel da quadra, o fardamento, a ceva depois do jogo, etc.

Enfim, pagando ou no, prejuzo ou no, isso tudo no importa. O underground no o ambiente para se ganhar dinheiro. Agora, fazer novos contatos, conhecer novas bandas, tocar ao vivo e praticar o estilo que se aprecia e poder dividir uma cerveja gelada com os amigos, isso no tem preo.
Toxic Carnage  (Integrante da banda Infernal War 666.)
Nos ltimos trs anos que passaram creio que acabei conhecendo muito mais sobre rock, hard e funk music (1960 e 70) do que em toda minha vida, at ento. Digo isso, pois me formei nas "categorias de base" do metal extremo de oitenta e noventa o que, apesar de maravilhoso, deixou-me um pouco distanciado de outras experincias musicais. O que no julgo como bom ou ruim. So experincias diferentes, apenas. Com isso, quero dizer que hoje tenho me dedicado a conhecer bandas que no obtiveram sucesso, no se notabilizaram como bandas mainstream, e muitas vezes no gozaram de longevidade, vindo a lanar um, dois ou trs vinis. Um exemplo uma banda que conheci h pouco, que lanou um nico play, chamada The adventures of Robert Savage. Achei uma puta banda, que no deve nada pra muitas outras consagradas, seja pelo gosto popular ou pela media. Porm, uma pergunta que deve ser colocada nessa oportunidade : por que uma banda to boa, com uma raiz musical to forte, no obteve um respaldo (o chamado "sucesso"), talvez muito mais merecido do que uma grande quantidade de bandas mdias e boas que se tornaram cones ou, no mnimo, bem lembradas na histria do rock? aqui que pretendo ancorar meu ponto de vista sobre o "uso do dinheiro", o "jaba", ou qualquer outra definio para bandas que alcanam prestgio atravs do "quanto possuem" ($).
 
No de hoje que muitas bandas conquistam espao como empresas, concorrendo e fazendo uso de seus capitais financeiros e culturais (sua maior possibilidade de acesso do que outros) o que garante, com toda certeza, uma soma no desprezvel de bandas horrveis, sem personalidade, artisticamente falidas, pois so apenas apostadores, especuladores (no sentido econmico mesmo), que procuram sondar os tipos de sonoridades mais "aprazveis" e destacadas em cada poca, para a partir da produzirem msicas que o rebanho (ou que chamam de pblico) possa legitimar como "bom", como "sonzeira", como "puta banda". Esse jogo entre o "pblico mdio" e a "banda", onde um se ampara no outro, onde esse procura o sucesso e aquele procura heris, gera um ciclo vicioso, onde a banda no mais impe limites para obter sucesso, e onde o pblico se torna aquele que qualifica aquele artista (a banda) como bom ou ruim. Essa interdependncia, na minha opinio, o que mais explorado pelos especuladores, pelos que sacrificam qualquer qualidade artstica, qualquer produo honesta, pelo "popular", "mdio", aquilo que a maioria avaliza e diz ser a "boa msica".
 
No preciso dizer muito, para concluir que esta uma condio que no se limita ao meio musical. um reflexo do mundo em que vivemos, cada vez mais amplo e interconectado (de culturas mil, transformadas e engolidas por uma nica cultural global), cada vez mais pautado em valores muito menos culturais e artsticos do que financeiros. Aonde a ideia de sucesso a base de confirmao dos xitos de uma vida ou de uma arte. Num mundo como esse, sem dvida muito mais fcil fazer sucesso no meio musical, quando se tem dinheiro, seja para pagar para abrir para bandas gringas, seja mesmo para financiar em todos os meios possveis sua prpria banda. Isso to bvio, que merece ser dito novamente, para que no seja esquecido (como diria Nelson Rodrigues). Existe inmeros exemplos de bandas medocres, que esto por a, fazendo shows, gravando lbuns (algo maravilhoso para qualquer banda, sem dvida), mas no na mesma proporo que bandas que morreram ou morrero como cults ou simplesmente lembradas por "aquele grande lbum". Acho que no contexto em que vivemos, onde as bandas valorizadas e pretigiadas so muitas vezes (mas nem sempre) as que possuem maior capital, assistimos a morte de muitos gnios criadores, muitas vezes antes de nascerem para o mundo. 

Por isso continuo com a ideia de cultivar os mortos, ressuscit-los em meus ouvidos. Por isso The adventure of Robert Savage e tantas outras aventuras que no pudemos viver, pois no lhes foi dado a mesma sorte de permanecer na memria dos vivos tempo suficiente. Vamos l, como um mago ou historiador, ressuscitar as vozes esquecidas no meio da polifonia dominante do mundo moderno! Talvez no possamos impedir o avano dessa rede de esgoto musical (chamada de media), porm podemos ainda permanecer inquietos, levantando questionamentos como esse, sobre o que ainda podemos valorizar como arte, como msica, como metal, como rock n roll, dentro de um mundo onde o que conta o que aparece, o que lembrado atravs do dinheiro e no do talento.  
Kexo  (Integrante da banda Infamous Glory.)
Cara a real que esse assunto muito polmico justamente por ter muitos aspectos que voc mesmo enumerou no texto acima. O lance do jab eu sempre achei ridculo por ser uma ferramenta que segrega as bandas, no por qualidade e sim por poder aquisitivo ou por patrocnio, o que eu acho que nocivo para legitimidade do meio musical como um todo. No underground ns vivemos um paradoxo, porque o underground teoricamente um ambiente independente e livre dos laos capitalistas do mainstream. Porem ao mesmo tempo o underground tenta emular os mesmos tramits do mainstream mesmo sem o giro do dinheiro. E por isso agente se depara com esses problemas; de bandas bancando suas prprias viagens, shows muito caros, shows muito baratos, qualidade de som horrorosa e falta de estrutura. Dentro do underground atual apenas 5% das bandas conseguem sustentar seu trabalho sem gastar nem um real, ganhando algo a mais uma porcentagem menor ainda. Nesse caso quase impossvel uma banda que em algum sentido no se banque.
Em minha opinio o que falta para um melhor aproveitamento do nosso underground aqui um pouco de bom senso de todas as partes. Organizadores e produtores, tratando as bandas com um pouquinho (no precisa ser muito) de profissionalismo proporcionando uma estrutura um pouco melhor, shows melhores organizados e bem pensados. E o publico tem que parar com essa mentalidade de que apoiar a cena andar com uma camisa velha de uma banda que 3 caras conhecem e sim comprando o material das bandas locais, entrando nos shows e apoiando as bandas. Penso que s essa mudana de mentalidade e essa harmonia entre essas 3 partes, banda, produtores e pblico j resolveria muito dos problemas que enfrentamos hoje. 
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Excelente matria! O Psychotic Eyes jamais pagou pra tocar, mas quase nunca recebemos cach, salvo de organizadores extremamente dedicados, como o prprio Baron Von Causatan que comentou acima. Se for para ter gasto, prefiro organizar o show eu mesmo. J vi o absurdo de organizadores de shows internacionais promoverem "leilo" entre bandas nacionais. A que pagar mais, fica com o direito de fazer a abertura. Quando nos ofereceram essa "proposta", enviei a seguinte mensagem, jamais respondida pelo organizador: Agradeo a ateno, mas no pagamos para abrir shows. Somos uma banda com mais de dez anos de carreira, e sabemos que isso no d nenhum retorno. Desculpe a sinceridade, mas acho que vocs deveriam rever essa poltica, pois foi essa prtica reiterada que minou a cena metal no Brasil. Escolha as bandas de abertura pela qualidade, selecione aquelas que voc acha que vo contribuir com o evento, atrair mais pblico, enriquecer o show, agradar aos fs do XXXXXX. Ou seja, aquelas que vo acrescentar alguma coisa ao show. No escolha pelo quanto elas vo pagar, pois assim voc est prejudicando a todos os envolvidos. A banda vai tocar sem merecer, somente porque pagou por isso. Se acha que nenhuma banda nacional merece, faa sem banda de abertura. Essa situao de bandas pagando para abrir shows injusta com todo mundo. E o pblico percebe que a banda no merece e s est l porque pagou. Com o tempo, o pblico se desinteressou pelas bandas brasileiras, porque acha que nenhuma presta, que no mostra qualidade de som, de composio, nem presena de palco altura das estrangeiras. No conseguimos criar uma demanda por bandas nacionais, como existe em todos os pases do mundo e poderia muito bem existir aqui. Entendo as dificuldades de organizar shows de metal no Brasil, sei dos custos envolvidos e da possibilidade de prejuzo. Sei porque j organizei shows tambm. Mas nada justifica usar o msico como fonte de renda. As bandas tm que ser pagas, a renda do evento vai vir dos ingressos, de eventual patrocnio e da venda de bebidas e alimentao pela casa. O msico tem direito ao seu cach. Assim como o XXXXX vai receber para tocar, eu no vou pagar para mostrar meu trabalho.
25/01/12 às 15:24 Hs
Tendo envolvimento tanto como msico e produtor em eventos, digo de forma pessoal, que acho tal questo uma vergonha. Bandas que se sujeitam a pagar para tocar algo totalmente irracional. Conheo bandas que para se apresentar por 30 minutos, ou menos, em eventos que tinham som pssimo e quantidade de pblico super baixa comparado ou valor investido, passaram pelo menos 6 meses pagando emprstimos e o retorno no final foi mnimo comparado com a possibilidade que tiveram. Com a Bestial Atrocity nunca paguei para tocar, assim como nunca aceitaria tal situao. Uma vez deveramos tocar com uma banda gringa, o produtor pediu para ajudar na venda de ingressos, aceitei e disse que a banda tocaria sem receber nada, mas no daria um centavo. Depois a conversa mudou, que se no tivesse a venda dos ingressos totais confirmada, a banda teria que pagar a diferena...claro que na hora todos da banda concordaram que prximo do dia do show de que no iramos tocar. Nunca cobrei um centavo de banda para participar de eventos meus, pelo contrrio adquirir dvidas por isso, algumas pagando at hoje, mas nunca peguei um centavo de nenhuma banda. A banda, seja ela a principal ou de abertura, em meu ponto de vista, deve ter o mesmo trato e ter o direito de receber a mesma ateno e ter a mesma qualidade de equipamento. Se, no caso de uma abertura de uma banda gringa, voc no recebe uma ajuda de custo para tocar e chegar ao local tudo bem, mas que ao menos tenha o direito de ter um tratamento digno e acesso as bandas principais para pelo menos ter uma interao com todo mundo. J passei por situaes assim, no recebi o transporte, mas ao menos fui bem tratado cada segundo no evento por produo, banda principal e tudo mais. Pena que isso no acontece sempre e provavelmente nunca vai deixar de acontecer de se cobrarem das bandas de abertura enquanto houverem bandas que se sujeitam a tal situao.
25/01/12 às 14:57 Hs
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