Uma das bandas mais devastadoras da atualidade, o Bode Preto vem lançando discos absurdamente violentos e marcantes desde 2010, quando a banda foi rebatizada, após um curto período como Soturnus Skullcrusher. Apesar de ser um grupo relativamente novo, seus membros reúnem experiência de sobra na cena underground desde os idos da década de 1980, o que talvez explique a perfeição do caos que eles apresentam a cada lançamento. Em sua formação, estão, além do seu membro fundador e mentor intelectual Josh S. (ex-Monasterium), o batera Adelson Souza (ex-The Endoparasites e ex-Grave Desecrator, entre outras) e o baixista Rodrigo Magalhães (Holocausto, Certo Porcos etc.). Com um disco novo recém-lançado (“Mystic Massacre”) que vem sendo muito bem recebido no mundo todo, o Bode Preto se prepara para uma pequena tour pelo Sul do país e é sobre tudo isso que conversamos nesta entrevista exclusiva para o Goregrinder webzine.

Entrevista feita por Cristiano Passos e publicada no dia 04/09/2016
Cristiano Passos: Olá, Josh, tudo bem contigo? E com o Bode Preto, tudo certo?

Bem, vocês acabam de lançar seu segundo disco, “Mystic Massacre”. Em primeiro lugar, como foi feita a gravação e a produção desse álbum? Pergunto isso principalmente por saber que cada membro da banda vive em um Estado diferente.
Josh S.: E aí, irmão! Por aqui tudo tranquilo, o Bode Preto se prepara para 4 shows no Sul.

As baterias foram gravadas em um dia extra que tivemos durante as gravações do “Inverted Blood”, foram gravadas em uma tarde. Passaram 3 anos arquivadas e no início de 2015 comecei a fazer as músicas em cima dessas gravações. Temos também um EP que deve sair esse ano ainda. A gente grava geralmente em “takes” contínuos, ou seja, tocando a música do início ao fim, obviamente os instrumentos são gravados separadamente, em ocasiões com mais tempo e estrutura pretendo produzir o material tocado ao vivo, pelo menos a base de bateria, baixo e guitarra.
Cristiano Passos: Nesse sentido, o que você acha que está melhor ou diferente do álbum “Inverted Blood” em termos de gravação? Você considera que houve uma evolução nesse aspecto?
Josh S.: Sim, como falei acima, as baterias foram gravadas na mesma semana. Durante os 3 primeiros dias gravamos o que foi usado no “Inverted Blood” e no quarto dia tínhamos a bateria montada e microfonada, então resolvemos passar uma tarde ‘jamming’ com essa intenção de ter material para próximas produções. Assim que terminamos, eu falei pro Adelson que achava que nesse dia a bateria havia ficado mais solta e sem qualquer resquício de hesitação, até porque não havia estrutura preestabelecida a seguir. Em cima disso, ainda acho que consegui imprimir mais velocidade pela forma que a guitarra foi composta e tocada, também houve uma grande evolução no processo de mixagem.
Cristiano Passos: Musicalmente, ambos os discos são excelentes, dois marcos do metal extremo contemporâneo e que guardam muitas semelhanças entre si, principalmente pela pancadaria ininterrupta que os caracteriza. Como você compararia esses dois trabalhos?
Josh S.: Obrigado pelas suas palavras quanto a esse material. Vejo o “Mystic Massacre” como um aprofundamento do que já havia no primeiro EP (“Dark Night”), juntando com o que conseguimos no “Inverted Blood”.
Cristiano Passos: A intenção do Bode Preto é de que “Mystic Massacre” fosse concebido como uma continuação natural do primeiro disco ou simplesmente foi um álbum que foi composto de forma independente, sem levar em conta os conceitos presentes em “Inverted Blood”?
Josh S.: A intenção é a de desenvolver o que a banda tem se proposto a fazer. A visão de mundo que permeia esses dois discos é parecida, com uma diferença de 3 anos de experiência. Desde que o “Mystic Massacre” foi lançado, eu já entendi coisas que ainda eram desconhecidas e tenho certeza que, antes de aprontar o próximo, outros aspectos de visões já conhecidas serão revelados. Mantemos uma linha de pensamento e ação, consigo observar vários pontos onde podemos melhorar e sei que tantos outros aparecerão de forma espontânea. Sei que a criatividade é filha da atenção, por isso tento ao máximo escolher onde concentro minha atenção e deixando a música me guiar.
Cristiano Passos: Por falar em concepção, sei que você é um artista de mente bastante inquieta na criação de suas obras, tanto no aspecto lírico, quanto musical e estético. Sendo assim, quais os conceitos principais que inspiram o Bode Preto?
Josh S.: Vivemos inseridos num contexto que é chamado de realidade, muitas pessoas acreditam que esta realidade está realmente acontecendo de uma forma natural. Muitos acreditam em destino, outros apenas no acaso. Sei que existem muitas cartas marcadas e tabuleiros sendo jogados. Dentro dessa dita realidade, sobretudo no nosso mundo ocidental, somos empurrados e puxados para lados opostos como o medo e o desejo. Imagino um pêndulo que naturalmente busca o seu ponto de equilíbrio, ou o zero. A partir do momento que a pessoa entende que essa ‘realidade’ consciente é uma pequena parte da sua possibilidade de existência, acredito que ela fica cada vez mais imune aos empurrões e puxões que recebe. Para exemplificar isso é simples, basta assistir um telejornal com notícias aterradoras da situação do mundo e alguns segundos depois, no intervalo comercial, aparece um carro do ano ou uma cerveja com ‘gostosas’. Se a pessoa observar bem o que ela deseja e o que ela teme, dá pra ter uma ideia de como está sua vida. Já faz bastante tempo que tenho vivido num paradoxo de usar bastante computador e internet para trabalhar e me comunicar, quando ao mesmo tempo cada vez mais vejo a importância de se fazer ações (movimentos intencionais) reais e pensar a partir de outros aspectos, como imagem e sons. Porque se alguém pensa apenas a partir de palavras, seus pensamentos serão limitados ao seu vocabulário. Se posso falar sobre um conceito, seria de buscar olhar para dentro de si próprio.
Cristiano Passos: Qual a importância da arte do disco na sua visão? Você pode nos falar um pouco sobre essa parte de concepção artística da capa, encarte, fotos?
Josh S.: A arte pra mim é tão importante quanto a música, assim como as letras e todo o restante, no sentido de ter um material completo. Quando pego um disco nas mãos observo cada detalhe e também o conjunto de todos os elementos. Existem muitas camadas, que dou a devida atenção e aproveito cada pequeno espaço para ratificar as ideias principais. Para essa parte, eu fundi a cuca durante muito tempo, aprendendo a usar os programas de tratamento de imagem e ao mesmo tempo desenvolvendo o olho para os detalhes. No passado, antes do Bode Preto, eu sentia que lidar com outras pessoas que não estavam tão envolvidas com a banda diluía as ideias originais, ao passo que agora essas mesmas ideias são expandidas e desenvolvidas, talvez por isso esse material tem ressoado bem nas pessoas, pois é todo sincero e honesto, mas não feito ‘de qualquer jeito’. Com isso não quero dizer que não há espaço para espontaneidade, pelo contrário, mas tudo passa por filtros e trabalhamos com tempo para confirmar se a direção escolhida é a mais coerente.
Cristiano Passos: E no aspecto musical propriamente dito, quais são os alicerces sobre os quais está assentado o Bode Preto?
Josh S.: O meu modo de tocar guitarra sofre muita influência de Black Sabbath, e claro que não é somente daí, mas com certeza grande parte, hehehe. Posso citar também bandas como Venom, Sodom, Agathocles, Cryptic Slaughter, DRI… A velha escola da porradaria mais suja mesmo.
Cristiano Passos: Como o BP tem suas raízes fincadas no underground primitivo brasileiro, como é pra você tocar com Rodrigo (Holocausto) e Adelson (The Endoparasites), duas bandas respeitadas no cenário extremo?
Josh S.: É uma grande honra, pois desde que comecei a escutar som porrada, lá pelos 14 anos, logo entrei em contato com o material produzido por eles. Também muito bom ver caras que já são mais velhos que eu, na ativa e acreditando no material que produzimos.
Cristiano Passos: Vocês têm uma ideia prévia a respeito de como deve soar o disco, algo como um conceito predominante que se quer passar ou um sentimento que se quer imprimir ao disco? Em caso positivo, isso foi atingido em “Mystic Massacre”?
Josh S.: De certa forma sim, a gente busca uma sonoridade que intuitivamente identificamos como a ‘certa’ para a banda. Mas o disco vai se desenvolvendo durante o processo de gravação. Nesse sentido, a resposta é sim, esse som ‘certo’ para o Bode Preto foi atingido no “Mystic Massacre”, assim como na época do “Dark Night” também foi, vamos continuar a desenvolver.
Cristiano Passos: Em “Mystic Massacre”, há uma participação ilustre de Goat, vocalista e guitarrista da lendária e cultuada banda VON. Como você chegou até ele e qual a importância e o significado dessa participação, na sua opinião?
Josh S.: Cara, isso foi algo que partiu dele mesmo. Nos conhecemos no aeroporto de Amsterdam, a caminho do Nuclear War Now Festival II em Berlin, chegando lá ele, juntamente com Diego (baterista do Von Goat), já sabiam como chegar do aeroporto até o hostel que ficaríamos, pois eu já sabia que as bandas ficariam nesse hostel (na verdade espalhadas em 3 sedes do mesmo hostel). Fomos conversando no caminho, no ônibus e metrô e caminhando, os ajudei revezando quem carregava a guitarra. E ficamos em contato durante o festival e depois por e-mail. Em certo momento o Goat sugeriu “we should do a song together”, exatamente na época em que eu estava trabalhando em demos pra o que veio a se transforma no “Mystic Massacre”. Enviei um CD com 15 demos e ele acabou fazendo letras e gravando vocais para 6 músicas. Acabou fazendo sentido pra gente botar 2 no album e deixar 4 para um EP. Esse ano ainda vai sair esse EP (Iron Tyrant Recs.), contendo as 4 inéditas mais as 2 que saíram no disco, como uma forma de termos um material contendo todas as 6 músicas com o Goat no vocal. Interessante que isso é algo que passou praticamente batido pela imprensa, obrigado por destacar essa participação que é motivo de grande honra pra gente.
Cristiano Passos: Pelo que acompanho, parece que o Bode Preto tem um prestígio acentuado na cena underground internacional. Afinal, os comentários acerca da banda são sempre muito positivos e todos os seus lançamentos se espalham como praga pela rede, sendo encontrados em quase todos os continentes. A que você atribui essa boa reputação da banda?
Josh S.: As pessoas reconhecem quando algo é feito de maneira honesta e, além disso, também diz algo que ressoa com o que se sente (quando escrevo ‘diz’ é claro que não estou falando apenas de palavras ou ideias construídas, mas também de expressão de algo profundo e fundamental). Não temos controle quanto a isso, o que podemos fazer é continuar buscando essa expressão exata. Também acredito que as pessoas reconhecem o respeito que temos pela nossa banda e pelas próprias pessoas que vão escutar nosso som, é como uma cozinheira que não enche sua comida de temperos artificiais, e sim pensa na combinação de ingredientes, na forma de preparar a comida, quais nutrientes serão absorvidos e qual será a experiência da pessoa que vai comer aquele prato. Diferentemente de um ‘chef’ afetado que busca uma ‘originalidade’ baseada em presunção ou em como vai ser bem visto por críticos também afetados e quanto aquilo vai render para seu ego e seu bolso. Esse exemplo pode ser aplicado a qualquer área da nossa vida…
Cristiano Passos: E quanto aos shows? Considerando que o BP é uma banda interestadual, é um pouco mais complicado fazer shows, acredito eu.
Josh S.: Temos uma dificuldade extra quanto a isso, mas acredito que todas as bandas do underground têm problemas para arrumar shows no nosso país, e sei que você concorda com isso, hehehe. Fazemos poucos ensaios e a experiência dos envolvidos conta muito nessa hora. Por outro lado essa distância tem um lado interessante, pois para convidar o Bode Preto para um show o produtor necessariamente sabe que temos uma dinâmica um tanto diferente e isso requer mais seriedade da parte da produção. Eu até comentei com você meu sentimento de estar mais próximo dos caras, até para podermos gravar com mais frequência e tecer tramas com mais detalhes. Quem sabe isso pode acontecer esse ano ainda…
Cristiano Passos: Como está a agenda para os próximos meses? Fiquei sabendo que vocês têm alguns shows agendados aqui na região Sul. Você pode nos falar sobre eles? Inclusive no ano passado vocês tocaram no Floripa Noise, evento para o qual retornam em setembro de 2016. Como foi a experiência anterior e quais as suas expectativas para este ano?
Josh S.: Estamos com 4 shows marcados na região Sul, que tem nos recebido muito bem, seja através de amizades, compra de material da banda ou de mensagens de apoio. Inclusive a maioria dos shows teremos como baixista o Andrey Diniz (gentilmente emprestado pela Antichrist Hooligans, rsrs).

Toda nossa viagem para SC ano passado foi bastante tranquila, as coisas acontecendo sem pressa, com o apoio dos irmãos do Antichrist Hooligans (incluindo você, claro), pessoas como o Zimmer e Gustavo Dogo dando toda a atenção possível. Inclusive usamos fotos feitas por ele (Dogo) no encarte do “Mystic Massacre”. O único porém foi a chuva constante, que nos deixou de certa forma presos no hotel. As expectativas são de reencontrar os amigos e conhecer pessoas novas com quem possamos trocar ideias e dar umas risadas, e sobretudo um som poderoso com um público possuído. Também devemos usar esse tempo em Florianópolis para gravar material novo e conhecer mais a cidade. Eu sinceramente me senti muito bem recebido aí e espero que aumente essa sensação.
Cristiano Passos: No ano passado, vocês tocaram num dos bares mais lendários para o underground da nossa região, o Plataforma Rock bar, que tem mais de 15 anos de história. Qual a impressão da banda a respeito do lugar?
Josh S.: O Plataforma pra mim é o que chamaria de casa de shows underground ideal, o pessoal da casa nos tratou muito bem, um deles veio conversar comigo antes do show falando que muitas bandas haviam passado por ali e deixado sua energia, bandas como Rattus, por exemplo. Foram bastante solícitos quando precisamos de um martelo e pregos, hehehe. Por mim em toda cidade deveria ter pelo menos um Plataforma Rock Bar.
Cristiano Passos: Voltando ao disco, pra finalizar, como tem sido a recepção e a distribuição desse material no Brasil e no exterior? Está tudo dentro do esperado? Na sua visão, o pessoal voltou a adquirir mais material físico ou o MP3 ainda predomina?
Josh S.: Temos um contrato de licenciamento com o selo Iron Tyrant (Itália), eles têm um procedimento mais organizado de divulgação e o material saiu com uma qualidade muito alta, impressão da capa, prensagem e camisetas. Aqui no Brasil ainda não foi lançado em CD, mas deve sair ainda esse ano. Eu vejo que quem realmente gosta e conhece os procedimentos underground acaba pegando algum material das bandas. Por isso criamos uma loja online para facilitar os processos de pagamento e registro de do que foi vendido e para quem mandar. Também vejo que o material digital é bastante útil para as pessoas conhecerem a banda, todos nossos discos estão disponíveis em plataformas digitais. Inclusive esses dias finalizei vídeos contendo o som gravado diretamente do vinil, como uma forma de presentear os fãs e de mostrar para a nova geração o mais próximo possível da experiência de escutar o disco em casa…esses vídeos são de dos discos sendo tocados em tempo real.
Cristiano Passos: Bem, muito obrigado pela entrevista, Josh, e pela atenção de sempre! O espaço final é todo seu! Grande abraço!
Josh S.: Eu que agradeço, mermão! Estamos muito animados para essa temporada no Sul, em breve estaremos conversando pessoalmente e dessa vez com mais tempo. Grande abraço e mantenham sempre o espírito underground!
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