A Omfalos é uma banda de Brasília que toca um Black metal com diversas influências dos mentores do projeto, Thormianak e Zé Misanthrope. A entrevista foi com o guitarrista Thormianak, que também toca no Miasthenia e no Mythological Cold Towers. É uma banda diferenciada e isso dá para notar pela entrevista e pelo debut CD da banda, Idiots Savants. Confira:

Entrevista feita por Andr Arruda e publicada no dia 18/02/2013
Andr Arruda: Começo agradecendo a banda pelo aceite na entrevista. Há um tempo já queria realizá-la com a banda e enfim iremos conseguir. Gosto que na primeira pergunta das entrevistas a própria banda comece relatando seu início, desde o contato entre os integrantes até a discussão sobre a escolha do gênero e caminho que a música do grupo iria seguir.
Thormianak:   Olá, desde já agradeçemos pelo espaço! Bom, o Omfalos começou como um projeto meu, onde poderia desaguar composições um pouco diferentes das que praticava no Miasthenia, tentando não me prender a algum rótulo mas respeitando minhas limitações como músico, ou seja tentar fazer música honesta, no meu caso uma experimentação entre o Metal Extremo, Punk/Harcore, Industrial e Gothic Rock 80. A banda se forma realmente no final do ano de 2009, com a chegada de Z.Misanthrope, vocalista e letrista, que até então residia em Vancouver, Canadá. Optamos pelo formato "dupla" para compor e gravar, pelo simples fato de termos os afins suficientes tanto no âmbito musical como no pessoal, que se fez desnecessário ter uma banda nos moldes tradicionais. Nossa musica fala sobre problemas mentais e distúrbios psicossomáticos, que afastam o indivíduo do convívio social, tornando-se margem da margem, um pária social. Ao vivo contamos com membros sessions que vem de diversas bandas da cidade.  
Andr Arruda: Eu sempre achei um diferencial importantíssimo essa opção do Omfalos por trabalhar mais em dupla. Acredito que esse formato agiliza muito o processo de composição e outros trâmites que bandas tradicionais levam bem mais tempo para discutir. Mesmo com esses membros sessions, notei que o baterista Victor Lucano (Device, Miasthenia e Harllequin) participou do primeiro disco e também irá participar do segundo. Qual é a situação dele na banda? Como aconteceu o contato com ele e como ele participa das gravações?
Thormianak:   Sim, o formato em dupla facilita muito o processo, pois centraliza mais o trabalho. Eu componho todas as musicas, e o Misanthrope coloca as letras, gravamos no estúdio dele, o Less Than Zero studio, ou algo assim, hehehe! O Victor já tocava em bandas conjuntas tbm com o Misanthrope, então foi um processo natural com ele, que na verdade gravou algumas partes, nem todas foram ele, pois estávamos também com outros processos na cabeça então, algumas coisas foram gravadas por outros, mas sim, o Victor é membro da banda, só não participa da parte chata, entregamos o produto quase pronto e ele coloca sua habilidade como baterista a disposição da banda.  
Andr Arruda: A partir desse processo de composição, o que vocês dois tem em comum na área musical e que influenciou na estrutura de som que a banda iria seguir? E no sentido inverso? Você acha que os diferentes tipos de som que vocês curtem contribuíram para a originalidade do som que vocês fazem?
Thormianak:   Nós somos de gerações bem diferentes, eu tenho 42 anos e ele tem 29 anos, mas por incrível que pareça temos os gostos bem parecidos musicalmente falando, gostamos de Industrial, Gothic Rock 80/90, Punk/Harcore, fora o Heavy Metal e suas infinitas derivações. Pois é, com certeza influenciou muito, mas digo que nada daquilo é novidade, talvez a novidade seja ter conseguido colocar um pouco de tudo de forma coesa e integrada na musicas, como diria um amigo nosso: "não tem nada mais velho que querer ser novo!" hahaha! Tudo que está ali no Omfalos tem pelo menos uns 15 ou 20 anos rodando pelas vitrolas mundo afora! Só fizemos juntar um pouco de tudo no nosso rolê!  
Andr Arruda:   Então vocês não acreditam que a banda caminha nesse sentido de som novo, de apresentar um estilo diferente ou algo nesse sentido, mesmo com a certeza do grupo ter encontrado um ponto ideal para expressar todas essas influências e ficar um som foda e diferente?
A Omfalos ficou marcada como uma banda que apresentou experimentalismo, agregando arranjos diferentes no Metal Extremo nacional. Escuto e leio muita gente classificando-os como "Black Metal Avant-garde" ou "Black Metal Experimental". Vocês gostam desses termos creditados à vocês? Você escuta bandas que são classificadas assim?  
Thormianak:   Talvez apresentar uma ideia nova de encarar os diversos formatos de música, extrema ou não, tentando não descartar possibilidades, tentando não se limitar em idéias, mas também, tentando não ser "over" demais! Não queremos reinventar a roda, temos muitas limitações musicais, o Omfalos está longe de ser uma banda avant garde mesmo. Quando se houve um Magma ou um Neubautem, que são dos anos 70 e 80 se tem a nítida noção disso, mas sim estamos apresentado uma novidade no cenário extremo nacional, mas sem querer ser arrogante, é nossa forma de encarar as diversas facetas da coisas que gostamos, tanto no âmbito musical como nas artes plásticas e literárias. Não ouço muito avant garde black metal, já ouvi bastante, mas me cansa um pouco hoje, muita "viagem" e eu não fumo maconha, hahaha! Mas não julgo, eu prefiro ouvir Garotos Podres, Root ou Young Gods, mas esse sou eu, minhas piras são outras.  
Andr Arruda: Falando um pouco sobre o debut (chamado Idiots Savants) de vocês, uma das coisas que eu curti muito foi o visual do CD. Essa mistura do preto e vermelho, com as fotos no cemitério ficaram muito boas. O trabalho do design ficou por conta somente do Misanthrope? E em relação à duração do álbum, ele contém apenas 26 minutos. Existe algum motivo do material ser lançado com um tempo relativamente curto?
Thormianak:   Sim, todo o trabalho gráfico ficou por conta dele, que é um grande designer gráfico, a capa do disco é uma pintura verdadeira, uma tela que ele fez exclusivo para o disco, um jogo de cores fortes, uma visualização abstrata dos pensamentos que colocamos neste trabalho. Sim existe todo um conceito na parte logística do álbum, contamos uma história nele, sobre como as doenças mentais vão te paralisando rapidamente, por vezes invizibilizando os indivíduos que as possuem. A intenção de começar o disco numa pancada desenfreada e do meio pro fim vai se freando aos poucos até desaguar num gothic rock 80 meio extremizado traz a sensação da entrega, da derrota, como um peixe fisgado que se debate muito antes de morrer mas que em poucos momentos se entrega ao seu destino, os 26 minutos servem em tempo real com inicio, meio e fim de uma vida como a conhecemos.  
Andr Arruda: E o papel da Equivokke Records no processo do primeiro álbum? Vocês continuarão a trabalhar com eles no próximo trabalho? Vocês acham que a divulgação via internet foi importante para o destaque que banda conseguiu no cenário nacional e internacional (destaques no Japão e na Europa)?
Thormianak:   Quando assinamos com a Equivokke o disco já estava pra jogo na internet, com uns 2000 downloads, mas mesmo assim o Fellipe e nós apostamos no formato CD, e deu certo!! Acredito que a primeira prensagem de 1000 CDs já tenham se esgotado, eu mesmo tenho alguns só aqui em casa. Hoje temos mais de 70000 downloads do "Idiots Savants" foi um pequeno sucesso mesmo, a internet ajudou muito mesmo nesse sentido, mas temos total consciência que é muito passageiro isso, caímos nas graças de curtidores de outros estilos fora do Extremo Metal, mas também pode ter sido apenas curiosidade pela proposta apresentada, não sei te explicar, mas o que sei e que somos uma banda muito, mas muito underground ainda, apesar de ter rolado bem o disco dentro e fora do país. Próximo disco também deve ter a colaboração da Equivokke, e que será um outro experimento sonoro, deve sair ainda este ano, o Omfalos é um desague de ideias e sentimentos, então nunca sei se as pessoas se apegam porque sentem do que se trata ou pelo som diferente do que rola por ae, vamos ver o que pegará neste próximo.  
Andr Arruda: Falando no novo trabalho, conte-nos como será o novo CD. Seguirá a linha do IS? Já existe uma previsão de lançamento? Eu li que o nome será Cotton Candy Rendezvous, o que o título significa?
Thormianak:   Pois é, acho que não seguirá diretamente o processo do Idiots, mas sim existirá uma ligação entre eles. Me dei ao luxo de compor sons com mais "respiros" nada demais, mas com uma carga emocional um pouco maior talvez, sobrarão espaços para vocais mais limpos e cantados, do nosso jeito, será algo um pouco mais soturno digamos. O disco tem uma história só, e se amarra nela, resumindo bem, conta a história de um velório, das pessoas que estão nele, que apesar da pessoa morta ser a "amarração" ou o afim entre elas, não se conhecem entre si e são completos estranhos. Um bordel de algodão doce é algo surreal, um encontro de pessoas desconhecidas e o desenrolar disso antes, durante e depois do velório. Este tipo de tema é algo como um romance, um conto, algo assim, algo como Alvarez de Azevedo já fez, mas com uma trilha sonora forte junto.  
Andr Arruda: Foda! E no próximo álbum as letras das músicas estarão no encarte? E qual é a previsão de saída do trabalho? Em relação aos shows da Omfalos, pelos vídeos que eu achei na internet, o show de vocês combina um ar atmosférico e climático, com uma presença de palco fudida, agitando bastante nas horas rápidas das músicas. O show de vocês foi trabalhado para ter alguma temática ou algo pré-pensado ou sai tudo na hora mesmo? E a agenda de vocês, como está? Tive acesso a poucos cartazes de shows da banda, inclusive fiquei sabendo do show de estréia de vocês que foi cancelado e tal... Enfim, como está a situação ao vivo da Omfalos?
Thormianak:   Hahaha, várias perguntas numa só! Massa! Vamos por partes então! Começando pelo início, então esperamos que o disco saia no início do segundo semestre deste ano, estamos muito próximos de começar a mix e master dele. Os shows do Omfalos foram poucos e pontuais, talvez uns 4 ou 5 apenas, e neles contamos com amigos pra executar os outros instrumentos, como o já citado, V. Digger (Miasthenia e outras) na bateria, Hécate (Miasthenia) no teclado, Nylon (Vultos Vocíferos e Dohma) na outra guitarra e No Music no baixo (Final Trágico), tentamos do nosso jeito passar a intenção do disco pro palco, uma tarefa difícil, mas agradável no meu ver. Seguimos o ritmo do disco, que começa super urgente e acaba num devaneio Dark, é o que tentamos fazer ao vivo, reproduzir esses sentidos aí. Nós encerremos o processo "ao vivo" do disco "Idiots Savants", não é muito fácil fazer esses rolês, fizemos poucos e bons shows com algumas boas bandas e outras nem tanto, então nós, eu e o Misanthrope decidimos que agora só faremos shows pontuais, ou seja, algo que seja especial pra quem vê e pra quem toca, então talvez a gente volte a tocar os sons do debut ao vivo, junto com as novas. Sim, nosso show de estreia era com algumas bandas de Black Metal daqui de bsb e uma sueca, que por sinal foram extremamente arrogantes, nada demais, já fiz shows com a maioria das bandas de Black Metal que vieram aqui pro Brasil, junto ao Miasthenia ou na minha época com o Vultos Vocíferos, e também agora na Europa com o Mythological Cold Towers onde sou baixista e Hécate toca teclado, então estou bem acostumado com as "arrogâncias" gringas, nesse dia em especial, não tocamos por diversos fatores o mais importante deles foi não haver amplificadores pras bandas de abertura, ou seja, me convidam pro churrasco mas não tem carne nem cerveja, e nem pedem pra levar, hahaha! Mas ok, estamos vivos e com saúde, hahaha!  
Andr Arruda: hahaha me empolguei e fiz várias de uma vez. Poisé, na sua resposta já acabasse entrando na minha próxima questão, que seria esse boom de turnês de bandas brasileiras realizando turnê fora do país, principalmente na Europa. Vocês já chegaram a pensar em fazer uma turnê internacional? Penso que, até pelo sucesso do debut no Japão e na Europa, seria um processo natural em meio a essa quantidade de bandas que estão indo pra fora. Você inclusive teve essa experiência recente com o Mythological Cold Towers em 2012 e o Misanthrope morou fora do país. Qual é a visão de vocês sobre essa explosão de turnês fora do país, algumas se dão bem, mostrando seu trabalho, mas existem histórias de bandas que acabam contraindo dívidas e se ferrando?
Thormianak: Tudo tem seu tempo e sua função acredito, e seguindo essa idéia, sim é possível que role de tocar fora do Brasil, mas não é algo que me motive não, seria mais um rolê legal pra se fazer, tem muitos contras nesses rolês vou citar alguns e depois cito os prós também, mas seguindo, cara, se gasta muito dinheiro lá, por mais que você coma Miojo todo dia e beba água de torneira, pois nada é baratinho, e meu, não é fácil se acostumar a isso, fora que tem zilhôes de bandas de lá em tour, tem shows todo dia e todo lugar de qualquer coisa, na rua então você pode ver músicos espetaculares tocando por alguns trocados, por mais que você acredite no potencial da banda em que se toca, é muito difícil prever se os shows serão viáveis financeiramente, é algo muito no escuro ainda, não está difícil de fazer os rolês o difícil e saber se vai valer a pena. Agora, falando do prós, é muito foda você estar em países onde o rock em geral é tratado com música de gente grande, onde os espaços são ótimos, os equipos idem e público educado e conhecedor da causa, se for pensar em abrir horizontes e adquirir experiências é o melhor a se fazer, com certeza foi o meu caso neste rolê com o MCT, onde tive oportunidades únicas, mesmo, uma delas foi tirar uma foto ao lado da estatua do Phill Lynott do Thin Lizzy em Dublin, isso valeu todo o rolê!
Andr Arruda: Aproveitando a sua experiência com a música, eu queria saber sua opinião sobre a atual cena musical no Distrito Federal e região e no Brasil. Falando principalmente em Metal Extremo, como você enxerga esse momento?
Thormianak: Pois é, Metal Extremo aqui vai bem, existem dezenas de bandas novas e algumas que resistem ao tempo e vem desde os anos 90, só não tenho "esse" contato com a rapaziada que faz o rolê, sei lá, por vezes acho esse "hermeticidade" no Black e Death Metal algo bem importante pra fundamentar e legitimizar suas ideias, mas chega um tempo que não se pode viver nas cavernas do "truzismo" e negar a imensidão de referências musicais que existem no mundo, se é que você me entende, eu, como guitarrista do Miasthenia, acredito fudidamente na minha banda e na minha concepção de Metal Extremo, mas também como ser pensante e atuante na cena me afasto de "cabeças-duras" e de suas velhas manias de meter o pau em tudo que não conheçam, posso citar outros rolês que me agradam bem mais, aqui em Brasília, com as bandas Subterror, Violator, Soror, John No Arms, Final Trágico, Caligo, Embalmed Souls, esse é mais meu esquema quando falo de cena em BSB, não desmereço ninguém, como sempre repito, são minhas considerações. Ah sim, sobre locais, aqui é como no restante do país, muito escasso, muito difícil mesmo, que faz shows, com o Fellipe CDC, Marreco, e Pedro Poney, são heróis mesmo. Puta cara, no Brasil eu acho que existem mil bandas ótimas, Desdominous, Osculum Obscenum, Poeticus Severus, HeadHunter DC, Facada, Black Coffins, Mito da Caverna, Hell Light e outras são as bandas que eu apoio e sigo acompanhando o trampo até hoje.
Andr Arruda: Conte um pouco como foi receber uma mensagem de Christophe Szpajdel (Emperor, Borknagar, Horna, Moonspell, Wolves in the Throne Room, etc) elogiando o som de vocês e inclusive dizendo que a sua música estava inspirando-o na sua criação de logos? Vocês já tinham contato com ele?
Thormianak: Ah sim, isso foi em Portugal, no rolê com o MCT, o Christophe Szpajdel estava fazendo uma exposição do seu livro "Lord of Logos" no show Barrosellas, e viu um amigo meu brasileiro, Gabriel Teykal, que estava com a peita do Omfalos no dia, ele já o conhecia e se interessou bastante pelo nome e pela arte da camiseta, e queria saber onde poderia ouvir a banda, foi ai que o Gabriel me achou lá e me apresentou o Christophe, trocamos uma ideias e fizemos uma troca de material, ele estava com alguns CDs de algumas bandas as quais ele tinha trabalhado no logo, e eu entreguei pra ele duas cópias do "Idiots Savants" e foi isso, me despedi e fui embora curtir os shows, para minha surpresa recebo uma mensagem no meu inbox pessoal do Facebook dois ou três meses depois, e era ele elogiando muito o trabalho do Omfalos e falando que estávamos inspirando-o pra seguir em frente com seus trampos, isso foi muito bom, mesmo, este tipo de reconhecimento gratuito faz toda a diferença! Na Europa pude conversar muito tranquilamente sobre musica e meus pontos de vista com muita gente legal além dele, mostrei o trabalho pras pessoas que logo de cara faziam mil perguntas e ficavam bem interessados, foi muito bom isso!
Andr Arruda: Espaço livre, fale o que quiser!
Thormianak: Agradeço a você André pela entrevista e pelo espaço cedido, ah sim, rapaziada, eu sempre digo isso e vou repetir aqui, o Metal Extremo, ou a música extrema, ou qualquer variante que você escolher deveria ser o "caminho", o "pavimento", a "estrada", e não o objetivo fundamental disso tudo, pois precisamos aprender muito ainda, só assim com a mente aberta, no entanto seguindo nossas próprias diretrizes e limitações, a gente vai conseguir fazer a diferença neste rolê musical, e um dia quem sabe, de verdade transformar este país em algo melhor pra nós.
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