O Distraught é banda das antiga, formada em 1990, já tem um longo caminho percorrido na trilha do Thrash Metal e do underground brasileiro e sul-americano. Contando com cinco full-lenghts lançados, todos com qualidade acima da média e detentores de excelentes resenhas, a banda é formada atualmente por André Meyer (Vocals), único remanescente da formação original, por Marcos Machado e Ricardo S. Silveira (Guitars), Nelson Casagrande (Bass) e Dio (Drums). Para esta entrevista conversamos com o André e abordamos diversos tópicos, que vão do início e formação da banda, até cena porto-alegrense e o momento atual do Distraught. Confiram:

Entrevista feita por Alex Neundorf e publicada no dia 10/11/2012
Alex Neundorf: Amigo, primeiramente agradeço o tempo e atenção dedicados ao nosso site e também gostaria de dizer que me sinto honrado em poder contar com sua participação em nossas páginas virtuais. Pois bem, apesar de o Distraught já ser uma banda bastante conhecida, principalmente na nossa região sul (e eu diria até que se trata de um ícone do Metal em um nível nacional), gostaria de iniciar com aquilo que já é de praxe: nos fale sobre a trajetória da banda, sobre sua história desde o início até os dias de hoje. Mais uma vez obrigado pelo aceite em ceder essa entrevista e agora o espaço é todo seu.
André: Eu é que agradeço pela oportunidade de fazer parte de uma edição da GoreGrinder. Quem acompanha um pouco a Distraught sabe que eu sou o único integrante desde o inicio da carreira da banda, nesses anos trocamos várias vezes de integrantes sempre em busca de seriedade e crescimento musical. Gravamos 5 cds, tocamos em quase todo Brasil, tours pela Argentina e Uruguai etc. Sempre me empenhei muito durante esses 22 anos e não me imagino longe da Distraught, eu e meus companheiros estamos sempre aprendendo juntos, acho que isso é a resposta para a evolução de nossa música. No inicio não pensava nem mesmo que iriamos gravar um LP (na época) então gravamos 9 sons e fomos convidados para participar de um split (Distraught, Zero Vision e Scars) no formato CD com 4 músicas de cada banda, isso foi incrível na época porque nem mesmo tínhamos aparelho pra rodar o CD quando foi lançado (risos). Tivemos sempre altos e baixos, passamos por momentos de dificuldade mas isso faz parte do mundo musical que escolhemos.
Alex Neundorf: Nos conte sobre o processo de formação da banda e da gravação das primeiras demos e desse split. Como esses trabalhos contribuíram para consolidar a banda? Na primeira demo (‘To Live Better’ de 1990) temos a faixa ‘Nervous System’ que intitulará quase oito anos depois o primeiro full-lenght do Distraught: esses trabalhos pré-debut colaboraram de que maneira para esse lançamento? Além disso, gostaria que você também nos falasse um pouco sobre o nome ‘Distraught’, como foi que chegaram até ele, enfim, comente algo acerca desse momento onde tudo se originou.
André: No inicio tocávamos por pura diversão, a demo ‘Live Better’ foi gravada em um ensaio, todos gravando juntos e depois os solos separadamente, mas não tem nenhuma música com o nome ‘Nervous System’ (correção). Lembro quando as pessoas pediam pra rolar Distraught na Ipanema FM e várias vezes eles rodaram nossas músicas em programação normal, muito legal. Lembro como rolou de fazer nosso primeiro show também, eu estava de carro passando pela Osvaldo Aranha escutando a radio Ipanema quando a Katia Suman falou: preciso que alguém da Distraught entre em contato comigo, então parei o carro e fui em um telefone público e acertamos tudo, seria com a Panic, lembro que foi um dia especial.  Em 1989 eu tocava em uma banda chamada ‘Desintegrate’, e tinha uns amigos que estavam se juntando pra montar uma banda, já tinham algumas músicas, mas não tinham vocalista, logo a banda que eu estava tocando terminou então entrei na ‘Distraught Agressor’ criado pelo primeiro baixista Issac Goulart, foi a primeira coisa que falei pra mudar e deixar apenas Distraught.
Alex Neundorf: É, as vezes a gente é traído pelas informações que encontramos na internet. Aproveitando o gancho, desde a demo ‘To Live Better’ de 1990, o que você apontaria que mudou no som do Distraught, ou na postura da banda e na sua visão de mundo sobre Metal e Underground especificamente.
André: Na época queríamos fazer um som bem crossover, nossas influências eram SOD, MOD, Suicidal Tendencies. Acho que as mudanças no nosso som ocorreram muito em função de muitas trocas de integrantes, e também porque acho que demora para uma banda encontrar sua própria identidade, sem ficar querendo parecer com isso ou aquele outro, no caso da Distraught o ‘Behind the Veil’ foi o álbum que mostrou o rumo que deveríamos seguir. Metal e underground, acho que sempre andaram juntos, ou deveriam andar, acho que nos anos 80 a coisa era mais unida, pela camiseta, hoje os interesses pesam mais, principalmente por parte dos produtores. A internet mudou muito o rumo das bandas e gravadoras.
Alex Neundorf: Você mencionou as dificuldades que o Distraught teve de superar para manter-se ativo, dificuldades que são, me parece, o paradigma do Underground Metal no Brasil. Creio que, e você aponta isso mesmo, as trocas na formação foram uma dessas dificuldades. Até que ponto essas trocas na formação prejudicaram a trajetória da banda, se é que prejudicaram? Aliás, você encara dessa forma mesmo, como um ‘prejuízo’? Seguindo, gostaria que você abordasse essa questão de maneira mais ampla também: questões de grana para financiar a banda e suas empreitadas, o fato de vocês não estarem radicados em um grande centro de consumo desse gênero (que no Brasil se limita a São Paulo/SP), desunião na cena, etc.
André: Sim, quando se busca um trabalho com potencial, é necessário investimento e isso não é barato, certamente muitos músicos desistem por esse motivo, eu desde o inicio sabia onde estava me metendo e não me sinto frustrado com tudo que já investi. As trocas de integrantes ocorrem por vários motivos, isso faz parte até que tudo se firme, mas é claro que atrasa um pouco os trabalhos. Sim, sabemos que se tivéssemos em São Paulo a coisa seria diferente, o Krisiun saiu daqui por esse motivo, mas é que temos nossas vidas aqui e lá não temos como nos manter.
Alex Neundorf: Em consonância com as anteriores, gostaria que você falasse sobre o processo criativo, de composição, como ele funciona pra vocês? Uma vez que você é o único remanescente desde 1990 e o Distraught mesmo assim mantém uma identidade musical, de proposta mesmo, muito fiel em todos os trabalhos: você é o grande responsável por isso, qual é o seu papel nisso? Além disso, como vocês pensam a coisa ‘banda’, como hobby, como negócio, ou um mix disso? Nos fale sobre isso também.
André: Nós estamos sempre aprendendo juntos, trabalhamos unidos nas nossas composições, uns colaboram mais outros menos com ideias, mas a aprovação final é de todos, cada álbum foi feito de forma diferente porque as mudanças que ocorrem são justamente os erros que não devemos repetir no novo álbum. Sim, creio que sou importante por parte de tudo que foi feito, mas o Ricardo trabalha duro também e é grande responsável por quase tudo, nós dois estamos sempre em sintonia, discutindo o que precisamos fazer com nossas músicas. Esse último CD foi feito todo baseado em uma pré-produção na casa do Ricardo, o que é muito mais prático e menos cansativo hoje em dia, depois é claro que experimentamos tudo tocando no ensaio pra sentir melhor nossa música, não esquecendo a colaboração que tivemos do Diego Kasper (ex-Hibria) em algumas músicas do ‘The Human Negligence is Repugnant’, somos grandes amigos e ele sempre deu a maior força pra gente. Atualmente a base da nossa música necessita de bons riffs, um trampo diferenciado de baixo e bateria e refrãos marcantes, quando estamos compondo nos preocupamos como nossa música funcionará ao vivo, então ai está pronta pra gravar.  A banda é uma satisfação pessoal, um vício, claro que com muitas pedras no caminho, mas isso talvez é o que torne emocionante, quando tu consegue superar as dificuldades e realizar as metas. Como levamos as coisas tão a serio muitas vezes esquecemos da parte "hobby", acho que quando estamos viajando a descontração é maior. Também é um negócio, porque precisamos administrar o dinheiro que entra com venda de merchan, cachê, etc. pra investir mais na Distraught.
Alex Neundorf: Você é o principal letrista? Alguns temas são bem constantes desde ‘Nervous System’, tais como os de ordem psicológica mesmo e os de crítica social e política. Hoje o que mais os ‘incomoda’, digamos assim, para que se tornem temas nas músicas do Distraught? Como você constrói uma letra: pensa em português primeiro, pensa na sonoridade, enfim, nos fale sobre isso. Uma vez que a parte lírica certamente tem uma importância fundamental para vocês.
André: Agora digamos que sim, já que o ‘The Human...’ foi todo escrito por mim, anteriormente dividia com o Marcos (Guitar). Hoje o que mais me incomoda é a impunidade, a injustiça e o descaso com povos mais fragilizados, nosso planeta é extremamente desumano, poderíamos resolver grande parte das deficiências do mundo se a ganância e desigualdade não estivessem sempre presentes. Não há uma fórmula especifica para mim escrever, muitas vezes vou escrevendo sem saber bem o que virá, mas é claro, a cada disco procuro escrever sobre um tema, não obrigatoriamente que eu tenha que seguir algo conceitual mas uma ideia geral do que quero falar. Atualmente procuro escrever quando já tenho um rascunho da música em si, o Ricardo ou o Marcos me enviam alguns riffs, já com uma bateria programada, e vou escrevendo em cima, criando refrãos, etc.
Alex Neundorf: Você mencionou as tours por Argentina e Uruguai, nos conte como foi essa experiência. Lembro-me de ter lido as notícias sobre a turnê conjunta com o Climatic Terra e com o Criminal também. Como são os cenários nesses países, ao menos o que você percebeu? Pela proximidade do Rio Grande do Sul com esses países é de se pensar porque as bandas da região não exploram mais esses países, afinal Argentina e Chile, por exemplo, são notórios locais de um público louco por Metal.
André: Bom, o show que fizemos com Criminal e Requien Aeternan em Montevideo já faz bastante tempo, mas foi muito bom. Criminal é uma grande banda, bastante conhecida lá fora. As tours que fizemos pela Argentina sempre foram legais também, eles curtem muito a Distraught, adquirimos respeito por lá. As cidades onde os shows foram sempre mais quentes são Córdoba, Mar del Plata, Rosário, San Juan e Mendonza. Temos um grande respeito por aquele povo. Nossa última tour foi em maio deste ano com a Climatic Terra, nossos grandes amigos, viajamos juntos pela Argentina e os shows foram ótimos.
Alex Neundorf: Me aproveitando dessa temática, nos conte mais sobre o cenário aí na tua terra. A quanto anda o mundo Metal daí? Também, nos fale da agenda do Distraught para os próximos tempos.
André: Aqui tá rolando bastante coisa, tocamos recentemente com a Krisiun e Leviaethan, e também fizemos um show com a Hibria. A galera aqui está sempre se renovando, nos shows da Distraught temos percebido isso, publico mais jovem entende. Temos dois shows confirmados, dia 06 de outubro em São Leopoldo e dia 15 de novembro em Gravataí no UMF RS. Estamos agora trabalhando com nosso novo vídeo clip também.
Alex Neundorf: Falando em clipe, vocês lançaram recentemente o primeiro vídeo clipe oficial da banda com ‘Hellucinations’, certo? Como foi a experiência e como foi a recepção deste trabalho?
André: Bom, na verdade temos outro do álbum 'Behind the Veil’ da música ‘The Order’, mas ‘Hellucinations’ é nosso segundo e mais recente vídeo clip. Tivemos muitos problemas com a produção desse trabalho, os caras abandonaram a gente, achávamos que eles não iriam concluir o serviço, mas depois de 1 ano e meio ficou pronto, isso foi muito estressante pra nós, o resultado e o retorno foram bons mas o atraso prejudicou bastante.
Alex Neundorf: Voltando um pouco, você já nos falou, ligeiramente, da importância do ‘Behind the Veil’. Resuma-nos cada um dos principais trabalhos da banda. Qual a importância que cada trabalho teve? Qual a atmosfera que envolvia cada um desses lançamentos?
André: Acho que todos tiveram sua importância para nosso crescimento. No ‘Ultimate Encore’ não sabíamos nada sobre gravação, na época nossos amigos do Leviaethan deram umas dicas pra gente. ‘Nervous System’, já com nova formação, foi um álbum de estreia, então estávamos felizes por estar trabalhando nele. Naquela época fazíamos muito poucos shows, a cena aqui estava em baixa. ‘Infinite Abyssal’, esse álbum acredito ser o que possui mais elementos de Death Metal, queríamos viajar bastante, tem muitos riffs interessantes, mas poderia ser mais bem arranjado. ‘Behind the Veil’ com a produção de Fabiano Penna (ex-Rebaelliun & The Order) teve um preparo mais sério, já estávamos usando metrônomo, o que é um ponto fundamental pra se trabalhar nos dias de hoje, as composições evoluíram bastante também. Em ‘Unnatural Display of Art’ já iniciamos fazer uma pequena pré-produção, o que já começou dar um resultado positivo, porque assim podemos sentir melhor a música como ela ficará depois de gravada, foi muito elogiado pela mídia. ‘The Human Negligence is Repugnant’ é nosso filho mais novo, investimos muito nele, letras que falam da corrupção por parte dos governantes, miséria, desigualdade social, tu pode encontrar muitos ritmos nesse álbum, todos pensavam que seria difícil superar o ‘Unnatural’ mas está aí ele, um disco que vem sendo elogiado por muitos até agora.
Alex Neundorf: Desde ‘Behind the Veil’ de 2004 vocês tiveram um longo período sem lançar algum trabalho, até 2009 com o ‘Unnatural Display of Art’. Porque todo esse tempo?
André: Não lançamos discos a cada ano, mas realmente esse foi um período longo entre um e outro. Creio que muitas vezes é o clima que tá pegando na banda, às vezes se um componente não está satisfeito com a banda e isso desmotiva o resto, acho que isso é o mais provável que tenha acontecido.
Alex Neundorf: Já em se tratando do momento atual, o que você tem a dizer? Como está sendo a recepção, por público e crítica, desse último trabalho, ‘The Human Negligence is Repugnant’? Sei que é bem recente para ter um feedback mais apropriado, mas diga ai.
André: Como já falei, as resenhas do nosso novo álbum estão muito boas, mas ainda falta muita gente ouvi-lo para falar sobre.
Alex Neundorf: Para quem nunca os viu ao vivo, nos conte como é um show do Distraught, o que o público pode esperar?
André: É sempre de expectativa, muitas vezes difícil pra escolher o set list, mas procuramos botar toda nossa energia quando estamos tocando para que a galera retribua na mesma altura e sempre criar algo novo pro show, queremos tocar muito, agora que estamos com nosso novo álbum e mostrar como funciona a banda e as músicas novas ao vivo.
Alex Neundorf: Amigo, obrigado pela atenção e repito que é uma honra poder contar com vocês aqui nas páginas do GoreGrinder. Como de praxe, o espaço agora é para suas considerações finais. Até a próxima!
André: Queria agradecer pela oportunidade de participar dessa edição da GoreGrider, e dizer que a honra é toda nossa de poder contar com vocês. Esperamos poder tocar e mostrar nosso novo álbum ao vivo em muitas cidades do Brasil, para que todos possam conferir como a Distraught funciona no palco. Um forte abraço a todos que apoiam o movimento e valorizam as bandas de nosso País.
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