A banda santista No Sense, formada no início da década de 1990, é uma daquelas instituições do underground que só não tem o devido reconhecimento do público em virtude da "pausa" de cerca de 15 anos em uma história de muito barulho e atitude. Porém, após esse longo hiato, eles resolveram voltar em 2008 e lançaram, em 2011, um novo disco – "Obey" – que mostra um No Sense inteligente, muito mais pesado e com uma saúde invejável, detonando o som extremo de costume, mas com personalidade e muito mais maturidade. Confiram, então, a entrevista que fizemos com eles a fim de conversar um pouco sobre essa longa história de dedicação ao underground.

Entrevista feita por Cristiano Passos e publicada no dia 09/09/2012
Cristiano Passos: Marly e Júnior, sejam bem-vindos ao Goregrinder webzine! É uma grande honra poder falar com o No Sense, ainda mais em um momento tão peculiar para a banda, que está de volta após um longo hiato. Quanto tempo durou esse hiato e por que a banda parou tanto tempo?
Marly: O prazer é todo meu. Todo nosso! A banda ficou parada por quase 15 anos. A “hibernação” aconteceu naturalmente. Por conta de problemas pessoais meus resolvemos pausar as atividades por 1 ano...cada um seguia seu rumo...e esse 1 ano virou quase 15 sem que nunca tivéssemos encerrado de fato a banda. A volta aconteceu naturalmente. Estavam todos disponíveis e com uma vontade imensa de voltar.
Cristiano Passos: O que os integrantes do No Sense fizeram durante esses anos de inatividade? Vocês se mantiveram em contato nesse período?
Marly: Todos nós tivemos nossos projetos e bandas. O Angelo teve o Abuso Sonoro, o Morto o Heavenly Kingdom e Repulsão Explícita, o Paulinho o Abomydogs, In Hell, Empire of Souls e eu o Chesed Geburah. Alguns desses projetos e bandas continuam sendo trabalhos paralelos deles. Não tivemos um contato muito frequente. Nos encontrávamos basicamente em shows na região.
Cristiano Passos: Marly, você pode nos falar um pouco sobre a atual formação da banda? Como é conviver com a mesma turma por tanto tempo, já que boa parte dos integrantes ainda é a mesma? Por fim, o que levou à saída do Angelo, baixista original do No Sense que chegou a participar das gravações do “Obey”?
Marly: Eu acho perfeito pois conhecemos cada um como a nós mesmos. Somos quase como uma família. O Angelo saiu pois não estava conseguindo conciliar banda e trabalho. Foi um baque. Mas infelizmente ele não tinha outra opção. Entre o trabalho e a banda ele teve que escolher quem lhe pagaria as contas.
Cristiano Passos: O No Sense foi certamente um dos precursores do Grindcore no Brasil e alcançou uma posição invejável no exterior em virtude desse pioneirismo. Sendo assim, como têm sido as repercussões desse lançamento no Brasil e no exterior?
Marly: Ainda não distribuímos efetivamente o “Obey” no exterior, não posso falar então da aceitação do mesmo. Mas temos tido bons feedbacks de quem aleatoriamente o adquiriu.
Cristiano Passos: Por falar em "Obey", o disco, de forma geral, está excelente! Em termos de som, está arrasador e muito preciso, mostrando uma banda muito entrosada, o que faz com que seja difícil parar de ouvi-lo, além de apresentar um peso absurdo nas faixas atuais. Que diferenças vocês encontraram para gravar essas faixas em termos de tecnologia e produção comparando com o período de gravação do EP?
Marly: Todas as diferenças possíveis e imagináveis!!!! A primeira delas foi um técnico de som super competente (Ivan Pellicciotti – O Beco Estúdio) e com um ouvido apuradíssimo que nos auxiliou e muito. Segundo que hoje você tem condição de pausar uma gravação e repetir quantas vezes for necessário até ficar exatamente do jeito que você quer e no trecho que você quiser sem precisar ter que fazer a música inteira novamente. Terceiro a experiência, bons instrumentos a disposição e muito capricho e dedicação, também ajudaram a fazer a diferença no resultado final desse MCD.
Cristiano Passos: As letras do No Sense mostram uma tendência crítica, sempre tendo como alvo a sociedade, as religiões e o capitalismo selvagem, como é frequente no meio Grindcore. Sendo assim, pode-se dizer que o No Sense é uma banda politizada, se considerarmos o conteúdo de “No more hope”, por exemplo, ou a própria faixa-título? Você acha que é possível fazer som extremo sem ser minimamente crítico quanto ao mundo em que vivemos, basicamente dominado pelo capital e pelas leis de mercado?
Marly: Acho possível sim... mas que a crítica está para o grind como o grind está para a crítica isso é fato. Porém, aos poucos também fomos inserindo a nossa realidade e chegamos a escrever sobre sentimentos que envolvem frustração e ódio. E atualmente temos discorrido sobre a cegueira religiosa também.
Cristiano Passos: Tenho lido algumas resenhas nas quais se diz que, na sonoridade do No Sense de “Obey”, pode-se perceber um apuro instrumental maior do que na época do “Out of reality”, mostrando algumas pitadas de Death Metal. Você concorda com essa afirmação ou, para o No Sense, é simplesmente som extremo/underground e ponto final? Em outras palavras, para quem vive o underground há duas décadas, essa diferenciação entre Metal e Punk, ou entre os diversos subgêneros da cena, ainda é algo relevante?
Marly: Pra mim não se trata de ser relevante ou não. Mas sim um fato. Temos hoje uma pitada de death metal, estamos ficando cada dia uma banda mais metal e menos core. Isso acontece influenciado basicamente pelo que mais ouvimos hoje, que é metal.
Cristiano Passos: A propósito, estava lendo o livro “Trevas sobre a luz: o underground do Heavy Metal extremo no Brasil” (2010), de Leonardo Carbonieri Campoy, no qual ele fala muito sobre “o real espírito underground”, conceito que esteve presente em diversas entrevistas que ele fez sobre a cena nacional. Na sua visão, existiria esse “real espírito underground”? Em caso positivo, como seria ele?
Marly: Acredito que nos dias atuais exista em menor escala. Mas existe ainda. Seria aquela corrente que se forma entre bandas e apreciadores de música que nunca vai estar na mídia. Algo mais “fechado” e exclusivo, que nos faz sentir pessoas privilegiadas por ter acesso a tal material.
Cristiano Passos: Aprofundando um pouco mais a pergunta anterior, ainda vale a pena viver pelo/no underground? Quais são as recompensas de se manter ativo na cena hoje em dia?
Marly: Poxa vida! Se vale!!! As recompensas são: chegar a um show em outro Estado e encontrar alguém que veio de um lugar ainda mais longe que você pra trazer um vinil pra você rabiscar. É no meio de uma música e outra alguém pedir um música que você gravou há mais de 20 anos! E as amizades que vem de bônus com o reconhecimento da sua banda é a maior de todas as recompensas!
Cristiano Passos: Frequentemente, se vê discussões acaloradas sobre o tema “tecnologia”, principalmente no que concerne aos downloads e mp3 e sobre o uso indiscriminado da internet, já que esta substituiu o tradicional serviço postal na manutenção do underground. Por outro lado, lembro que, no final dos anos 80 e começo dos 90, todo mundo trocava fitas com todo mundo e se pagava quase nada por isso, pois até mesmo os selos eram trocados ou devolvidos. Qual a sua visão sobre essa polêmica? Os downloads vão mesmo destruir o underground?
Marly: Júnior: Eu sou adepto das tecnologias existentes hoje em dia e acho que elas tanto viabilizaram muita coisa para a música underground como também prejudicaram em outras. Eu ainda continuo fazendo minhas trocas de demo, a única diferença é o formato que hoje é CD-R. Os downloads ajudaram na divulgação das bandas de lugares mais distantes do nosso país e acredito que tudo já está bem estabelecido, e quem gosta de comprar LPs e CDs nunca vai abrir mão de ter o item em original mesmo tendo baixado ele de graça pela net. Eu sou assim e tenho muuuuuiiiiiiitos amigos que são assim. Tem lançamento que eu nem perco meu tempo baixando, porque sei que não tem como eu não gostar, então, já sei que vou comprar o original.
Cristiano Passos: Lembro de ter lido, há quase 30 anos atrás, numa daquelas matérias raríssimas e idiotas sobre a nossa cena feitas pela revista Veja (também não se poderia esperar muito de uma revista como essa, né?), que o Metal era coisa de adolescente e que ninguém ia além dos 18 anos “naquela vida”. Porém, hoje em dia, vejo um panorama bem diferente, com muita gente “coroa” já, detonando por aí, seja em banda, fazendo zine, distribuindo discos ou simplesmente acompanhando a cena por meio de shows e do som. Como vocês veem essa questão, já que os integrantes do No Sense, ao que tudo indica, já passaram dos 18 anos faz algum tempo (hehe)?
Marly: Júnior: Sim, todos nós já passamos dos 18 anos faz algum tempinho... rsrsrs... mas isso apenas mostra o quão errado é o ponto de vista dos outros sobre nós, apreciadores de metal. Todos nós temos vários amigos da nossa faixa etária e outros mais velhos que continuam curtindo metal até hoje, comprando discos, frequentando shows etc. Por mais que queiram nos taxar de idiotas, desocupados ou alienados, já está mais do que claro que temos um gosto musical sólido e que nos acompanhará durante toda a nossa vida.
Cristiano Passos: Quais as diferenças entre ter uma banda na adolescência, quando se tem livre quase todo o tempo do mundo e não se tem outras obrigações no dia a dia, e uma banda já na vida adulta, quando se tem um pouco mais de recursos para lidar com algumas situações, mas se tem o tempo bem mais curto em virtude de outros compromissos? E em termos de mentalidade e visão de mundo, quais são as principais diferenças?
Marly: Há um paradoxo. Hoje em dia eu levo mais a sério, porém sem ilusões como as que eu tinha na adolescência, que era de um dia poder viver apenas de música. Hoje faço com muito mais prazer e consciência. Naquela época eu não tinha muita noção das coisas, do tesouro que eu tinha nas minhas mãos. Hoje em dia eu coloco mais a alma. Na adolescência, eu colocava apenas fúria.
Cristiano Passos: Com toda a certeza, hoje em dia, pode-se dizer que há um maior profissionalismo na cena brasileira em alguns aspectos. Para o No Sense, isso é importante para o underground ou o ideal seria preservar o seu caráter mais tosco e artesanal a fim de que a cena não perdesse sua aura original em prol de uma suposta artificialidade que, dizem, acompanha esse profissionalismo?
Marly: Júnior: Acho que todas as bandas hoje vivem uma fase diferente dos anos 80. Com certeza pra nós buscarmos algum profissionalismo naquilo que fazemos é muito importante e acredito que para o underground isso só fará bem. Isso eu digo desde o fato de você ter um instrumento melhor do que tinha anos atrás até o fato de querer tirar uma sonoridade melhor dele, mas sempre sem perder o foco daquilo que gosta de tocar! Tão importante quanto isso é o apoio daqueles que dizem que gostam e são undergrounds, prestigiando as bandas, os eventos e seus organizadores, comprando material underground e dando um suporte pra quem ajuda a girar essa engrenagem continuar na ativa produzindo mais som pra galera.
Cristiano Passos: Em uma entrevista ao site Rock Connection, no ano passado, você disse que ter assinado com a Cogumelo para o lançamento de seu full-length havia sido um erro. Por quê? Esse “erro” teve alguma influência sobre a decisão de deixar a banda parada por tanto tempo?
Marly: Vimos que foi um erro, pois a Cogumelo não era a gravadora certa pra nós. Eles não tiveram cuidado algum conosco. Nos encaminharam a um estúdio recém-inaugurado, com um técnico tosco que não conhecia nem gostava de metal. Sequer sabia fazer o próprio trabalho. Fomos cobaias. Nosso som teve um péssimo tratamento. As músicas do Cerebral são lindas, mas foram praticamente assassinadas pela sonoridade final. A Cogumelo também deixou a desejar no quesito divulgação. Realmente esse trabalho nos desanimou e nos deixou frustrados, mas isso não influenciou na nossa separação.
Cristiano Passos: Sei que é um clichê perguntar sobre mulheres no underground para você, porém, é inevitável lembrar disso quando ouvimos o No Sense e nos damos conta de que os vocais insanos e assustadores da banda são de uma mulher, ainda mais que todos sabemos que a esmagadora maioria dos envolvidos com som extremo é homem. Para você, o fato de você ser mulher, em algum momento, fez alguma diferença? Você enfrentou algum tipo de problema com a família ou com a própria cena por isso?
Marly: Minha família nunca se envolveu. Nunca achei que fossem entender e eu também não queria ficar explicando. E o fato de eu ser uma pessoa isolada, a “ovelha negra”, contribuiu para eu ter meu espaço sem ninguém dando pitacos. O único envolvimento de fato ocorreu por parte de minha mãe que, às vezes, chamava o Morto ou o Angelo para saber onde eu ia me meter em certo final de semana e que era pra eles “cuidarem” de mim. Apenas isso. Nunca enfrentei hostilidade por ser mulher, sempre tive muito apoio. Tive essa sorte. Talvez o apoio que recebi foi apenas a colheita do que plantei tendo uma postura séria, como uma headbanger, não como uma das mil meninas que estavam na cena apenas por causa dos "cabeludos", que não conheciam nada de som. Hoje em dia às vezes me deparo com um ou outro "sem noção" na plateia, que insiste em soltar graças de cunho sexual. Mas é sempre no começo, acho que logo o pessoal olha feio pro imbecil e ele se cala.
Cristiano Passos: Ainda nesse aspecto, sabemos que foram poucas as mulheres com vocais guturais ou gritados nas décadas de 1980 e 1990, como Sabina Classen ou Lori Bravo. De alguma forma, elas influenciaram você ou sua inspiração vinha de vozes masculinas mesmo? E você acha que pode estar influenciando outras mulheres mais jovens a seguir seus passos?
Marly: Naquela época eu só conhecia mesmo a Lori Bravo. E mesmo assim conheci depois que já tinha o No Sense. Minhas influências vieram todas do Lee Dorrian! Eu queria ser ele quando eu crescesse! Lógico que nunca cheguei aos pés. Mas a minha ideia de vocal ideal era ele. Mas o que eu conseguia de fato fazer era bem diferente, e não era nada pensado, era chegar e botar minha voz da forma mais brutal e suja que ela saísse, que eu conseguisse. Hoje em dia não acredito que ninguém venha a seguir meus passos não. Naquela época talvez. Hoje temos a Angela Gossow pra inspirar as meninas.
Cristiano Passos: Por falar em influência, o que vocês mais ouvem atualmente? Nesses anos todos, a galera do No Sense se manteve mais conservadora, ouvindo apenas o material das antigas, ou vocês também absorveram outras sonoridades posteriores e de outros estilos?
Marly: Júnior: Na banda cada um ouve aquilo que realmente gosta. Por exemplo, eu tenho ouvido muito as bandas que ajudaram a colocar os primeiros tijolos dessa história chamada rocknroll no Brasil. Bandas como Made in Brazil, Terreno Baldio, O Terço, Casa das Máquinas e outros, não saem da minha pick up. Fora outras tantas bem mais obscuras que não tiveram tanta notoriedade como as que eu citei. Mas também continuo ouvindo tudo que diz respeito ao metal em geral, do heavy ao death metal. Os demais integrantes também gostam das bandas mais clássicas do heavy metal, Sabbath, Led, Purple, Rainbow, mas o que eles adoram mesmo, são as bandas de som extremo, de death metal ao black metal, além das bandas oldschool de grindcore. A Marly, além desses estilos, ouve muito viking, celtic e folk metal.
Cristiano Passos: Bem, estamos chegando ao fim, mas antes de terminarmos, gostaria de saber se vocês têm planos de vir tocar no Sul do país ou alguma turnê por esse Brasil afora. O que podemos esperar do No Sense nos próximos anos?
Marly: Estamos dispostos a tocar em todos os lugares que nos ofereça uma condição mínima para tal. De fato o Sul e o nordeste do país estão em nossos planos. Em breve lançaremos material novo, que será um split com o Death Slam e em nosso próximo CD, que deve ficar pronto no final deste ano, contaremos com participaçes superespeciais, como a do Luiz do Vulcano e uma parceria com Vincent Crowley do Acheron que está compondo uma música conosco, em uma linha que agrada muito a banda e com a qual já flertamos, que é a linha mais doom, mais pesada, com um tema mais obscuro e doentio. Uma composição para fincar de uma vez por todas o nosso pé no metal e mostrar que não temos os limites impostos pelos rótulos.
Cristiano Passos: Muito obrigado mesmo pela sua disposição em participar, Marly! Deixo esse espaço livre caso você queira acrescentar algo que considera importante dizer.
Marly: Gostaria de agradecer a oportunidade e também o interesse pelo nosso humilde trabalho. Gostaria de dizer que estamos muito contentes com a recepção que o "Obey" tem recebido em todo o país. Tanto que mesmo sem distribuidora, as cópias estão praticamente esgotadas! Temos tido uma surpreendente aceitação em shows também, e isso nos ajudado a seguirmos firmes e fortes! Muito obrigada mais uma vez pelo espaço.
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Chris  comentou:
Eis uma banda 100% digna do apoio de todos do meio Underground! Alis, a volta deles cena, com certeza far - como tem feito - muita diferena para todos aqueles - velhos e novos - fs do Grindcore, Death Metal e afins!
Longa vida ao NO SENSE!
15/09/12 às 15:18 Hs
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