Já são 10 anos de vida e um nome respeitável no sul do Brasil. Harmony Fault é sinônimo de Goregrind de qualidade, e apesar de ter feito poucos shows para uma banda com uma década de bagagem, proporcionou apresentações memoráveis ao lado de nomes respeitados no meio da anti-música pelo mundo. Em seu décimo aniversário, uma grande realização: seu primeiro full lenght. Essa entrevista foi mais focada em seu novo álbum, o excelente "Rotting Flesh Good Meal", pois a banda já foi entrevistada por nós no DVD do 1º GoreGrinder Festival. Atualmente, a Harmony Fault conta com Guilherme no baixo, Pulga na guitarra e o nosso entrevistado dessa matéria, o baterista Calebe.

Entrevista feita por Carrascu e publicada no dia 21/03/2012
Carrascu: A Harmony Fault já tem um certo nome no cenário Goregrind do sul do país, com ótimos lançamentos entre demos e splits. São 10 anos a se completarem já em 2012 e finalmente sai o primeiro full lenght. Um momento especial como esse deve ser comemorado com certeza. Gostaria que você comentasse, cronologicamente, todo o processo que envolveu esse CD, desde as criações dos sons até o recente lançamento.
Calebe: Meu amigo Carrascu, primeiramente agradeço pela entrevista e pelo suporte. Bueno, depois de uma década fazendo barulho, algumas mudanças de formação e alguns lançamentos, finalmente tivemos a oportunidade de lançar nosso debut CD denominado “Rotting Flesh Good Meal”. É um momento especial cara. Gravar um full lenght sempre foi nosso objetivo – algo que a gente sempre sonhou. E como foi difícil chegar ao resultado final. Mas vou tentar colocar em palavras a cronologia do disco. No ano de 2008 gravamos algumas demos (a música “Guts Full of Shit” que participou da coletânea do CD dos 5 anos do Goregrinder é dessa época, inclusive), porém o guitarrista Marcelo resolveu pedir a conta e cair fora. Porra, foi um baque. Perder um membro fundador da banda justamente quando a gente imaginava que a formação estava estabilizada e prestes a gravar o CD foi uma bosta. Sinceramente, a HxFx quase terminou nesse momento. A questão era como e aonde encontrar um guitarrista de goregrind. Mas decidimos continuar ensaiando como uma dupla (Guilherme no baixo/vocal e eu na bateria) e fizemos a canção “Cock Cola”. É isso aí mesmo, “vamos continuar”, decidimos. Passo seguinte, o nosso amigo de longa data – o Pulga – assumiu as seis cordas e passou a integrar a banda e aprender os sons. Como moramos em cidades diferentes (eu em Porto Alegre e o pessoal em Lajeado), os ensaios acabam rolando de 15 em 15 dias. E assim, as músicas começaram a surgir normalmente nas passagens de som ou afinação dos instrumentos. Sabe aquele lance, tipo, alguém faz um riff ou uma levada de bateria e o outro já encaixa um baixo e o som começa a tomar corpo. Ou até mesmo riffs/batidas surgidos na rua ou no meio do trabalho que eram registrados no gravador de áudio do celular. Algumas músicas da formação antiga foram mantidas e levemente modificadas e vários sons novos foram surgindo, sendo que boa parte das canções do “Rotting Flesh Good Meal” são composições recentes. Entramos em estúdio em novembro de 2010 com todas as músicas prontas para uma sessão inicial de gravação de 10 horas em que gravamos boa parte do instrumental. Acho que no total gastamos umas 30 horas de estúdio.  Finalizada a mixagem e a masterização do disco entramos em contato com o Diomar (Rotten Foetus Records) e o Gil (Cauterized Productions) que sempre acompanharam a banda e propuseram lançar o disco. Depois o Luiz Carlos (Violent Records) veio a participar também do projeto. Por fim, contando o início das gravações e o recebimento dos CDs decorreu um ano.
Carrascu: Algo que eu tenho notado, e nessa sua resposta foi perceptível, nos estilos da anti-música é a maior preocupação com o material que está sendo produzido pelas bandas hoje em dia. Antigamente as produções eram mais simples, sem muita atenção a detalhes, muitas vezes até lançavam materiais gravados em take one, ou seja, tipo gravação de ensaio mesmo, todos tocando ao mesmo tempo sem nenhum trabalho de produção pós-gravação. Comparando esse novo CD de vocês com antigos lançamentos, quais diferenças você poderia citar que elevou a qualidade da banda, decorrente de sua experiência de uma década?
Calebe: Bixo, acho que dá para analisar essa questão do ponto de vista geral e de outro mais pessoal, da banda mesmo. De modo geral, nos dias de hoje se tem mais acesso e recursos para gravar e produzir um material de qualidade. Dependendo da situação, o cidadão pode gravar diretamente no seu iPhone - dá pra carregar o estúdio no bolso. Sem falar na proliferação de estúdios de qualidade. E isso é uma mudança e tanto. Outro ponto importante é o MP3 e sua facilidade de disseminação pela rede. Enfim brother, acho que todo esse contexto proporcionou uma mudança na mentalidade das bandas e envolvidos no cenário underground. Bixo, falando especificamente da HxFx, desde 2002 nossos lançamentos passaram por diversas mídias, como a saudosa tape ("Pedaços de Carne Podre" e "Live Promo Tape"), o CD-R ("Sangue e Vísceras", "P.O.R.C.O. & Cia. Ltda" e "Sociopathological Society"), o disquete ("In Grind We Fast") e o CD ("3 way split CD" e “Rotting Flesh Good Meal”). Na comparação do novo álbum com a maioria dos nossos demais lançamentos, dá pra afirmar que hoje, principalmente, estamos mais maduros. Agregamos uma experiência da estrada ao longo desta década e atingimos a formação ideal da banda. Além disso, chegou um momento em que a gente decidiu parar de gravar “meia-boca” e resolvemos juntar a grana necessária para um registro definitivo da HxFx.
Carrascu: Você mencionou um fato curioso na história da banda - um lançamento em disquete. Hoje em dia é raro ter um computador cujo drive de disquete ainda funcione corretamente, e os novos micros se quer tem compatibilidade com esse tipo de mídia. O que deu na cabeça de vocês lançar esse material dessa maneira? Quantos disquetes foram distribuídos? Sabe-se de algum outro lançamento desse tipo ou vocês acham que foram 'pioneiros' nessa empreitada?
Calebe: Sim cara, disquete. O split "In Grind We Fast" foi realizado com a banda de crust/HC Cü Sujo (www.myspace.com/cusujo) e foram feitas 100 cópias numeradas a mão. Como o nome já entrega, o tempo total do play é 1 minuto e 28 segundos sendo que cada banda participou com duas músicas. A concepção do material foi do Kblo (baterista e vocalista) da Cü Sujo, tanto o formato quanto a parte gráfica. Ao invés de simplesmente disponibilizar o split online, registramos a bagaça em disquete de 3"1/2. Não sei ao certo quantos disquetes foram distribuídos, mas recordo que algumas cópias foram "jogadas" para a galera numa gig realizada na cidade de Passo Fundo/RS em 2008. Desconheço outros lançamentos nesse formato, mas não acredito que tenhamos sido pioneiros. De qualquer forma, o split está disponível para download e garanto que é um arquivo pequeno hehe.
Carrascu: Eu já vi lançamentos "old school" como as famosas tapes, mas foi a primeira vez que vi um lançamento "cyber old school" hehehehe. E a disponibilidade de álbuns na internet sempre rende diversas opiniões. Como você mencionou, esse split está disponível pro pessoal baixar. Mas, sobre o novo álbum, o que você sente, ou sentirá, quando o ver online para o pessoal baixar, depois de tantos esforços para produzí-lo? Aproveitando o tema, qual sua opinião sobre esses fechamentos de sites de downloads, que certamente prejudicou quem larga na net álbuns completos de graça?
Calebe: Brother, é sabido que esse tema é polêmico e rende as mais diversas opiniões. O fechamento do Megaupload, em sua maior parte, me parece ser fruto de interesses econômicos obscuros das grandes companhias da música e cinema norte-americanos. Claro que devia existir indícios de irregularidades também (fiscais, etc), mas de modo geral acho que o medo da concorrência do Megaupload acabou pesando na balança. Falando nisso, há um ano upamos quase toda a discografia da HxFx para quem quisesse baixá-la. Assim, nós fomos um dos prejudicados com a extirpação do site. “Rotting Flesh Good Meal” disponível para download? Isso será inevitável e, no bom sentido, espero que infecte os ouvidos de quem baixar e ouvir. Ainda assim, acredito que o público continuará a adquirir CDs. Desejo que a banda seja escutada em todos os recantos possíveis, seja no Camboja seja em Linha Pedras Brancas. O acesso à cultura tem que ser livre ou pelo menos facilitado. Nós investimos nosso suor e dinheiro para fazer o melhor álbum possível. E o lançamos para ser escutado, de um modo ou de outro.
Carrascu: Certamente os downloads facilitam o reconhecimento das bandas mais undergrounds, que sentem mais o retorno de seus trabalhos principalmente nos shows. Falando nisso, há planos de alguma turnê para divulgação do CD? Aproveitando, me conte sobre as dificuldades enfrentadas por uma banda de Goregrind ao extremo sul de um país de dimensões continentais. Todos amantes do estilo certamente sabem que no Rio Grande do Sul surgiram bandas excelentes, mas e hoje, além de vocês, o que tu pode passar a respeito do cenário atual nas suas terras?
Calebe: Há planos de tocar bastante, mas de encarar uma turnê propriamente dita, não. O principal empecilho é o trabalho; sinceramente não sei se temos a disponibilidade e o desprendimento necessários para uma turnê. Pois é cara, o RS fica no extremo do país e isso complica um pouco (ou bastante) a nossa vida. Mesmo assim, já tocamos em Santa Catarina (Joinville e Florianópolis) e no Paraná (Curitiba). Devido a distância precisamos nos programar com uma certa antecedência para tocar em lugares mais distantes.  A cena gaúcha é conhecida de todos os amantes das maldições splatter/goregrind. É enorme e saudoso o legado da Vômito, da Sarcastic, da Necrocéfalo e da Premature Autopsy, para citar alguns. Bom, a respeito do atual cenário, destaco a Syphilitic Abortion, que é de Caxias do Sul (outro berço do som extremo gaúcho) e manda um belo goregrind. A SxAx conta com ex-membros da Dead Fetus Collection e Sarcastic. Acho que o Gil (via Cianeto Discos) está lançando um 6-way CD com a participação da Syphilitic Abortion. Além disso, nesse 6-way estará presente a Mithrubick que pratica um ótimo death/core. Outra banda gaúcha é a Ukrurku que toca um senhor grindcore e, por fim, a Evil Emperor também se destaca no death metal, sendo que ela está lançando seu disco pelo Rotten Foetus.
Carrascu: Realmente, são bandas que marcaram época nessa cena. Continuando no foco de shows, fale-nos agora dos que marcaram a vida de cada um da banda. Sei que vocês tiveram algumas oportunidades de tocar no mesmo palco em que grandes bandas do estilo fizeram shows marcantes na história recente do Grind/Gore/Splatter nacional.
Calebe: Olha meu velho, vou destacar duas gigs marcantes na história da HxFx: a primeira ocorreu no Goregrinder Festival ocorrido em Florianópolis/SC no ano de 2005 junto com o Stoma, Ovários e Dead Fetus Collection. Dá para afirmar que foi a melhor apresentação da Harmony Fault como um quinteto, sem dúvidas. Lembro que a excursão foi super cansativa (para variar o nosso ônibus quebrou no caminho) e quando chegamos encontramos o pessoal do Stoma. O equipamento de palco era perfeito, foi incrível tocar com uma estrutura daquelas. Porém talvez a melhor gig de toda a história da banda ocorreu neste sábado, dia 10/03/2012, em São Leopoldo/RS no Storm Festival # 30, que marcou o lançamento do cd e os 10 anos da HxFx. Nunca vi tanta gente agitando na frente do palco, parecia uma onda. Teve uma mina louca que mostrou o nariz quebrado de tanto agitar, um cara nu que subiu no palco (!), teve sapato e camisetas voando... foi o caos. 

Guilherme: Olha, nesta trajetória de quase 9 anos integrando a HxFx foram muitas as gigs que marcaram e me emocionaram, destaco as gigs com as bandas gringas Stoma, Agathocles e Pulmonary Fibrosis e também com as bandas nacionais como Flesh Grinder, Rot, MDK, Premature Autopsy, Ovários, Offal entre várias outras que se fosse citar aqui não sobraria espaço pra minha resposta (risos). Olha, em todo este tempo com certeza a gig, em específico, que mais me marcou foi quando tocamos com o Agathocles e trocamos uma idéia com o Jan e demais integrantes, principalmente por ser a maior banda de grind, ou mince (como eles preferem dizer) do mundo, e por ter eles como uma influência bastante forte. O legal também de tudo isso é de poder trocar idéias com as bandas e amigos de longa data, além das novas amizades que são feitas. Legal também que o pessoal deste meio, em sua maioria, é gente como a gente, que tem humildade, respeito e caráter e isso é o que conta no meio underground para mim. 

Pulga: Eu estou a menos tempo na banda, uns dois anos, não tive a sorte de tocar com nomes clássicos como meus colegas. Mas neste pequeno tempo de banda já tive oportunidade de conhecer muita gente bacana e tocar com grandes bandas nacionais. Também, como acompanho a banda praticamente desde o início, percebi a evolução dela, e vejo que hoje a banda está cada vez mais redonda. Espero que continue assim e que grandes oportunidades apareçam.
Carrascu: Fiquei curioso sobre esse show selvagem que o Calebe comentou na resposta, deve ter sido muito louco mesmo. E a Agathocles, que tem como característica lançar trocentos materiais splits com outras bandas, não rolou uma ideia de lançar algo entre vocês, ou o papo foi tão rápido que não deu para combinar isso? E aproveitando o assunto, o que vocês pretendem lançar em breve?
Calebe: É, foi louco sim cara. Quanto ao AG te confesso que nossa conversa com o Jan foi bem rápida e etílica hahaha. Por outro lado, conversamos bastante com o Tony, baixista do Agathocles, que infelizmente se suicidou ainda em 2008. Sobre futuros lançamentos, queremos lançar algo neste ano, de preferência um split. Possuímos algumas músicas novas que inclusive já estão sendo tocadas ao vivo ("La Maschera del Demonio", "Cadaverina Putrescina" e "Decomposition Process"). Há, e tem um cover do Regurgitate também. Em resumo, estamos tentando ensaiar bastante (e para nós isso significa duas vezes ao mês em virtude de morarmos em cidades diferentes) para poder gravar esses sons e lançar um material no capricho.
Carrascu: Pois é, o suicídio do Tony foi algo incompreensível até hoje. Sobre os próximos materiais, sabe-se que a gravação do primeiro full lenght de uma banda é sempre uma experiência única, se aprende muito nesse processo todo. Queria que tu compartilhasse com o leitor o que a banda ganhou de experiência na produção desse CD, o que faria de diferente se pudesse e etc. Será que o segundo full demorará muito pra sair, visto as dificuldades de ensaios que a banda enfrenta?
Calebe: Olha bixo, aprendemos muito mesmo com o lançamento do "Rotting Flesh Good Meal", tanto na área pessoal quanto na parte técnica. Acho que nos reafirmamos não só como uma banda mas principalmente como amigos. Poder gravar um disco em estúdio de certa maneira exalta os ânimos de cada um e por vezes rolaram algumas discussões, o que foi importante para a gente cada vez mais saber ouvir a opinião dos outros membros e ter a certeza que todos da banda são importantes. Já havíamos gravado o "3 way split CD" em 2004 e já conhecíamos um pouco do esquema de estúdio, mas te digo que com o full lenght a coisa foi muito além, seja pelo comprometimento de cada um, seja pela intensidade do projeto. Claro que sempre vai existir um ou outro aspecto do disco que hoje vejo que poderia ser melhorado, porém te digo que fizemos o nosso máximo. Dentro do contexto da época, gravamos o disco com todo a dedicação e o nosso amor pelo grind e pelo underground. E particularmente te digo que estou muito feliz de poder estar fazendo este barulho com os meus grandes amigos Guilherme e Pulga. Agora, talvez na próxima gravação a gente combine de fazer um baita churrasco lá no estúdio.  Quanto ao próximo full lenght, possivelmente demore um pouco. Mas tudo bem, como já te disse, queremos divulgar bem o disco atual e gravar alguns sons para um split.
Carrascu: Bom, pra finalizarmos a matéria gostaria que tu comentasse sobre alguns álbuns que tu tem ouvido ultimamente para o leitor ficar antenado nas dicas. Por outro lado, gostaria de agradecer pela atenção e dizer que admiro muito a Harmony Fault desde que essa tocou aqui em Florianópolis com Stoma, mais Ovários e Dead Fetus Collection, até hoje tem gente que comenta aquele show de vocês, foi muito foda. Vida longa a Harmony Fault! Abração!
Calebe: Grande Carrascu, muito obrigado pelas palavras, pela oportunidade de divulgar a HxFx nesta entrevista e por conversar sobre o nosso full lenght. É um grande prazer poder participar deste barulhento e importante veículo que leva o goregrind até no nome (ô rasgação de seda hein). Já te disse isso pessoalmente, mas a tua resenha do 3 way split CD lançado em 2005 foi sincera e cheia de críticas construtivas que ajudaram a Harmony Fault a evoluir ao longo dos anos. Porra, o show de Florianópolis foi inesquecível para nós, foi uma grande honra dividir o palco com bandas tão fodidas. Atualmente estou escutando o álbum “Corpus in Extremis: Analysing Necrocriticism” do General Surgery; o split do Haemorrhage com o Gruesome Stuff Relish, lançado pela Black Hole Productions e o split em CD-R envolvendo a Rancid Flesh, Triturador e Industrial Noise lançado pela Cianeto Discos.  É isso aí, stay sick!
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