Acho que falar do Vulcano é chover no molhado, mas também acho que tem muito jovem que talvez tenha só ouvido falar desta banda antológica e nunca teve a possibilidade de se inteirar mais sobre a história brilhante desses representantes legítimos do Underground brasileiro. Não vou me estender muito aqui, porque a entrevista que vos segue fala por si mesma e, acho eu, apresenta as informações necessárias que agradarão não só as gerações mais novas de Headbanguers, que nasceram sob a batuta da internet e do mp3, mas também os entusiastas do Old School e fãs que o Vulcano cultivou nessas mais de três décadas de dedicação ao Metal. Enfim, segue ai esse longo papo que tivemos com o Zhema. Espero que curtam da mesma forma que eu curti. Segue:

Entrevista feita por Alex Neundorf e publicada no dia 04/09/2011
Alex Neundorf: Saudações Zhema, primeiramente gostaria de agradecer o tempo concedido ao GoreGrinder Web Zine e dizer que é uma grande honra poder contar com sua participação por aqui. É tanto assunto para abordar que será preciso fazer uma peneira somente com aqueles mais oportunos, confesso que é bem difícil fazer isso (selecionar). Acho que o Vulcano dispensa maiores apresentações, portanto a tradicional pergunta de fazer o entrevistado discorrer sobre a trajetória/história da banda pode soar um pouco sem sentido, mas como aqui no GoreGrinder também valorizamos as novas gerações, gostaria que você nos contasse sobre o percurso do Vulcano nesses mais de trinta anos de estrada. Amigo, aqui você tem o espaço que desejar.
Zhema: O Vulcano surgiu em Osasco SP lá pelos idos de 82, apesar de eu já estar morando em Santos desde 79. Éramos 4, Eu na guitarra, o Paulo Magrão na outra guitarra, Carli Cooper no baixo e o William (o ponta) na bateria. Fazíamos um som meio “hard rock”, Cidade dos Porcos e Perdido, Achado e Regenerado do “single” “Om Pushne Namah” são daquela época. Em 83 já em Santos e com um novo baterista e baixista gravamos o “single” que citei anteriormente. Em 84 houve uma mudança radical na formação e no estilo da banda, gravamos uma demo-tape e partimos para fazer shows pelo interior de São Paulo. Em Americana, uma cidade de São Paulo, gravamos o “Live”, o primeiro álbum ao vivo de metal na América do Sul. A partir daí proliferaram os shows e gravamos o “Bloody Vengeance” 1986, “Anthropophagy” 1987, “Who are the True” 1988, “Ratrace” 1990. Ficamos sem gravar, parados por 14 anos e então veio o “Tales from the Black Book” 2004, “Five Skulls and One Chalice” 2009 e agora o “Drowning in Blood” 2011.
Alex Neundorf: Aproveitando o gancho, já que estamos falando sobre história, gostaria que você falasse mais sobre os anos oitenta, quando dos lançamentos da trinca “Bloody Vengeance” 1986, “Anthropophagy” 1987 e “Who are the True” 1988. Álbuns, considerados por muitos, antológicos, pioneiros, divisores de água para o metal no Brasil. Quem viveu os anos noventa (quiçá os anos 2000) tem uma ideia completamente diferente de metal pesado, quando este se tornou muito mais, digamos, ‘aceitável’, de fácil assimilação e audição, pois esse som mais pesado e rápido acabou se ‘popularizando’ no nicho metal. Enfim, nos conte como foi a recepção desse material à época, o público estava preparado para o som? O fato de vocês desenvolverem um som muito mais pesado (a frente do seu tempo) prejudicou de alguma forma o Vulcano?
Zhema: É, realmente eu também penso que o VULCANO estava um pouquinho a frente do seu tempo, pois o reconhecimento pelos álbuns veio sempre tempos depois de seu lançamento. Por exemplo, o “Anthropophagy” só se tornou conhecido, e começou a vender, 10 anos depois com seu re-lançamento pela I HATE RECORDS. Em 1987 as bandas estavam fazendo álbuns de concepção um pouco mais técnica como é o caso do “Soldiers of Sunrise”, “Beijo Fatal”, “Schisophrenia”, “Abominable Anno Domini” e “Immortal Force”, somente o Sarcófago veio com um som cru, rápido e agressivo como era o “Antropophagy”. Demorou 8 anos para se ouvir “blast beats” como no “Anthro...” que aconteceu através do Krisium. 

Algo que merece ser clareado é o fato de que nos anos 80 não havia nenhuma estrutura de estúdio de gravação para bandas de Metal. Os técnicos de gravação daquela época não gostavam de trabalhar com bandas de Metal, pelo menos com o VULCANO isso era realidade. Era só entrarmos no estúdio e eles torciam o nariz. Não haviam técnicos que soubessem e nem tinham interesse em aprender a gravar Metal. Foi nos anos 90 que começaram a aparecer pessoas com conhecimento suficiente para tornar as gravações mais “limpas” e audíveis. Assim, o que determinava um álbum melhor que o outro era o fato de quanto dinheiro você tinha no bolso para despender com as horas que você ia ficar dentro do estúdio. Por exemplo, o “Bloody Vengeance” nosso primeiro álbum de estúdio foi gravado em 16h consecutivas... entramos de manhã e só saímos no final da noite. O “Athropophagy” foi gravado em um feriado de sete de setembro, entramos na sexta-feira dormimos dentro do estúdio e saímos no sábado à noite.

Não estou aqui justificando nada, mas só dizendo que eram tempos muito difíceis para qualquer banda de Metal. 

Com relação aos shows ao vivo, a estrutura não ficava muito atrás, eu não me lembro qual foi a única vez que o VULCANO tocou em um “Marshall”, nem no show com o Venom e Exciter que havia aquela parede de JCM900 atrás nos deixaram usá-los, tivemos que tocar em nossos Gianinis mesmo. Eu só vim a tocar em um “Marshall” nos anos 90, alugado e por sinal caríssimo!!!

Praticamente eram essas as dificuldades que atualmente não existem mais.
Alex Neundorf: Sobre esse momento em que vocês tiveram na inatividade, nos conte: vocês nunca anunciaram que a banda havia acabado ou qualquer coisa nesse sentido, os ensaios, o trabalho de composição, divulgação, os shows, continuaram a acontecer normalmente ou a banda realmente parou qualquer atividade relacionada?
Zhema: Em 1990 gravamos o “Ratrace”, mas a banda estava parada desde 1989. Foi um convite que recebemos da Metalcore e aceitamos. Na época fomos para a Universidade e cuidar da família, nunca anunciamos oficialmente o término da banda, só demos uma parada para cuidar desses assuntos, porém foi uma parada muito longa no meu entender. 

Nesse período fizemos alguns poucos shows entre 1995 e 2000. Somente em 2001 que nos reunimos novamente por conta do Soto Junior que insistiu bastante nisso. Bem, cada um de nós fez coisas diferentes naquela época, o Arthur montou uma escola de bateria e tocou em uma série de bandas, o Levine também permaneceu tocando em bandas, o Angel construiu seu próprio estúdio de tatuagem e eu fiz alguns projetos com amigos, sendo que os mais importantes fora o “Talavera” e um “cover” do Creedence.
Alex Neundorf: Com relação a esse novo lançamento (o sétimo full-lenght de estúdio), recém divulgado em primeira mão pelo site do Celso Barbieri, “Drowning in Blood”, o que os fãs podem esperar? O que você anotaria como diferenças ou similitudes mais significativas com relação ao álbum de 2009, o “Five Skulls and One Chalice”? Apesar de já termos uma prévia com duas músicas, nos conte um pouco mais sobre esse álbum.
Zhema: Eu penso que o “Drowning in Blood” carrega uma energia muito intensa para compensar o “Five Skulls” que não tem essa dose energética suficiente. Ele é um álbum muito bem gravado com timbres rasgados na mais perfeita linha “Death Metal”. Eu pessoalmente acho que é o melhor álbum do VULCANO em termos de visão global.
Alex Neundorf: Bem, na minha visão, externa, o “Five Skulls” parece bem enérgico e repleto de feeling. Mas nos conte, porque você acha que faltou essa ‘dose energética’? Você está falando de feeling? Conte-nos mais a respeito desse álbum e aproveite para falar da recepção desse álbum.
Zhema: O “Five Skulls...” foi concebido por mim, mas como sempre faço, ao fazer uma música e escrever uma letra Eu imagino uma linha vocal que cairá muito bem para o Angel, como eu não sei cantar faço isso imaginando Ele cantando... entendeu? Porém o resultado final não ficou muito bom, por dois motivos: - Um que o Angel não estava muito confortável em fazer o trabalho por conta que naquele momento ele tinha outras prioridades para a vida dele e segundo porque a voz foi gravada a distância em um estúdio no sul do país, e não estávamos juntos para fazer uma boa produção. Por outro lado, também acho que o “Five Skulls...” tem arranjos demais e ficou muito “Thrash Metal” coisa que não é comum para o VULCANO.
Alex Neundorf: Ah sim, entendi. Mas continuando, achei muito interessante a notícia postada pelo Celso Barbieri, citando, por exemplo, que sugeriu a mudança para o nome do álbum. Conte-nos um pouco sobre isso. A ideia inicial era outro nome? Da mesma forma, aproveitando o gancho, nos conte mais sobre essa relação que o Vulcano estabelece de longa data com esta outra lenda, o Barbieri.
Zhema: Quando o Celso Barbieri esteve em casa em maio passado eu apresentei a ele a ideia do desenho da capa, um gárgula na posição do “O Pensador” vigiando a Terra. O título do álbum inicialmente seria “Awash in Bloody”, pois tem duas ou três letras sobre “serial killers”. O Barbieri enriqueceu a ideia da capa e apresentou um primeiro ensaio com a Terra azul, sendo que os mares avermelhados com sangue. Abaixo do logo o título “Drowning in Blood”... Perfeito!!!

Eu conheci o Celso lá pelos idos de 85 quando ele estava produzindo ótimos shows na cidade de São Paulo. Nosso contato estava muito limitado por conta de sermos uma banda de Santos e, portanto, estávamos um pouco longe dos acontecimentos. Mesmo assim o Celso nos colocou em algumas produções dele, duas datas no Lira Paulistana, mais uma no Radar Tan Tan. Como público, fui a vários eventos que ele produziu, SESC Fábrica do Som, Projeto SP, Praça do Rock, etc... Fiz até campanha para Deputado para ele.

Somente ano passado restabelecemos contato, em Londres. Lá ele nos deu todo o suporte necessário além de filmar o evento em alta qualidade e tomou conta também da promoção e divulgação. Somos muito gratos por isso.
Alex Neundorf: Pudemos verificar também toda a arte do novo álbum, que nos traz de volta a uma atmosfera anos 80. Conte-nos sobre isso, sobre o conceito por trás dessa arte, etc. De quem foi a ideia?
Zhema: A ideia é minha. Porém é uma ideia concebida em 1984 quando gravamos a demo tape. O propósito daquela demo era apresentar o VULCANO ao Luiz Calanca, então eu fiz um belo trabalho em cima de uma capa do “Dark Side Of The Moon” do “Pink Floyd” e o desenho era esse do Gárgula observando o planeta Terra.
Alex Neundorf: Depois da “Bloody Vengeance Europen Tour” de 2010, como está sendo o ano de 2011 para vocês? Aproveitando o gancho, fale-nos sobre essa mesma turnê, como foi? Por incrível que possa parecer, essa foi a primeira tour europeia do Vulcano. Aproveite e comente o que você pensa acerca disso: expandir as fronteiras para fora do território nacional. É algo realmente importante para as bandas enfatizarem? Excursionar pela Europa, parece hoje em dia, quase que uma febre para as bandas. Mas vocês, no entanto, conseguiram construir um nome, dos mais importantes, e influenciar gente lá fora, tocando por décadas somente aqui no Brasil. Fale mais sobre isso.
Zhema: Atualmente é bem fácil planejar e realizar uma turnê pela Europa. O dólar americano esta baixo e as passagens podem ser compradas no cartão de crédito em até 10 vezes. Isso faz com que realizar uma turnê por lá seja mais tranquilo. O VULCANO foi convidado para ser Headliner do segundo dia do Festival “Live Evil” em Londres e como já estaríamos por lá, resolvemos montar o restante da turnê. Passamos pela Escandinávia, leste Europeu, Alemanha e Itália. Foram 11 países no total. Realmente foi uma surpresa para mim tomar conhecimento do “status” que o VULCANO tem na Europa. Eu realmente fiquei surpreso e muito satisfeito em conversar com os caras do “Angel Witch”, “Bulldozer”, “Nifelheim”, “Rattus”, bandas que são muito fortes por lá e que tem o VULCANO como uma importante banda brasileira que contribuiu muito para a formação do Metal Europeu. Recentemente recebi em Santos o Infernus, guitarrista do “Gorgoroth”, que através dele também pude saber mais sobre a importância do VULCANO, o mesmo posso dizer que ouvi do Lee Dorian. Em abril do ano que vem estaremos por lá novamente, dessa vez em uma turnê muito mais bem produzida e vamos fechar um importante festival na Alemanha.
Alex Neundorf: A princípio vocês fariam uma nova turnê na Europa para divulgar esse novo lançamento, entre setembro e outubro agora, junto da banda sueca Nifelheim. Porque o cancelamento? Conte-nos sobre os planos para o futuro.
Zhema: Não foi um cancelamento e sim um adiamento para abril em função principalmente da oportunidade de fecharmos como “headliner” um importante festival na Alemanha. Outro fato que também contribuiu para essa decisão foi o pequeno atraso no lançamento do “Drowning in Blood”, haveria pouco tempo parta divulgá-lo. Eu não trabalho com um planejamento muito longo e adiante e, portanto, os planos mais imediatos são a divulgação do novo álbum que estará nas lojas em setembro, preparar a turnê Europeia com um repertório renovado e preparar uma turnê Brasileira. Essa última é minha maior vontade. Tem muitas cidades aqui no Brasil que eu gostaria de tocar com o Vulcano, portanto vou me esforçar nesse segundo semestre para conseguir mais datas.
Alex Neundorf: Você acha que uma abrangente turnê nacional é o que realmente falta para o currículo do Vulcano? Não lembro de vocês terem tocado, por exemplo, aqui em Curitiba, ou Porto Alegre, ou Florianópolis, ou mesmo no centro-oeste (que hoje vem recebendo shows mais expressivos). Existe a possibilidade de vocês tocarem por essas plagas (eu, em particular, torço para que isso aconteça)? Claro que para um país continental como é o Brasil, as dificuldades logísticas são enormes. Você acha que para uma banda de metal no Brasil arrecadar um pouco mais de expressividade, ela precisa mover seu foco para São Paulo? São Paulo, na sua opinião, ainda é a coluna vertebral do metal no país? (* desculpe o excesso de perguntas, mas estou tentando te explorar ao máximo e por isso mesmo, os ganchos).
Zhema: São Paulo não é o foco da expressividade da cena Metal; não para nós, bandas verdadeiramente “underground”. São Paulo está sitiada por um público ávido por atrações internacionais. Misturam-se consagrados nomes do rock/hard/heavy metal com bandas de expressividade quase nula. Todas as semanas São Paulo recebe uma banda “gringa” e então a atenção está toda voltada para isso. Essa nuvem de atrações leva, muitas vezes, a se pensar que São Paulo é o “core” das oportunidades para uma banda que esta no início de carreira. Não é! É justamente o contrário, não sobra espaço para shows de bandas como nós, por exemplo. A cidade está toda tomada pelos “gringos”. É uma grande ilusão achar que abrir show de banda “gringa” super conhecida trará notoriedade para sua banda, além de você pagar uma grana preta por isso, atitude que eu acho repugnante e desonesta para com o seu público, você terá menos do que 30% do público lhe assistindo.

Por isso que quero excursionar pelo restante do Brasil, e tenho conseguido isso, talvez você não se lembre, mas já tocamos em Curitiba, fizemos também Urussanga, São José e Guaramirim em Santa Catarina, estivemos em Brasília, Goiânia, Cuiabá, Campo Grande, Manaus, Aracaju, Fortaleza, etc.

Pretendo agora continuar investindo nesse tipo de excursão, porque tenho encontrado um público muito interessado no trabalho do VULCANO, desde os mais jovens até os “antigos” amigos. Você não tem ideia a emoção de encontrar, nessas cidades, amigos que eu nunca havia visto antes, mas somos amigos através de troca de cartas e zines nos anos de 85, 86, 87... é muito legal! O cara chega em você e fala: “Eu sou o Sidney... Sidney “cavador de sepulturas” lembra de mim”... “claro!!!” Então nesse momento passa mil coisas na minha cabeça, do tipo... não sou só eu que com 53 anos amo o Metal, tem mais um amigo aqui do meu lado! Não estou sozinho, tem caras da minha época que tem o Metal como estilo de vida!
Alex Neundorf: Pois é, realmente não sabia que já haviam tocado por aqui e nessas cidades que você citou (com exceção de Manaus que, vi, foi há alguns anos atrás). Enfim, é um discussão que rende pano pra manga. Mudando o assunto, o Luiz Carlos Louzada substituiu o Angel pouco antes de ser anunciada a tour pela Europa, quais mudanças mais significativas você verifica nessa substituição? Generalizando a questão, como tem sido para o Vulcano a convivência com as constantes mudanças de formação ao longo dessa longeva trajetória? Dificulta muito o trabalho?
Zhema: Basicamente o VULCANO teve duas formações, Zhema, Angel, Soto Jr., Zé Flávio e Laudir Piloni em “LIVE!” e “Bloody Vengeance” e Zhema, Angel, Fernando Levine e Arthur “von barbarian” em “Anthropophagy”, “Who are the True” e “RateRace”. Durante os anos 90, os poucos shows que fizemos teve como núcleo central Zhema e Soto Jr. sendo que o Arthur Justo e o Luiz Carlos Louzada, ambos do Chemical Disaster, participaram desse projeto.

Em 2001, após a morte do Soto Jr., Eu resolvi trazer o VULCANO de volta e para tanto era necessário mostrar um trabalho inédito e então veio o “Tales from the Black Book” que tem como banda central Zhema, Angel e Arthur “von barbarian”. Após o lançamento desse álbum fizemos algumas apresentações com VX na bateria e André Martins na guitarra, mas estabilizamos a banda com Zhema, Angel, Diaz (Hierarchical Punishment), Fernando Nonath e Arthur Justo (Chemical Disaster). Esse time desempenhou ao vivo por anos até as vésperas da viagem a Europa quando o Angel deixou a banda e foi substituído pelo Luiz Carlos Louzada (Chemical Disaster). 

Para clarear melhor ao leitor, todos os álbuns do VULCANO desde 2007 foram gravados por mim, Arthur “von barbarian” e Angel, sendo que nesse último os vocais são comandados por Luiz Carlos Louzada.
Alex Neundorf: Entendi. Mas agora gostaria de mudar o foco dessa entrevista e explorar um pouco mais a sua opinião sobre determinados assuntos que são tratados com bastante importância por nosso site. Um deles, que já abordamos de passagem nas perguntas/respostas acima, diz respeito às novas gerações de Headbangers/Bandas. Gostaria de saber a tua opinião sobre essa renovação do nicho metal no Brasil, pois desde que os primeiros acordes caracteristicamente metal começaram a soar no país, já se sucederam talvez umas quatro gerações. Sobre esse assunto, muitos são pessimistas e acham que o metal (ou mais propriamente, a sua cultura), inevitavelmente, irá desaparecer junto com as gerações mais antigas. Você é uma pessoa muito habilitada para falar sobre isso, pois não só viveu a década de oitenta como Headbanger, mas também como membro de uma banda renomada em termos de Underground. Fale sobre isso.
Zhema: Então, como disse anteriormente, muitas vezes Eu me sinto sozinho nessa coisa de estar com 53 anos de idade e “bangeando” no palco. Será que não estou forçando uma situação que já não existe mais atualmente (?). A cena está em sua terceira geração, o garoto de 13 anos “headbanger” em 1985 não é o mesmo “headbanger” de 2011.

Estamos em tempos diferentes. Eu penso que a paixão pelo Metal está se esvaindo a cada geração e talvez daqui há algum tempo esse Metal “old school” não existirá mais. Será apenas uma lenda como Jerry Lee, Chuck Barry, Ike Turner, respeitadíssimos por sua importância, mas lenda!

Aquele garoto de 1985 que mencionei anteriormente, hoje é o paizão de 2011, já não tem os cabelos longos, mas é o mesmo que eu encontro nos shows por aí, com a mesma paixão pelo “Metal”. Tenho dúvidas que o garoto de 2011 lá em 2037 terá a mesma paixão... 

A vida é assim mesmo, as coisas se transformam e se renovam. O metal se renovou! Não da maneira que eu gosto, infelizmente. A audição tomou outros rumos, deixou de ser Vibração x Energia para agregar outras dimensões técnica x clareza x virtuosidade.  O Metal se tornou mais palatável, de sonoridade melódica, porém pasteurizado e depois de um tempo “torra o saco”. 

Finalmente eu penso que a maioria dos garotos que se iniciam no Metal atualmente fazem isso por conta de quererem se tornarem músicos de bandas “mainstream”, longos cabelos, tatuagens e “piercing”. Ninguém quer ser mais público, todos querem ser bandas, desde o início.
Alex Neundorf: Então, essa é a mesma leitura que eu faço. Mesmo as bandas, quando estão lá embaixo do palco, supostamente curtindo o show de outra banda, são incapazes de se colocar na posição de público para aquele momento. Mas aproveitando a deixa da pergunta anterior, gostaria que você comentasse a respeito da imagem que o Vulcano conserva, no seu ver, ainda hoje. Você acredita que a banda ainda conserva essa aura de banda cult nas novas gerações? O que é necessário para uma banda como o Vulcano permanecer em evidência, num mundo onde as gerações mais novas de ouvintes do gênero já são a maioria?
Zhema: No Brasil Eu penso que o VULCANO, para essa geração que você esta se referindo, se tornou “lenda”, ou seja, é respeitado por seu legado, mas não agrada muito. No exterior o VULCANO é grande. É reconhecido por ter influenciado muitas bandas grandes do cenário atual, por ser original e ter seu próprio estilo e por sua senioridade.

Permanecer em evidência é um efeito que tem algumas causas básicas, por exemplo, fazer muitos shows ao vivo, gravar sempre um material novo, ser coerente com seus propósitos, dedicar-se mais ao metal do que a você mesmo e principalmente ser honesto para com o Metal!
Alex Neundorf: Gostaria que você nos trouxesse a impressão que você teve da turnê europeia. Quais as diferenças entre o que ocorre no velho mundo e aqui no Brasil? Pra mim, às vezes, fica uma grave impressão de que aqui as coisas são feitas ‘nas cochas’, meio que artesanal ainda, com um mínimo de profissionalismo. Talvez, porque a maioria das pessoas que lidam com underground metal o façam por paixão e não por profissão. O que você acha que precisa acontecer no Brasil para que as bandas tenham o mesmo tratamento que possuem no estrangeiro?
Zhema: Para que aqui no Brasil as produções possam se equiparar as da Europa, primeiramente é necessário que o público compareça e assista os shows. Sem isso os produtores não conseguem dinheiro suficiente para cobrir os custos de produção. Não é barato você disponibilizar um bom “backline” e um “PA System” de boa qualidade, não estou nem falando de uma boa iluminação, pois tem local que nem suporta a potência das luzes. Por falar em local para shows, esse é o segundo problema, eles não existem aqui no Brasil. Por favor, entendam que eu estou falando de shows de Metal de bandas “underground”. Essa infraestrutura toda custa dinheiro e sem público não tem como cobrir. Notem também que eu disse “um bom backline e PA”, a palavra “bom” significa o mínimo de qualidade com recursos suficientes para gerar uma boa potência e qualidade de som. Não queremos muito. Queremos apenas que o som que estamos tocando chegue ao público com qualidade.

Não estou aqui querendo ser saudosista, mesmo porque não sou, mas no meio dos anos 80 o público comparecia e entrava nos festivais para ver as bandas. Por exemplo, um show em Valinhos interior de São Paulo com VULCANO, Overdose e bandas locais lotou um ginásio de esportes da prefeitura. Em Araraquara, VULCANO, Sepultura, Dorsal e Guilhotina lotou o ginásio de esportes da cidade; Em Americana a arena da prefeitura estava sempre lotada, Aguai em 86 o prefeito da cidade estava no show, e era assim em todas as cidades. Aqui em minha cidade eu fiz no Circo Marinho, local cedido pela prefeitura, VULCANO, Dorsal, Kranio Metálico e Massacre do Chile, tinha 1.500 pessoas. Esses shows traziam pessoas de todos os lados, eu via placas de ônibus de excursão de cidades longínquas, Araçatuba, Foz do Iguaçu, etc. Eu entendo que era outra época. Naquele tempo nunca pensaríamos na possibilidade de o Slayer, por exemplo, tocar no Brasil, então nossos Heróis eram nossas próprias bandas Brasileiras. A geração “headbanger” de 80 cresceu assim, unida em torno de um só propósito “Metal on Metal”. Nossa grande motivação era acordar no sábado pela manhã, vestir a camiseta preta, pegar um ônibus na rodoviária e ir para algum festival no interior de São Paulo, isso era Metal!!! Na Europa é assim! Na primavera e verão Europeu “headbangers” de todas as nacionalidades se deslocam para os festivais de metal que acontecem em diversos países. Dá para entender? É o mesmo espírito que tínhamos aqui no Brasil em 80. Então essa massa de fãs comparecendo nos festivais ano após ano vai fazendo com que o evento fique cada vez maior e melhor, Wacken é um exemplo começou com um público de 800 pessoas e olha atualmente... cerca de 50 mil !!!!! Tem mais “Bang your Head”; “Sweden Rock Fest”, etc. E durante os outros meses de outono e parte do inverno os pubs e bares recebem bandas de domingo a domingo. Em minha opinião essa é a grande diferença. Público!
Alex Neundorf: Sempre batemos nessa tecla do público aqui no site. Inclusive, recentemente, publicamos uma matéria especial sobre o assunto. A minha opinião, em particular, é a de que o público não passou por uma renovação de forma desejada. Além disso existem outros meios hoje, competindo com os shows ao vivo. Gostaria que você falasse sobre um assunto mais geral que vem de encontro com isso que estamos conversando. O que você tem a dizer sobre esse nosso cenário atual, no que tange a internet e o mp3. Você concorda que os lançamentos físicos (Cds, lps, dvds) vão ficar cada vez mais escassos e que, um dia no futuro, quase tudo que for musical vai rolar apenas na internet (com as limitações técnicas que o mp3 impõe quando comparado com um LP, por exemplo)?
Zhema: Concordo. Praticamente já estamos entrando nessa era, blue tooth, Wi-Fi. Você só precisará ter o “device”. Por outro lado eu também creio que sempre haverá demanda para o CD e DVD como mídia, foi o que aconteceu com o vinil. Pensava-se que o vinil estava condenado com o advento do CD, mas isso não aconteceu por inteiro, dessa forma haverão pessoas que colocarão seu dinheiro na compra do CD e do DVD por conta de fatores não mensuráveis e a aura que envolve uma produção dessas. A maioria das pessoas hoje em dia já não se importam com a qualidade do áudio daquilo que estão ouvindo. A referência foi perdida a muito tempo por conta dos arquivos de compressão de áudio. Os ouvidos estão setados em outros parâmetros hoje em dia. O maior problema que vejo nisso tudo é que sem demanda para os CDs não há investimentos nas bandas, no meu caso, que sempre fui o produtor fonográfico do VULCANO, exceto em “Who are the True” e “Five Skulls and One Chalice”, chegará um tempo, que já esta muito próximo, no qual não terei mais dinheiro para gravar um novo álbum, infelizmente.
Alex Neundorf: Lembro de uma entrevista que você cedeu ao Ricardo Batalha para a revista Roadie Crew há alguns anos atrás, onde você comentava sobre as atitudes vanguardistas do Vulcano naqueles anos oitenta. Nessa entrevista você citara o caráter independente do lançamento do single, o primeiro álbum ao vivo, o visual característico (baquetas em formato de fêmures humanos, etc.), os álbuns “Bloody Vengeance” e “Anthropophagy” (rapidez e agressividade), etc. Quero a tua opinião sobre essa atitude vanguardista e pioneira, agora, nos anos 2000. Você consegue ver algo assim, talvez não na mesma magnitude, mas inovador, pioneiro, nos dias atuais ou nessa década que passou?
Zhema: Eu acho que hoje em dia não tem mais o que inovar. Esta tudo aí, pronto! As bandas perderam a arte de criar a partir do momento que surgiu Metallica e Pantera. De repente toda banda queria soar como Metallica ou Pantera. Todo guitarrista quer palhetar precisamente, todos os bumbos duplos soam como maquina de costura, quase tudo é 4/4 em andamento único. 

Eu continuo fazendo meu próprio estilo. Não fui eu quem criei, eu mesmo fui muito influenciado por Motorhead, Black Sabbath e Venom na criação do VULCANO, porém eu sempre tive um cuidado muito grande em não copiar o som dos caras. Podem perguntar isso aos músicos que tocaram comigo, se uma música ficasse muito parecida com uma de outra banda eu abortava. Eu uso bastante compassos 6/8, 5/4, 7/8 e tempos ímpares, não porque sou virtuoso, muito pelo contrário, é um deficiência minha que eu aprendi a trabalhá-la a meu favor, entende?
Alex Neundorf: Agora uma pergunta meio clichezona, mas que vale a pena, no meu ponto de vista. O que você tem ouvido atualmente? Você ouve sons mais contemporâneos e se ‘sim’, nos diga, o que, na sua opinião, vale a pena ouvir em termos de metal ou mesmo rock no sentido mais geral (você teve uma banda cover de Credence, então, suponho que deve ouvir muito rock’n’roll)? Além dessas questões, queria que você nos dissesse se tem alguma outra faceta artística que você aprecia (cinema, literatura, etc.).
Zhema: Sim eu ouço bandas contemporâneas, mas confesso que elas não estão carregadas em meu “mp3 device” nem estão no porta luvas de meu carro. Tenho amigos que estão sempre me trazendo novidades ou me indicando algo novo. Eu vou atrás e ouço, mas são poucas as que eu realmente gosto. Continuo ouvindo minhas velharias. Sim eu gosto de Rock’n’Roll, South American Rock e N.W.O.B.H.M. 
Alex Neundorf: Cara, tivemos uma grande conversa aqui e tenho certeza que os leitores do nosso site vão curtir esse material. Em primeiro lugar quero agradecer o tempo e a atenção que você destinou ao GoreGrinder. Em seguida quero desejar vida longa ao Vulcano. Enfim, este espaço é para finalizarmos essa longa conversa. Pode tecer ai as tuas considerações finais. Valeu.
Zhema: Eu agradeço esse espaço e as perguntas inteligentes que me proporcionaram a oportunidade de divulgar o VULCANO e devo dizer que estamos em meio a três coisas importantes para a banda nesse momento que é o re-lançamento em vinil do álbum “Bloody Vengeance” pela gravadora Sueca “I HATE RECS”, o lançamento de nosso mais recente trabalho chamado “Drowning in Blood” em uma parceria da Renegados Records com a Encore Records e a preparação da próxima turnê pela Europa, que promete muito em função de que vamos excursionar com grandes bandas “seniores” como nós!!! 

Por aqui continuamos a fazer apresentações ao vivo, pois acredito que tocar ao vivo é o melhor caminho para estar realmente mais próximo ao público.

Em novembro estaremos pela primeira vez em Lima no Peru e já existem conversações para shows na Colômbia e Paraguai.

Abraço a todos e “keep banging”.
Compartilhar

Envie seu comentário sobre essa matéria!

Walter Bacckus  comentou:
gostei muito da entrevista e parabns ! sim, o vulcano tocou em so jos no bar do binho em um show organizado pelo valdo warrir. infelismente, o pblico que compareceu fou uma vergonha : 80 headbangers, o que foi uma vergonha. mas o zhema e a a galera do vulcano passaram a sexta feira e o sbado conosco em itapema no ape de um amigo nosso o cunha. fizemos um churrasco, tomamos muitas cervejas e comprovei o que eu j imaginava : o zhema um cara fantastco ! mas, depois disso, eles voltaram mais 3 ou 4 vezes pra sc e duas vezes no zoombie ritual, na primeira vez, colocaram os caras 4 horas da manh, mas eu fiquei l na frente cansado e curtindo o show ! lembro que fiquei de triste de ver o zhema de cabelo branco. mas na segunda vez, no zoombie ai sim colocaram em um horrio bom e justia foi feita em sc para o vulcano : lotou e todo mundo curtiu essa lenda com devido respeito que ela merece. sim, meus hrois do metal so zhema e vulcano e mais vrias lendas do metal nacional que depois de quase 20 anos no metal, eu estou consiguindo ve-los ao vivo : taurus, mx , sextrash...vida longo ao metal nacional e ao undergrund e fiquei feliz em conheer o goregrinder !!!
13/03/14 às 12:56 Hs
Victor Miranda  comentou:
Genial essa entrevista. Realmente a parte que o Zhema falou do pblico dos shows e da 'cena foi a traduo perfeita de tudo que se passa por aqui. Uma das melhores entrevistas que eu j vi.
07/11/11 às 17:20 Hs
Nome:
E-mail:
Texto:
=

Parceiros