Conversamos com o Chakal da banda de Thrash Metal carioca Terrorstorm e que também está à frente de um trabalho muito interessante junto a Music Reunion (selo e distro totalmente underground). Ângelo Black (Guitarra), Chakal (Vocal), Glauco Ricardo (Baixo e Backing Vocal) e Evanildo (Batera) fazem um som que remete diretamente aos anos 80. Conheçam um pouco do Terrorstorm e da Music Reunion nesse papo que tivemos ao longo de alguns meses. Nele falamos sobre vários assuntos: além de informações sobre a banda e o selo, questões mais polêmicas como ideologia religiosa no metal, novas gerações, etc. Segue:

Entrevista feita por Alex Neundorf e publicada no dia 24/08/2010
Alex Neundorf: Fala meu xará, tudo tranqüilo? Velho, é um grande prazer poder começar esse papo com você. Como é de praxe em minhas entrevistas, começo essa conversa pedindo para você fazer uma retrospectiva. Gostaria que você comentasse a história do Terrorstorm e também (como vamos falar sobre esses dois assuntos) sobre a Music Reunion.  Utilize o espaço que necessitar, a casa é sua!
Chakal: Opa Alex! Em primeiro lugar gostaria de agradecer em nome de todos do Terrorstorm pela oportunidade. Muito obrigado de coração por ceder espaço para falarmos sobre nossos trabalhos nesse conceituado veículo dedicado à arte extrema do underground brasileiro.
Essa pergunta é bem corriqueira, mas faz sentido. Então vamos lá! A banda iniciou as atividades no final de 1996 que foi um período muito conturbado para o cenário carioca. Durante aproximadamente uns 3 anos o grupo passou por diversas mudanças de formação e participou de alguns shows e tentou registrar os sons em demos aproveitando gravações ao vivo e ensaios mas não tiveram resultados que deram certo para divulgar. Em 2000 uma mudança na formação deixou a banda estacionada até o final de 2001 quando fui convidado para cantar. Entrei oficialmente em 2002, quando iniciamos trabalhos de composição das músicas que dariam origem a demo Neurotic World com quatro sons lançada em 2003 com tiragem limitada a 100 cópias e o álbum independente com o mesmo nome contendo dez sons que foi lançado em 2004 com tiragem especial de 666 cópias. Seguimos participando de eventos e 4 anos depois lançamos o 2º CD Euthanasia de forma oficial e estávamos divulgando até pouco tempo. Ambos os CDs foram bem distribuídos na América latina e também em alguns países da Europa e Ásia. Para ajudar a divulgar nosso som, desde 2004 colocamos algumas musicas desses dois discos participando de várias coletâneas que foram lançadas no Brasil e distribuídas para muitos cantos do globo. Desde que entrei para o Terrorstorm rolaram algumas mudanças na formação da banda.  Apesar de eu, particularmente admirar muito os grupos que conseguem manter a formação clássica durante toda carreira, considero normal rolarem mudanças até porque manter um grupo unido com os mesmos ideais durante anos é algo muito difícil quando se está lidando com seres humanos. (risos) Seguimos apresentando nosso trabalho e tocamos em outros lugares do interior de nosso estado e também do sudeste durante a divulgação dos álbuns como: Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. O line-up atual da banda é: Ângelo Black (Guitarra), Chakal (Voz), Glauco Ricardo (Baixo e voz) e Evanildo (Bateria). É isso ai mermão. Fiz um resumão nessa aqui, mas para quem quiser conhecer melhor em detalhes o corre da banda basta visitar nosso myspace. Lá tem álbuns contendo a maioria dos cartazes de eventos que participamos, discografia incluindo as compilações e outras informações referentes as atividades da banda. Já o Music Reunion Prod’s and Distro, é uma idéia que rolou devido aos resultados de distribuição e contatos adquiridos com os trabalhos do Terrorstorm. Em 2007 tive a idéia de montar uma distro para vender os CDs trocados por material do Terrorstorm e também lançar coletâneas para divulgar bandas brasileiras nos mesmos canais de divulgação e distribuição que já tínhamos contato. Então montei o projeto Headbangers Metal Reunion Vol.1 que foi lançado em cd-r duplo no mesmo ano contando com 26 bandas ao todo e teve ótimas saídas. No ano seguinte, lancei a Headbangers Metal Reunion Vol. II com 18 bandas participando e iniciei trabalhos de apoio a lançamentos de demos de algumas bandas do underground como Echidna e Frozen Aeon. As parcerias foram se fortalecendo com zines, distros, rádios.. e fomos tocando os trabalhos de lançamentos e distribuição de bandas atuantes no underground e rolaram alguns lançamentos legais. Licorgasmalcoolatra, Necrose Vaginal, Les Sardines (Bélgica), Inner Shadows e a 3º compilação, essa dedicada a vertentes mais extremas "Extreme Reunion Hell Compilation" e continuamos trabalhando em aquisição de títulos para catálogo, divulgação e ampliando o canal de distribuição para países que ainda não havia feito trocas ou negociado de alguma forma. Em 2010 lancei em parceria o EP da banda carioca Priest Of Death e alguns lançamentos com o selo Suicide Apology Records (RN) e Visão Underground Records (PA) e comecei a utilizar um blog bem simples para divulgar os lançamentos e títulos em catálogo da distro como também, notícias relacionadas ao cenário Metal Underground e isso acabou somando bastante aos outros trabalhos que realizo. Como coloquei muita informação no blog passei a chamar de Metal Reunion Zine, tento atualizar diariamente com notícias que são enviadas para meu e-mail (musicreunion@gmail.com) e também que compartilho e troco com outros web zines. O conteúdo é bem diversificado e tem sido bem visitado nos últimos meses. O Zine pode ser conferido no http://metalreunionzine.blogspot.com. O único problema que vejo no Music Reunion & Metal Reunion Records, é que sou sozinho para desenrolar todas as atividades. Acho que 24h não são nada quando se tenta atuar em várias frentes. Mas dentro de minhas possibilidades vou seguindo tentando contribuir de alguma forma com nossa cultura.  Também tenho uma limitação proposital da distro e zine. Por motivos ideológicos não apoio nenhuma manifestação ligada a metal cristão ou com abordagem fazendo alusão ao nazismo fora isso, estou aberto a divulgar e apoiar quaisquer manifestações ligadas ao Rock e suas vertentes. Tudo na humildade, mas feito de forma sincera.
Alex Neundorf: Você mencionou o cenário conturbado do final da década de 90 para o Rio de Janeiro. Como assim? Conte-nos sobre isso e porque isso foi importante para o Terrorstorm. Interessante esses detalhes da história do Underground nacional. Muita gente não conhece as especificidades de cada região, ficando apenas no conhecimento que tem da sua localidade.
Chakal: Nessa época, tínhamos poucas bandas representantes de estilos mais extremos atuando na cidade. Bandas como: Taurus, Dorsal Atlântica, Cavalast, The Endoparasites, S.H.U., entre outras, haviam encerrado suas atividades ou dado um tempo. Os bares/points Garage e Caverna estavam fechados ou decadentes. E também havia a famosa desunião entre bandas que somada a falta de seriedade por parte dos produtores que atuavam na época gerava uma ausência de cenário ideal ou quase. Enfim. Conturbado assim.
Alex Neundorf: Dentro deste cenário conturbado, que você citou, como o Terrorstorm encontrou força e empenho para iniciar esta jornada no Underground? Pergunto isso, pois o impulso inicial para formar uma banda depende também de um contexto favorável, não é? Hoje vemos uma gigantesca safra de bandas surgindo, devido a uma série de aspectos que propiciam uma banda nascer. Enfim, você julga importante o Terrorstorm ter essa origem vinda de um cenário desfavorável? Vocês valorizam essa raiz? Na esteira desta questão, como você julga essas atuais gerações de bandas, nascidas em um mundo muito mais fácil que o dos anos 80/90? Comente sobre isso.
Chakal: Boa essa man! Como te falei, no inicio eu não estava com os caras, mas nessa época participei de outros projetos toscos que tinham o objetivo de virar banda (risos) eu acredito que o Terrorstorm quando começou teve que lidar com as limitações tecnológicas da época. Fita K7, Vinil, release feito com recortes e colagem somado a carta social (CR$ 0,01) era dureza mesmo. Os últimos anos dos 90’s, já começou a rolar o lance do e-mail e na virada (2000) em diante, as coisas cresceram até isso ai que estamos vivendo.  Respondendo, sim, todos aqui valorizam isso a maioria dos integrantes da banda que estão ou já passaram por aqui viveram essa época “desfavorável”. Julgo que as os fatores sociais, culturais, globalização, crescimento de mídias virtuais e tudo mais que rolou nos últimos anos mesmo com pirataria e outros lances foram coisas boas para todos envolvidos com música. Acho que as gerações atuais têm muito mais ferramentas para trabalhar do que as anteriores e é natural que vejamos muitos resultados legais rolando por ai. Mas também acredito que algumas regras básicas ainda existem. Hoje em dia montar, divulgar e tocar uma banda é muito mais fácil, até sozinho o cara mantêm a banda/projeto por muito tempo. Mesmo com todas essas vantagens, eu ainda acredito na “estrada”, essa sempre vai determinar a verdade e o grau de envolvimento da banda com sua proposta artística. Os meios digitais se popularizando ajudaram a diminuir também aquela velha conta: grana + marketing + mídia + algum talento = a pular para o “topo da escada” e mesmo que temporário, obter algum tipo de “sucesso”.  Apesar da conta ainda dar certo no meio musical, prefiro acreditar que no Heavy Metal isso não rola e o fator “algum talento” já não da tão certo na conta. Claro que temos às limitações culturais do nosso povo, mas também prefiro acreditar que não se aplica ao headbanger que geralmente é muito mais politizado que a média da população. “Pular para o topo” pode ser até bom, mas pessoalmente, acho que se perde a oportunidade única de subir os degraus e aproveitar os tropeços na subida ou descida sei lá! (risos)
Alex Neundorf: Cara, você mencionou um lance que eu não gostaria de deixar passar que é exatamente a questão da politização, ou essa veia mais crítica que, por natureza, todo headbanger tem. O que você acha disso atualmente? Sempre existiram filões dentro do Metal onde o aspecto político e crítico era a própria essência desses sub-gêneros, penso no Grindcore que teve muita influência do Punk, o mesmo vale para o Thrash Metal. Você acha que essas bandas novas que vêm surgindo, principalmente essas que vem na carona do momento “core”, preservam essas características? O que você tem a dizer sobre esse assunto, não só como vocalista do Terrorstorm mas também como o cara à frente de um selo/distro que promove bandas Undergrounds?
Chakal: Verdade cara. Isso sempre foi tipo um pré-requisito para o “Rock”. Mas apesar de ainda estar presente nas letras das músicas e também na forma que as mesmas são apresentadas, acho que o protesto com objetivo de buscar alguma reação do ouvinte mesmo que seja um debate familiar está sendo deixado de lado a tempos. Vale lembrar que, devido a sua politização o Heavy Metal e seus sub-gêneros já representaram ameaça eminente à igreja e governos. Prova disso, foi a preocupação dessas “entidades” em buscar durante anos associar o estilo musical e sua segmentação cultural a tudo que eles consideram “ruim” para a sociedade. Drogas, promiscuidade, “diabos”, loucura... Enfim, em minha opinião, a essência headbanger está nos questionamentos políticos e sociais constantes que por sua vez, ainda incomodam aqueles que controlam nosso mundo.  Essas atuais bandas que você pergunta, são muito boas musicalmente e suas apresentações são absurdas eu sou fã de muitas. Mas realmente acredito que a preocupação principal de boa parte delas no processo de composição é simplesmente fazer as pessoas se “mexerem”. Causar automaticamente o Mosh, circle pit... Curto muito isso também, mas será que o headbanger, que curte essas músicas, está recebendo alguma mensagem politizada que tenha essa veia mais critica que você citou acima?  Voltamos aqui na questão de fazer arte ou entretenimento não é? (risos)
Alex Neundorf: Vocês estão planejando para este mês (maio de 2010) entrar em estúdio e começar as gravações do novo disco. O que você pode nos adiantar sobre isso?
Chakal: E já fizemos com atraso! O planejamento oficial era para setembro de 2009 e inclusive três faixas já estavam gravadas. Infelizmente na mudança de line-up que ocorreu em novembro o ex-guitarrista, fez questão de ficar com material gravado pela banda, pois ele estava encarregado dos detalhes da gravação e isso atrasou um pouco nossos planos. Mas de certa forma, o atraso foi melhor, assim tivemos tempo de nos adaptar com a nova formação e no dia 16/05/2010 registramos em estúdio sete canções novas. Registramos esses fonogramas em caráter de pré-produção gravamos tudo “overall”.  Apesar da gravação ser simples, ficamos satisfeitos com o resultado das três músicas. Então tivemos a idéia de divulgar isso de alguma forma para aqueles que acompanham a rotina da banda, na última semana do mês de maio, lançamos uma WEB DEMO TEST contendo essas faixas somente para audição exclusivamente no myspace. Colocamos lá só para audição pois como disse, não são faixas oficiais, só teste mesmo. A idéia é gravarmos oficialmente no mês de outubro, estamos planejando registrar umas 10 faixas para esse 3º álbum. As músicas novas talvez sejam também um split com outra banda. Estamos conversando com algumas distros para o lançamento, mas precisamos ter a master oficial gravada para fechar alguma coisa.
Alex Neundorf: Mudanças de formação sempre são um estorvo para qualquer banda. Atrapalham o andamento natural da coisa. Mas falando sobre isso, quais problemas a banda enfrentou em sua trajetória, excetuando essa questão das mudanças de formação. Como manter o foco, apesar dos problemas? Sei que para muitas bandas é difícil se manter otimistas em meio aos problemas, mas também é notório que esses problemas são próprios do Underground. Enfim, comente sobre isso.
Chakal: Como citei na resposta da 1ª pergunta, desde o inicio o Terrorstorm passou por várias mudanças na formação e com certeza, isso influenciou o conceito criativo das composições, mas não chegou a descaracterizar nosso som. Acho que, depois que gravamos o 1º disco, ficou mais fácil manter o foco. Normalmente, quando ocorre alguma mudança no line-up, quem assume a função do integrante que saiu, recebe uma cópia do material já lançado e a seguinte mensagem: ”O lance é esse ai veio! Vambora!?” 
Alex Neundorf: Aproveitando o link das perguntas anteriores, em termos estritamente musicais e líricos, como você definira o Terrorstorm? Quais temáticas vocês costumam abordar nos sons e qual orientação em termos de andamento, velocidade, etc.?
Chakal: Quanto ao andamento das músicas e velocidade é algo bem simples. Tem que ser rápido, pesado e ter momentos sombrios que não comprometam o ritmo. Agora, quanto ao conceito ideológico dos sons, desde o início, as abordagens estão ligadas a temáticas políticas e sociais onde tratamos de forma globalizada questões relacionadas ao comportamento do ser humano e a manipulação de massas promovida por religiões e governos. Geralmente buscamos apresentar também um tema atualizado para alguma das músicas de cada disco. No 1º disco de 2004, falamos das neuroses do mundo e o tema atualizado foi à síndrome do pânico, já no segundo álbum, falamos dos vários tipos de sofrimento da humanidade e a falta de empenho social para solucionar as questões e o tema atualizado foi eutanásia que acabou virando nome do disco. Esse novo trabalho estamos tratando quase tudo de forma global dando foco em várias situações que promovem o caos social como também as atuais intervenções brutais da natureza contra a raça humana e somente uma das músicas abordará um tema regionalizado e outra, está ligada diretamente a cultura headbanger. Também estamos compondo outros temas obscuros que tem alguma relação com o consciente coletivo e principalmente com os demais temas que serão expostos no álbum, mas esses eu não sei se estaremos utilizando nesse disco.
Alex Neundorf: Já que entramos no aspecto propriamente musical da nossa conversa, gostaria que você comentasse como funciona o processo criativo no Terrorstorm.
Chakal: O processo é bem livre cara. Quanto às letras, todo mundo escreve o que vier na cabeça sem perder o conceito de abordagem que a banda costuma utilizar.  Já a montagem da música é feita nos ensaios de forma livre também, ultimamente, o Glauco Ricardo tem levado a maioria da idéias de riffs e como já temos um monte de letras prontas, testamos e vamos ajeitando o andamento de cada som. A liberdade deve-se ao fato que, desde 2003, temos um espaço nosso para ensaiar e isso ajuda muito, pois em estúdio tem aqueles lances de: horário + custo + logística... Onde ensaiamos, o material fica montado ai é só chegar, ligar e começar. O tempo fica mais livre para trabalharmos nas composições e também para ajustar e passar o set para shows.
Alex Neundorf: Costumo sempre fazer perguntas mais genéricas, sobre a cultura Metal na qual estamos inseridos. Acho importante que os leitores saibam mais a respeito sobre a pessoa de quem estão lendo a entrevista. Sobre o que a pessoa pensa, sobre seus posicionamentos, etc. Gostaria que você falasse sobre Underground. O que você entende por “Underground” e por “mainstream”.
Chakal: Legal!! Eu vi esse tópico em um fórum que você fez há alguns meses atrás e achei muito interessante. Curti muito todas as respostas que os participantes deram, mas na época eu estava atolado aqui em trabalho até o “pescoço” e não consegui tempo para responder. Para falar o que entendo por “Underground” e por “mainstream” tenho que dar minha resposta tendo como base algum lugar ou coisa, pois se for para responder de forma global eu posso pegar uma resposta do Wikipédia e pronto. Né? (risos). Brincadeiras à parte. Vamos lá! Falando de Heavy Metal nacional e seus subgêneros, te revelo que tenho pouco conhecimento do assunto “mainstream”, particularmente, só conheço Underground.  Pelo que sei, devido a limitações, sociais e culturais da nossa população, somadas aos interesses comerciais de algumas entidades tidas como sérias e que em alguns casos tem a responsabilidade de valorizar e divulgar as manifestações artísticas e culturais que acontecem em nosso país. Fico tranqüilo em afirmar que, o Rock e suas vertentes sempre estiveram no Underground aqui no Brasil. Para ficar mais certo de minha afirmação procurei responder para mim mesmo algumas perguntas como: O que do Heavy Metal nacional está diretamente ligado a nossa cultura popular? Em que momentos de nossa história pudemos ver esse segmento musical ser disseminado pelos meios de comunicação de massa? Quantas manifestações culturais baseadas no Rock e suas vertentes são apoiadas e fomentadas por governos e suas respectivas secretarias de cultura? Quantos músicos de Heavy Metal brasileiros vivem exclusivamente da música que produzem? Quanto percentualmente, a receita gerada por esses músicos representa no mercado fonográfico brasileiro? Quantas rádios destinadas as grandes massas disponibilizam algum tempo em sua grade para músicas de Heavy Metal? Porque tem ocorrido nos últimos anos um crescimento de rádios on-line, blogs, portais, revistas, fanzines independentes dedicadas ao Heavy Metal e suas vertentes? Existem quantos programas de TV em canal aberto que são voltados a divulgação da cultura Heavy Metal ou simplesmente Rock produzido no Brasil?   Então cara? Nós que estamos nesse meio, sabemos que o Brasil é o país da América latina com o maior número de bandas de Heavy Metal ativas. Infelizmente, podemos contar nos dedos de apenas uma das mãos aquelas que conseguem se sustentar como produto cultural. Digo se sustentar 100% de seu trabalho artístico e não os casos daqueles que tem condições socioeconômicas de se sustentar e com isso tem recursos para amortizar os prejuízos que são certos. Acredito que para o Rock de forma geral, chegar próximo ao “mainstream” e com isso ter uma representatividade mais sólida na cultura geral de nosso país, teria que se tornar popular e para isso rolar tem que haver interesse que quem manda na cultura. E ainda teria que haver uma revolução cultural dentro das cabeças de muita gente que já está envolvida incluindo: público, músicos, artistas, produtores e principalmente os donos das mídias que ainda controlam o que deve ser consumido ou não. Até mesmo no Underground! (risos). Para o Heavy Metal, a Internet pode até ser considerada uma mídia de massa, pois o Rock e suas vertentes ainda são culturas de um grupo restrito e composto por cenas regionais. Mas ai fica outra pergunta: Quanto da população brasileira tem acesso à Internet? E desses, quantos têm noção do que é Rock por mais simples que seja? Hoje em dia tenho observado que a “receita” utilizada por muitos músicos/bandas independentes é mostrar principalmente na Internet que não são mais Undergrounds e sim mainstream e devem ser valorizados por isso e ponto. E tem muita gente por ai que acredita e compra isso e consomem determinados “produtos” mesmo os mal acabados. A receita tá certa? Sei lá man! Underground ou Mainstream? Eu particularmente acredito que o primeiro conceito que aqueles envolvidos com Heavy Metal no Brasil deveriam aplicar constantemente é: Nós fazemos entretenimento ou arte?  Quando o Terrorstorm começou, muitas vezes nos colocamos como “produto” de entretenimento para o público e produtores. Mas com o tempo até mesmo por respeito e lealdade a todos aqueles que apóiam de verdade nosso trabalho, decidimos mudar nossos conceitos fazendo questão de continuar no Underground com muita honra, mas fazendo arte.
Alex Neundorf: Interessantíssima essa sua posição. Com certeza traz algo novo para esse debate. Olha, muitas bandas ainda pensam que o Metal é exclusivamente entretenimento. Enfim, gostaria de partir para uma nova questão também bastante polêmica. Apesar de eu já conhecer sua opinião sobre isso, gostaria que você respondesse o que você acha do white metal? Muitos acham uma grande ofensa ao Metal esse gênero se chamar assim. Por quais razões você acha que esse gênero é ilegítimo? Bem, em parte, a nossa opinião, do GoreGrinder, já foi exposta na matéria especial publicada em 2009.
Chakal: Pessoalmente eu não apoio cara. Acredito que isso ai trata-se de uma estratégia de marketing religioso arquitetada por pessoas que não tem nenhuma simpatia ou ligação com a cultura Rock/Heavy Metal. Também acredito que na verdade, aqueles que criaram e fomentam o White Metal, querem fazer o que sempre fizeram os que pregam ideologias cristãs. Deturpar a informação, corromper a cultura a fim de apenas promover os seus interesses específicos. Não acho que é uma ofensa ao Metal, pois não reconheço o estilo como manifestação artística e cultural de nada. Todos sabem que para fazer Heavy Metal de verdade não basta saber tocar um instrumento e colocar visual de roqueiro, né?
Alex Neundorf: Partindo para a segunda parte da nossa entrevista, vamos falar agora sobre a Music Reunion. Como é o seu trabalho com a distro/selo, no sentido de ter de se desdobrar nas atividades com o Terrorstorm e com ela? É difícil de conciliar as duas coisas?
Chakal: Nossa veio. Foi um somatório de ideais que decidi por em prática em paralelo com a banda e agora tento administrar. Quando comecei minha idéia era só montar uma distro para vender os CDs que o Terrorstorm trocava com outras bandas, lojas e distros.  Ai veio a idéia de usar o canal de contatos e distribuição da Terrorstorm para divulgar outras bandas do Underground então iniciei o lance das coletâneas e apoio no lançamento de demos, distribuição de títulos de distros parceiras, trocas e mais trocas..  Ai se chega a resposta (risos).  Sim é difícil conciliar tudo cara. Às vezes da vontade de parar com algo para sobrar tempo. Não querendo ser radical, mas hoje, essas atividades do selo e bandas consomem 70% de meu tempo os outros 30% ficam para trabalho oficial, família e todos outros compromissos extra.  Music Reunion tem uma divisão para música extrema é distro, blog zine com um catálogo extenso, o Terrorstorm tá na estrada e sou responsável por todos os canais de divulgação e comunicação da banda e ainda sou integrante de mais duas bandas onde também tenho funções similares e também colaborador de alguns zines.  Cansativo, mas fico tranqüilo aqui por estar fazendo o que gosto.  Além do mais, tem gente ai na cena que trabalha constantemente e fazendo um monte de coisas simultaneamente no mesmo pique e com muita qualidade. Exemplos? Leon Mansur (Metalmorphose, Apokalyptic Raids, Distro, produção de bandas...), Luiz Carlos P. Louzada (Violent Records, Vulcano, Predatory e mais umas 5 bandas), Hioderman Zartan (Anaites records, zine....). Só lembrei de cara desses mas tem muito mais gente ai nesse nosso Underground.
Alex Neundorf: Fale-nos sobre como funciona o esquema de trabalho de você a frente do Music Reunion. Como seleciona as bandas do cast, como pensa a divulgação, enfim, fale-nos sobre isso.
Chakal: Eu faço tudo cara. A seleção de bandas para as coletâneas, desde a Metal Reunion Vol.2 está sendo mais criteriosa, pois a idéia é fazer o lance simples em CD-R mesmo, mas com um material legal de se escutar. A divulgação geralmente é simples, eu monto um flyer em jpeg, uma nota com as infos, público no Metal Reunion Zine, na comunidade do Music Reunion e também encaminho aos parceiros que sempre ajudam muito na divulgação seja nos seus zines, blogs ou mesmo encaminhando meus e-mails para seus contatos. Nesses quase três anos do Music Reunion, estou tendo muito suporte de gente séria que faz excelentes trabalhos no underground e aproveito o espaço aqui para agradecer a todos que apóiam.
Alex Neundorf: Quais são os critérios (e porque) para se definir quem participa do cast de bandas da Music Reunion e da mesma forma dos colaboradores.
Chakal: Alguns ao longo da entrevista eu citei de forma separada. Os critérios para bandas são simples veio. Até porque minha distro não é Sony Group. (risos). No caso das compilações a proposta é dirigida de acordo com o objetivo do lançamento.  Quando é projeto Metal Reunion a idéia colocar músicas de todas as vertentes do Heavy Metal e quando é Extreme Reunion a idéia é reunir estilos mais brutais (Black, Death, Splatter, Gore, Grind, Porn...) Os detalhes principais são que sempre procuro trampar com fonogramas que tenham um mínimo de qualidade, as composições têm que ser autorais. Desde o 1º lançamento por motivos pessoais eu adotei também o critério de não aceitar a participação de bandas que possuam ligações ideológicas com white metal ou nazismo. Inclusive aproveito para te revelar que curiosamente tive muita procura de bandas cristãs para os projetos Metal Reunion se por acaso eu tivesse nesse lance por grana, poderia fazer uma coletânea só com bandas white e seria “duble CD” (risos). O trabalho com coletâneas é realizado em parceira com as bandas onde eu cobro uma taxa de participação por música. Esses valores são os recursos para fazer a impressão do material gráfico, cópias de matriz e realizar as postagens para as bandas, distros e zines parceiros. Geralmente a cada lançamento, são feitas 1000 ou 2000 unidades de capinhas envelope e encarte interno no formato 12x12cm coloridos. Aonde as capas vêm com acabamento em verniz e os encartes são em papel couche, para reforçar a divulgação, também produzo sempre uns 6000 flyers de divulgação coloridos no formato 10x15 cm em papel couche.  Já parceiros, fica o ditado “vivendo e aprendendo” todos os dias conheço gente no Underground, seja de banda, zine, distro... Como citei acima, atualmente tenho muitos parceiros sérios que tem minha gratidão por apoiar meu humilde trampo, mas infelizmente já conheci muito pilantra infiltrado em nossa cena. Gente oportunista que só pensa em promoção pessoal e em alguns casos tá dentro para aplicar golpe e desaparecer. Posso chamar até de sorte cara. Com o tempo vamos acostumando a observar o que está a nossa volta. Então já se tem uma idéia de quem é quem antes de firmar algum acordo ou iniciar algum trabalho em conjunto.
Alex Neundorf: Pois é cara, isso é uma merda. Não só essas ideologias se infiltrando no Metal e emporcalhando tudo. É difícil, as vezes, sacar de cara que uma banda tem ligações com tais ideologias. Exige pesquisa. Quando você, tá lá. A banda é cristã, ou então, tem ligações com bandas nazi. Foda mesmo isso! Cada vez venho me decepcionando mais com bandas que eu achava que eram duras com essas ideologias e daí a gente vê eles falando bem e divulgando o som desses lixos. Mas enfim, falando sobre os picaretas e os que querem se promover. Que dica você daria para flagrar esse tipo de pilantra?
Chakal: Dica? Fudeu! Vão me matar por ai. (risos) Não tem muita receita não man. É simples, observar é a lei. Primeiro de sempre é sacar se o cara fala na 1ª pessoa. (risos). Porra! Se o camarada vai lançar algo em parceira com bandas, vai contar com outras distros para distribuir e precisa da força dos zines para resenhar e divulgar o lançamento e ele usar o termo "eu estou promovendo"? Tome cuidado! Esse cara quer ser político e vai se candidatar para algum cargo público tipo "vereador do Heavy Metal" e ainda vai te mandar spam pedindo seu voto! (risos).  Tô brincando aqui na resposta, mas minha comparação para promoção pessoal é essa. Não curto gente assim, não apoio babacas que vivem pagando de astros do Underground, truezão, metalzão, veteranão e coisas do tipo. Porra! Se faz algo pela cena man, parabéns por sua colaboração. Se faz de coração não esperando nada em troca melhor ainda, pois com certeza estará fazendo muito bem feito e quem ganha é quem apóia nossa cultura. Agora quanto a convites para coletâneas e coisas do tipo onde alguém pede seu dinheiro. Seguinte: se o sujeito te manda proposta para participar de um projeto coletânea? Veja quantos trabalhos o cara fez; quantos lançamentos; consulte as bandas que participaram das edições anteriores ou que foram lançadas pelo selo. Tem gente por ai que utiliza o nome das publicações independentes online e impressas e também rádios afirmando que são parceiros em determinado lançamento. Busque saber se essa informação é verdadeira antes de mandar dinheiro para o cara. Indague quanto aos prazos de lançamento e verifique se os contatos por e-mail mesmo de perguntas simples são respondidos com rapidez. Coisas assim. Entende? Hoje não vejo muita gente nova divulgando ou recrutando bandas para compilações, splits... Quem eu sempre vejo, admiro o trabalho e indico sem dúvidas são caras sérios e de muita confiança como: Hioderman Zartan da Anaites Records/Distro (MA), Fabrício da Underground Produções (CE), Elton da Visão Underground Distro (PA) e o Alex da Guillotine Prods (BA), Luiz Carlos da Violent Records (SP), Igor do Metal Devastation Distro e tem mais gente ai que faz umas coletâneas em formato CD oficial que eu já vi muita coisa por ai também. Mas como disse, são poucos.
Alex Neundorf: Velho, foi um prazer ducaraio conversar com você nesses mais de dois meses que duraram essa entrevista. É o negócio. Ter pressa pra quê? Já chega o stress que o mundo nos oferece todo dia. Datas, horários, compromissos. Foi muito foda cara, mas acho melhor concluirmos por aqui e deixarmos espaço para uma próxima conversa. Garanto que assunto nunca vai faltar. Vamos seguindo. Desejo a você e a todos os teus projetos e trampos em prol do underground, muito sucesso. Valeu brother e o espaço agora é para tuas considerações finais. Mais uma vez, valeu!
Chakal: Beleza Alex, depois de tanto tempo e respostas enormes (risos), vou tentar ser breve nesse final.  Véio, a honra foi minha cara e reafirmo em nome de todos os integrantes do Terrorstorm que essa oportunidade foi muito importante para a banda. Aos leitores do GoreGrinder, esperamos um dia encontrar com vocês na estrada Underground e podermos juntos celebrar nossa cultura de forma extrema! Sinceras saudações a todos. Força!
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Vera Lucia  comentou:

Boa demais a entrevista. Não conhecia a banda.
Muito legal conhecer batalhadores da nossa cena.
Parabéns GoreGrinder!

27/08/10 às 13:56 Hs
Andersonevil  comentou:

Fudido! Terrorstorm! Chakal grande figura de nosso underground! Vida longa a tempestade de thrash metal insano!

25/08/10 às 18:21 Hs
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