É sempre muito gratificante poder apresentar um trabalho como o que está contido abaixo. Primeiro, por ser o resultado de uma conversa que transcorreu com muita tranqüilidade e clareza. Segundo, por se tratar de um material que com certeza vai trazer muita informação útil àqueles que a lerem. Os paulistanos do Psychotic Eyes (banda de Thrash/Death Metal que é composta por Dimitri Brandi – Vocal, Leandro Araújo – Baixo e Alexandre Tomarossi – Bateria) são um verdadeiro exemplo de honestidade e trabalho em prol do Metal Underground. Nesta entrevista, conversamos sobre muita coisa: desde assuntos mais relacionados com o Psychotic Eyes, tais como álbum debut, história da banda, etc., até temas mais gerais, que dizem respeito ao Underground puro, onde, por sinal, o Dimitri Brandi se mostrou ser um conhecedor com causa dos problemas que atormentam tanto as bandas, como o próprio público. Concluo essa apresentação com uma frase de efeito, pronunciada pelo próprio Dimitri, aqui, nesta entrevista:

Fazemos isso porque o metal é a nossa vida. O emprego só paga as contas, mas o que nos mantém vivos é a música!


Entrevista feita por Alex Neundorf e publicada no dia 05/12/2009
Alex Neundorf: E ai Dimitri, tudo ok? Primeiramente, nossos agradecimentos, em nome do GoreGrinder Web Zine, pela atenção reservada e pelo interesse em participar dessa conversa. Espero que possamos ao longo desse papo deixar claras, não só para aqueles que conhecem e acompanham o Psychotic Eyes, mas, principalmente, para aqueles que ainda não conhecem, um pouco da história da banda e da sua proposta. De inicio, como é praxe, gostaria que você comentasse a história da banda, do seu surgimento, passando pela sua trajetória, até chegar o momento atual... Sinta-se em casa brother, puxa a cadeira e tenha o espaço que necessitar!
Dimitri: Salve cara! Sempre que me perguntam a história da banda eu conto do mesmo jeito, mas desta vez vou fazer diferente. É uma homenagem ao GoreGrinder, hehe. Comecei a tocar guitarra com 15 anos. Eu era fanático por Iron Maiden, e só tinha fitas gravadas, pois não tinha muita grana para comprar os LPs. E os poucos discos que tinha não vinham com encartes. Então eu ficava curioso por sacar as letras, até que um dia vi uma daquelas revistinhas de violão com cifras especial do Iron Maiden, que tinha as letras de algumas músicas. Comprei a revista. Na mesma revista vinham umas propagandas de instrumentos musicais, mas nem pensei muito no assunto. Um belo dia estava ouvindo a música Aces High e de repente começou o solo. Não sei se era o momento, mas aquilo me despertou a vontade de tocar, comprar uma guitarra e tal. Vendi o vídeo game que eu tinha e comprei uma Jenifer, guitarra tosqueira, nem sei como aprendi a tocar naquele troço.

Toquei em algumas bandas cover, em outras de heavy tradicional. Passei a ouvir estilos mais extremos de metal, principalmente Death e Thrash, mas continuava tocando só heavy tradicional. Um dia, andando na rua, pensando em como os vocalistas de death metal conseguiam fazer aquela voz gutural, me arrisquei a dar uns gritos. Estava tarde e a avenida não era muito movimentada, então não tinha ninguém por perto. Devia ser uma cena esquisita um cara andando na rua dando urros. Percebi que levava jeito para a coisa e comecei a treinar em casa.

Procurei anúncio de bandas e achei dois caras procurando guitarrista e vocalista para uma banda estilo Death, Kreator e Slayer. Pronto, era o que eu queria, e foi só marcar o primeiro ensaio para nascer o Psychotic Eyes. Isso foi em 1999.

De lá para cá, muita coisa aconteceu. Gravamos duas demos. A banda se separou, voltou, mudamos a formação, saíram integrantes, gravamos um CD, tocamos num monte de cidades, arrumamos brigas com uns poucos e fizemos muitos amigos. Agora estamos ai, em trio, preparando novas músicas para o próximo CD. Ainda existe CD?
Alex Neundorf: Vou começar essa pergunta com um estrondosa gargalhada: hahahahhaha!!! Cara, vou abrir aqui um parêntese que quebra com os protocolos de qualquer entrevista! Enfim, não sou jornalista e não tenho interesse em fazer jornalismo e nem em ser imparcial. Por isso mesmo, acho que não tem problema em dizer que eu fazia o mesmo! Digo em relação a cantar na rua. Começa meio tímido, cantando baixinho, mas logo a vergonha desaparece e ai abre-se para tentar novas técnicas e tentar imitar outros vocalistas. O foda acontece quando se tenta imitar o Chuck, ai o grito é desvairado e fica difícil não parecer um louco para os olhos alheios! Uhauhauhauha Mas enfim, vou encaixar aqui uma segunda pergunta, relacionada à anterior (de toda forma, muitos aspectos da sua resposta serão explorados ainda): nos resuma, o que (e quando) o Psychotic Eyes já lançou? Naturalmente, o mais expressivo é o full-lenght? Conte-nos, qual o valor de cada um desses “rebentos” para a banda? Digo assim, porque é inevitável: um cd, uma demo, uma música, são como filhos para aquele que os criou!
Dimitri: Lançamentos oficiais foram três: uma demo em 1999, o CD em 2007 e o clipe de Celebrate the Blood também em 2007. Mas antes disso gravamos uma demo em 2002 que nunca foi lançada porque a banda acabou. Todo o material tem sua história e importância para a banda. Da primeira demo guardo com saudades as lembranças da gravação, quatro músicos inexperientes em matéria de estúdio apanhando para caramba para conseguir gravar. Teve mudanças nas músicas na hora do take, hehehe, acho que isso acontece com todo mundo. O melhor é que foi o primeiro trabalho com o Alex Nasser, produtor que se tornou um grande amigo. Nunca vou esquecer quando estava gravando o solo da música Psychotic Eyes e ele virou para mim: “esse solo está muito normal, porque você não pira um pouco, dá umas alavancadas, raspa a mão nas cordas?”. Eu fiz o que ele falou e ficou genial, até hoje toco o solo dessa música com as pirações que surgiram naquela sessão de gravação.

Já o CD é quase um filho mesmo. Mas demorou mais de 9 meses para nascer, hehehe. Trabalhamos de novo com o Alex, dessa vez com muito mais experiência de ambas as partes. O curioso que é a primeira demo foi gravada no estúdio em que o Alex trabalhava na época, que tinha uma puta estrutura de primeira linha. Já o CD foi gravado no estúdio pessoal dele, era só ele e nós, sem equipamentos caros, horários rígidos, nada disso. Assim conseguimos muito mais tranqüilidade, ficou um clima mais relax que reflete nas grandes idéias que conseguimos registrar. O Alex também conseguiu arrancar a melhor performance de cada músico.

Quanto ao clipe, lembro do calor insuportável que fez nas gravações. Você está fechado num estúdio, com luzes da iluminação queimando na sua cara e uma puta roupa quente, porque ninguém vai gravar um clipe de Death Metal usando bermuda ou sunga, hehehe. E a filmagem não termina nunca, você toca 17 vezes a mesma música aí o diretor vira para você: “eu queria gravar mais um take dando close na sua mão, então palheta direito para não sair nenhum erro”. E nesse ponto você já está um caco. Foi nosso primeiro trabalho com o Marcos Politi, que agora está finalizando mais um clipe nosso, dessa vez gravado ao vivo.
Alex Neundorf: Ok. Já que você mencionou o clipe, vamos abrir um parêntese aqui. A título de curiosidade minha mesmo, mas tenho certeza de que é curiosidade de muitos também. Além do clipe oficial para a música "Celebrate the blood", circula pelo Youtube um “ao vivo” da “Throwing Into Chaos”, ambos muito legais. Você acabou de mencionar o clipe novo, para a música "Carnage is My Name" (como essa entrevista transcorreu ao longo do mês, o clipe já se encontra disponível), como foi a experiência de gravar um clipe (além do que você já mencionou acima)? Comente mais sobre isso. Acho que para muitos, gravar um clipe é algo ainda hoje inimaginável, embora a tecnologia e o acesso a ela tenham se tornado algo muito fácil, simples e até bem barato (se comparados com as décadas anteriores). Enfim, vou te explorar aqui, fale mais sobre isso...
Dimitri: Hoje em dia o YouTube é um grande portal de divulgação de bandas independentes. Eu mesmo conheci sons novos por meio desse site. O legal é que você tem todo tipo de material, desde gravações amadoras sem nenhum tipo de equipamento ou edição profissional, até clipes bem acabados que custaram milhões. No nosso caso, nenhum deles foi tão caro, hehehe. A idéia de gravar o primeiro clipe surgiu quando recebi um e-mail do Marcos Politi, vocalista do Predatory, banda de Thrash metal da baixada santista. Ele é profissional de audiovisual e queria investir nesse lado, aliando o conhecimento que tem de metal com as técnicas de gravação e edição de imagens. Trabalhamos juntos na Celebrate the Blood e foi muito estranho, pois foi tudo uma experiência nova para nós. Você fica tocando a mesma música horas a fio, e daquele monte de imagens vão surgindo as edições. Dá trabalho, pois você tem que pensar em cada segundo do vídeo, e o material que dispõe é o que gravou na sessão de gravação. Depois disso, quando marcamos o show de aniversário de 10 anos da banda, pensamos em tudo o que poderíamos fazer para tornar a data especial. Procuramos uma casa legal, que fosse em Guarulhos, cidade natal da banda. Alugamos um equipamento de som e iluminação profissional, para termos tudo da melhor qualidade. Chamamos também nosso produtor Alex Nasser para gravar o áudio e o Marcos para filmar o evento. Queríamos um clipe totalmente ao vivo, sem maquiagens ou truques que escondessem erros, queríamos mostrar a verdadeira performance da banda no palco. Isso foi um complicador, pois subimos no palco sem saber qual das músicas seria escolhida para o clipe. Deixamos isso para depois, analisando a qualidade da gravação do áudio e da nossa própria performance. Logo que ouvimos a primeira vez, vimos que a escolhida tinha que ser a Carnage is My Name, que estava com uma performance excepcional e a qualidade de áudio excelente também. O Alex mixou e masterizou o som, e, sinceramente, acho que nesse trabalho ele se superou. Ficou tão bom que nem parece que é ao vivo, eu que sei que foi gravado direto da mesa às vezes duvido, hehehe. Depois disso o Marcos iniciou o processo de seleção das imagens, edição e sincronização com o som. Demorou e foi complicado, mas ele também fez um excelente trabalho. No final, estamos extremamente satisfeitos com o resultado. Também achei interessante colocar algumas coisas ligadas à letra da música, então inserimos essas legendas que você pode ver no clipe. São manchetes de jornal falando sobre a ocupação do Haiti pela ONU, missão que é liderada pelo exército brasileiro. Isso porque a letra é uma crítica a essas “forças de paz” da ONU, que servem para prolongar conflitos, muito mais do que evitar ou trazer a paz. Eles sempre entram nos países para favorecer interesses, não defender o povo. E a conexão com o Haiti é devido à presença brasileira no país, o que torna o tema mais interessante e próximo da nossa realidade.
Alex Neundorf: Quem se interessar em dar uma sacada nos clipes, que de uma olhada na nossa sessão Goretube aqui do site, pois eles estão por lá. Mas, agora nos fale sobre o nome “Psychotic Eyes”... Qual seu sentido para a banda? Comente o que você achar necessário sobre o que os levou a se intitular “Olhos Psicóticos”... (me arrisco aqui a tentar adivinhar: tem algo haver com alguma influência filosófico-psicológica dos álbuns do Death e do Chuck? Só um palpite! Hehe)
Dimitri: Errou feio, cara! Adoro Death e toda a obra do Chuck, um dos maiores gênios que o metal já produziu. Mas não foi daí que tiramos o nome da banda. Antes do primeiro ensaio, decidimos quais covers iríamos tirar, aquela coisa, para ver se os músicos se entrosam etc. O Alexandre, baterista, sugeriu “Dead Skin Mask”, do Slayer. A banda nem tinha nome ainda. Tirei a guitarra e quando fui pegar as letras havia essa frase: “simple smiles elude psychotic eyes”. Na época tínhamos a idéia de escrever letras sobre serial killers, coisas assim, mas explorando o lado psicológico da coisa, não somente o aspecto “gore”. Sugeri esse nome Psychotic Eyes e os caras gostaram. Mas o nome da banda é uma bosta, ninguém fala direito, todo mundo erra na hora de escrever, é uma maldição!!! Mas já pensamos em mudar e nunca apareceu nada melhor. Quem já tentou dar nome a uma banda sabe como é difícil. Todas as opções parecem idiotas, pois os nomes fodas já foram usados, tipo “Deep Purple” e “Mercyful Fate”.
Alex Neundorf: Sim, todos passam por isso e, de um conjunto de nomes possíveis, escolhem sempre aquele que parece menos ridículo e idiota. Mas para o ouvido alheio nem sempre é assim: por exemplo, para mim, “Psychotic Eyes” é formidável!!! Soa muito bem! Acho mesmo que isso é uma característica de todos aqueles que ouvem metal honestamente: ser crítico, ou melhor, ser autocrítico. Agora, antes de falarmos especificamente sobre a parte musical propriamente dita, proponho a você um desafio. Gostaria que você separasse, em tantos quantos você achar necessário, momentos da história da banda e exemplificasse-os com um ponto que você acha mais marcante em cada um deles (uma anedota, um fato, etc.). Embora a banda seja relativamente nova (ou nem tanto, afinal lá se vão 10 anos), eu acho correto pensar que, em sua trajetória, sempre houveram “momentos” diferentes (acho mesmo que em toda banda funciona assim). Diga ai:
Dimitri: Acho que são dois momentos muito marcantes, que só quem acompanha a banda de perto viveu, e faço questão de contar.

O primeiro foi quando tocamos com o Frank Gosdzik do Kreator. Era a primeira formação da banda, estávamos tocando num buteco super underground da periferia da zona sul de SP. Era o lugar mais underground possível, demorava umas duas horas de ônibus para chegar lá saindo do centro. Ninguém na banda tinha carro ainda, heheh. Imagine o Alexandre que vinha de Guarulhos, atravessava SP inteira carregando as peças da bateria... Pois bem, estávamos nesse evento quando chegam o Punk do Siegried Ingrid acompanhado do Frank, ex-guitarrista do Kreator, que na época tinha acabado de se mudar para o Brasil. O Aldo, nosso baixista na ocasião, foi conversar com ele. Mencionou que a gente tocava “People of the Lie” e éramos grandes fãs do trabalho dele. No fim ele mesmo topou tocar essa música com ele. Lembro que o Reinaldo, o outro guitarrista, exigiu que o Frank tocasse com a guitarra dele, então trocamos nossos instrumentos, pois eu apenas cantaria. Quando anunciei a música e a presença do cara, lembro da cara de tacho de um monte de gente na platéia. Muita gente simplesmente não acreditava no que estava vendo, uma banda underground tocando com um cara conhecido, um sujeito importante na história do Metal. Foi absurdamente emocionante, pois nunca tínhamos ensaiado com aquele cara, mas nunca mais conseguimos uma versão desse cover tão entrosada, tão afiada e vibrante.

Outro momento emocionante foi quando tocamos no Metal Battle ano passado. Dividimos o palco com Chaosfear, Henceforth, Dr. Sin e Threat. Só lendas do metal nacional, vários músicos importantes e influentes. Nosso show não foi dos melhores, porque estávamos muito nervosos e tensos. Também não tínhamos roadies e não passamos o som direito. Para piorar, minha guitarra soltou o parafuso da correia e no primeiro riff que toquei ela caiu no chão. O emocionante foi que, depois que o show acabou, o Ivan Busic, baterista do Dr. Sin chegou para nós no bar, cumprimentou todo mundo e parou na frente do Alexandre, nosso batera: “Você é um puta baterista, cara”. Falou isso batendo nas costas dele. O Alexandre ficou sem resposta, não sabia o que dizer. Comecei a conversar com ele e o Ivan se mostrou extremamente simpático, dizendo que ele tem experiência e sabe reconhecer uma boa banda mesmo por trás de vários problemas tipo os que nós passamos. Um comentário desses mexe com o orgulho de qualquer um, heheh, ficamos todos extremamente gratificados com isso!
Alex Neundorf: Com certeza deve ter sido muito foda tocar nesses dois fests. Principalmente, no meu entendimento, ao lado de um cara que já tocou em uma lenda do metal mundial. Além disso, dá para ver que, como a maioria das bandas undergrounds nacionais, vocês também tiveram que enfrentar sempre muitas dificuldades. Foda, toda banda tem que passar por problemas com a distância, com trocas de formação, com lugar para ensaiar, com os instrumentos, enfim, a lista se estende... Conte-nos sobre as dificuldades que vocês enfrentaram até o momento, para se consolidar como o Psychotic Eyes. Além disso, o que você considera mais relevante para uma banda enfrentar, falando agora em termos de desafios mesmo. E, juntando com isso, você acha importante (ou relevante, ou desnecessário, etc.) uma banda enfrentar todas essas dificuldades?
Dimitri: As dificuldades são muito importantes. São elas que deixam a banda unida. Se as coisas acontecem fácil ou rápido demais, as pessoas simplesmente piram. Veja o exemplo de tantos músicos bons que morreram ou se mataram porque não agüentaram a fama. As bandas que chegaram ao topo ralaram muito para conseguir isso, foram perseverantes, não desistiram em nenhum momento. Mas tem horas que é muito difícil e você pensa mesmo em desistir.

No nosso caso, houve um problema sério, que foram os problemas de saúde. Cara, as pessoas não imaginam a praga que é essa tal de LER hoje em dia. É uma verdadeira epidemia. Todo mundo do Psychotic Eyes teve algum problema com isso. Quem mais sofreu foi nosso baterista, o Alexandre, que graças a uma bursite quase parou de tocar. Ele teve que reaprender a tocar, pois os movimentos que estava acostumado machucavam o ombro. Ele mudou toda a posição dos tambores da bateria, abaixou os tons, procurou outra postura e passou a tocar desse jeito. O curioso é que estive recentemente na Europa e fui no festival Hellfest, e reparei a quantidade de bateristas que hoje monta a bateria mais baixo, com bumbos menores e os tons na altura do antebraço, não mais aqueles tons elevados estilo Nicko McBrain. Acho que é um reflexo dessa epidemia de tendinites que assola nossa geração criada no vídeo-game, hehehe.

Eu também tive tendinite, tenho um cisto no pulso direito, que me atrapalha nas palhetadas mais rápidas. Preciso fazer alongamentos e aquecimento antes de tocar, senão a dor fica insuportável. Algo que me ajudou foi mudar o modelo das guitarras, troquei as Flying V que tem um puta visual por modelos mais tradicionais, com o corpo abaulado, que são mais anatômicas e confortáveis.

Trocas de formação são um problema, mas não nos afetou muito. O que foi pior foi que em 2003 fui transferido para Brasília, aí a banda acabou mesmo. Quando voltei retomamos o Psychotic Eyes, mas estávamos só eu e o Alexandre. Até completar a formação foi um parto, foi outro momento em que tivemos que ter muita força de vontade para continuar.

Mas nada disso se compara à dificuldade que é manter uma banda na cena. Ninguém te dá apoio, isso é impressionante, e é algo que quanto mais você reclama pior fica. Hoje em dia ninguém dá apoio mais para banda brasileira, ninguém está nem aí. Eu imagino como será a cena daqui a dez, vinte anos, pois hoje só tem espaço quem toca cover de classic rock ou anos 80. Insuportável.

Essa molecada acostumada a baixar tudo na net de graça precisava de mais consciência, de descobrir o prazer que é ver uma banda tocando ao vivo, acompanhar uma banda crescendo, lançando discos. Hoje tudo é muito fácil, mas isso favorece o consumismo desenfreado e atrapalha aquele prazer que tínhamos de ouvir música, quando as coisas eram mais difíceis. Lembro que quando alguém conseguia um lançamento, ou descobria uma banda diferente, era um acontecimento! Todo mundo se reunia na casa do cara para ouvir aquele som.

E quando ia ter show de banda nacional você ia sem nem perguntar quem ia tocar, não importava se conhecia a banda, se tinha disco lançado, nem o estilo. O que importava é que ia ter um show, isso bastava. Hoje o cara tem trocentos shows internacionais para ir, gasta uma fortuna no ingresso do Nightwish, baixa tudo de graça e depois fala que o metal nacional é uma merda. Claro, ninguém aqui recebe dinheiro do governo para gravar CD igual é na Suécia. Tudo tem um custo, e mesmo que você saiba que não vai recuperar o investimento, que ter banda dá prejuízo, o mínimo que as bandas esperam é que alguém ouça a música, vá aos shows. Hoje isso está cada vez mais difícil e não canso se repetir: se continuar assim vão matar o metal brasileiro.
Alex Neundorf: Puxando um gancho, concordo com absolutamente tudo que você comenta na resposta anterior, mas gostaria que você falasse mais sobre esse assunto: mp3 e a internet. Recentemente lançamos no primeiro zine impresso do GoreGrinder uma matéria contendo a opinião de várias personalidades envolvidas de alguma forma com o metal, fale-nos um pouco mais sobre o que você acha do mp3 e, principalmente, qual sua opinião sobre os benefícios e malefícios da internet.
Dimitri: Sobre mp3 eu já manifestei minha opinião em outras entrevistas e não mudei ainda de idéia. Acho que tem lado bom e ruim. O lado bom é que facilitou muito o acesso à música. Hoje você tem um formato de áudio razoável e de fácil acesso, que pode circular no mundo inteiro. Seria como as velhas fitas cassetes que gravávamos e elas andavam de mão em mão divulgando bandas novas e permitindo que quem não tinha grana para comprar os oficiais escutasse o som da banda. Mas a semelhança pára por aí. Primeiro porque muita gente que hoje só baixa mp3 tem dinheiro mais que suficiente para comprar CDs e não compra, porque prefere o que vem de graça. Isso é muito ruim para os artistas, pois fazer música tem um custo. E se ninguém compra seu CD nem vai no seu show, fica impossível financiar o próximo lançamento. Outro lado ruim é que a qualidade de áudio do mp3 é baixa e pouca gente percebe isso. Isso prejudicou a forma como o público aprecia música, pois a maioria das pessoas hoje ouve música em caixas de computador feitas de plástico que tem um som horrível, ou em fones de ouvido vagabundos. Mas o melhor do mp3 foi ter acabado com as gravadoras, que ditavam modas e gostos baseados em perspectivas financeiras. Isso acabou, mas ainda não sabemos como será o modelo do futuro. Acho que a tendência é de haver um contato direto entre o artista e os fãs, sem intermediários como gravadoras e lojas. Nisso a internet é muito boa, pois facilita o contato. Esta entrevista mesmo, sem internet, seria impossível!!
Alex Neundorf: Nunca havia lido uma opinião que mencionasse esse aspecto: o da qualidade. Sempre pensei na diferença que existe, diferença gritante, entre a qualidade de um mp3 tocado em uma caixinha podre de computador e qualidade do som proveniente do vinil, aquela profundidade do som. Hoje em dia fica difícil conversar sobre vinil com a geração que nasceu ouvindo o som no computador. Essa galera não consegue entender isso e acho mesmo que os ouvidos dessa galera deram um salto involutivo. Nem mais conseguem ouvir as sutilezas da gravação analógica. O pessoal tende a achar que é retrogrado ouvir vinil, que é coisa de gente nostálgica. Enfim... partindo então para a segunda parte desse nosso papo, gostaria que você falasse sobre as principais influências, não só no som finalizado (embora possa se identificar ouvindo-o e mesmo lendo as suas respostas), mas para os integrantes na hora de compor, aquele som cotidiano, etc.
Dimitri: Cara, vou falar das minhas influências, pois acho que é um assunto pessoal e sempre que arrisquei palpites sobre as influências dos outros integrantes eles brigaram comigo, hehehe. Quando componho eu tenho sempre um mesmo referencial, que é o Chuck do Death. Esse cara fez milagre, compôs obras primas, então eu sempre penso: com esse riff o que o Chuck poderia fazer? Ele não ia se satisfazer com pouco, só com uma base e um refrão, então tenho que colocar mais coisas. Claro que não é uma cópia, é uma tentativa de sempre manter um nível elevado nas composições, um alvo a ser atingido.

Outra referência que sempre vem é o Mercyful Fate e a carreira solo do King Diamond, adoro os arranjos de guitarra e o tipo de riff heavy mais macabro que eles fazem. Aliás, são todos guitarristas injustiçados, que não receberam o devido reconhecimento. O Andy La Rocque, principalmente, que gravou riffs e solos fantásticos, mas não tem nem metade da fama e da consideração que merece.

Também tenho como referência bandas de thrash como Testament, Megadeth, Anthrax, Sepultura, Kreator, Destruction, que usam estruturas musicais variadas embora simples, alternando com riffs complexos e rápidos, que eu acho muito interessante. Gosto muito de imaginar a música num show, como a platéia reagiria às mudanças, aos breaks e coisas assim, tão comuns no som dessas bandas.

Penso também em bandas mais viajantes, principalmente doom e do rock progressivo. Quando falo progressivo não é o Dream Theater, não tem nada a ver com virtuosismo, é uma coisa mais de clima, de viagem mesmo, tipo Pink Floyd, Yes, Camel e até bandas novas tipo Porcupine Tree. De doom eu sou fissurado pelo My Dying Bride, Katatonia, Moonspell. Sempre que posso acrescento um ou outro riff mais mórbido ou melancólico. Mas nunca consigo uma parte realmente doom numa música, heheh, pois o Alexandre pega meus riffs arrastados e põe um blasting beat ou uma levada de thrash metal em cima. O resultado, claro, fica muito mais interessante, então eu não reclamo!
Alex Neundorf: Sim, eu também sou um fã de King Diamond (solo e com o Mercyful) e concordo que foram sempre injustiçados, a exceção é o Mike Dee que se deu bem e hoje é bastante conhecido. Mas mudando mais um pouco o direcionamento da nossa conversa, como funciona o processo de composição para o Psychotic Eyes?
Dimitri: Difícil de descrever, hehehe, nosso processo de composição é bem bagunçado e variado. Geralmente começamos com alguns riffs ou uma levada de bateria. Se forem riffs, eu bolo mais ou menos a estrutura da música, transcrevo a partitura ou gravo o áudio para os outros caras. Aí cada um adiciona suas partes e vamos moldando a música. Os vocais e letras são a última coisa a serem compostas, geralmente. Mas já houve casos em que começamos com uma letra, como na música nova "Throwing into Chaos", que foi escrita pelo poeta Adriano Villa. Às vezes o começo de tudo é uma levada de bateria, que o Alexandre mostra num ensaio. Colocamos riffs e melodias em cima e depois vamos completando a música. Uma coisa que percebemos na gravação do CD é que é fundamental saber exatamente o que você está tocando, saber a fórmula do compasso, a tonalidade de todos os riffs e solos, o andamento certo de cada música no metrônomo. Muita gente acha isso frescura, e sei que bandas clássicas gravavam meio no instinto. Mas isso só funciona para gênios, ou para gente que tem muito tempo no estúdio. Para nós, meros mortais, é mais eficiente você trabalhar pesado numa partitura antes de entrar no estúdio do que ser surpreendido no meio de uma gravação.
Alex Neundorf: ahahaha, mas a galera tende a achar que ta abafando! Fico puto quando vejo bandas iniciantes posando de fodonas. Ainda nem se consolidaram como bandas e já perdem a humildade e se acham os “gênios” que você mencionou acima. É muito bom saber que vocês conservam a humildade acima de tudo. Tenho certeza que isso faz a diferença. Mas, falando mais sobre o primeiro full de vocês, comente sobre esse material, o auto-intitulado “Psychotic Eyes”. Além do processo de gravação, fale-nos também sobre a recepção desse material, pelo público e pela imprensa especializada.
Dimitri: A gravação foi um parto, demorou demais, porque tivemos vários problemas imprevistos. Mas valeu muito como experiência. Sorte nossa que tínhamos o direcionamento de um produtor experiente, que é o Alex Nasser. Ele é um grande amigo e um músico fora de série, que sabe arrancar o melhor de cada músico. Isso faz muita diferença, pois tem horas que você não agüenta mais tocar determinada parte, acha que está ótimo, até porque quer se livrar daquilo. Mas aí o produtor vira para você e diz: não está bom, sei que você consegue fazer melhor. Ou então te dá um toque: pára de tentar inventar moda, não precisa palhetar tão rápido, tente algo mais cadenciado nessa parte. Aí a sugestão dele salva uma parte que não ia ficar boa de outra forma. Isso pode parecer frustrante, de você não conseguir gravar um riff que tinha bolado e gravar outra coisa, mas eu não ligo para isso, penso mais no resultado final da música.

A recepção do CD foi muito boa, praticamente só recebemos elogios e resenhas favoráveis. Na época do lançamento ainda existiam três revistas de metal no Brasil, e todas deram resenhas muito elogiosas. A recepção de público também nos surpreendeu, com o CD aparecemos na votação da Roadie Crew como uma das revelações, isso foi sensacional. Lembro de ver isso na revista e meu coração quase parar na hora, é uma emoção muito grande perceber que seu trabalho deu certo e as pessoas estão curtindo.
Alex Neundorf: A falta de experiência com certeza atrapalha muitas bandas. Tem muito estúdio picareta (além de outras pessoas envolvidas de alguma forma com o metal em um contexto mais geral: promoters, managers, etc.) que exploram essa inexperiência. Esses parasitas sempre infestaram qualquer lugar onde o homem habita e são caracterizados por uma coisa que eu sempre detestei, mas que no Brasil é visto como algo bom: a tal da malandragem, ou o “jeitinho brasileiro”. Mas dando continuidade ao nosso papo, fale sobre as novidades para esse resto de semestre. O que vocês tem como objetivos para o ano de 2009? Vi que recentemente a música "Celebrate the Blood" foi selecionada para a compilação "Endless Massacre III" da Violent Records, além dessa compilação, podemos esperar mais alguma coisa, em termos de lançamentos, para este ano.
Dimitri: Este ano de 2009 está sendo cheio de atividades para o Psychotic Eyes. Começamos com uma mudança de formação, a saída do nosso guitarrista de longa data Valdemar Ferrari. Pela primeira vez desde 2000 somos um trio, experiência que está sendo interessante, difícil e ao mesmo tempo um desafio. Principalmente para mim, que agora sou o único guitarrista, fico com mais responsabilidade, embora também com uma certa liberdade meio característica das bandas que são Power trio ou têm apenas uma guitarra. Pela primeira vez podemos fazer improvisos, então às vezes baixa o Blackmore em mim, hehehe. Depois disso tivemos o show de aniversário, primeira experiência como organizadores de show. Pude sentir na pele o que os produtores sofrem, nunca mais vou reclamar da organização de um evento! Tivemos também o lançamento do clipe, da coletânea “Tunnel of Death” e agora da “Endless Massacre III”. Ambas são coletâneas excelentes e estamos muito satisfeitos e orgulhosos em participar. Agora estamos trabalhando em material novo, pretendemos começar as gravações o mais rápido possível, para lançar logo o sucessor do nosso CD de estréia.
Alex Neundorf: Vocês anunciaram que estão trabalhando já em novas músicas, para o segundo álbum, e que tem a previsão de lançar um single virtual ainda este ano. Comente sobre esse trabalho que se encontra em desenvolvimento. Vocês já tem uma idéia de como irá se chamar o novo álbum? Para quando prevêem o lançamento? Enfim, comente sobre isso...
Dimitri: Não tenho a menor idéia do título do próximo álbum. Aliás, nem sei se vai ser um álbum, pois me parece que hoje em dia ninguém mais compra CDs. Um “álbum” talvez seja só uma coleção de músicas, que podem ser lançadas pela internet, sei lá. Não definimos ainda o formato, mas já temos sete faixas novas bem encaminhadas, que devem estar nesse próximo lançamento. O interessante é que são músicas muito diferentes entre si, tem músicas rápidas, pesadas, lentas, épicas e o diabo. ”Throwing into Chaos” você já conhece, pois tem uma gravação dela ao vivo. É uma música interessante, pois concilia riffs Heavy tradicional com uma letra escrita pelo Adriano Villa, poeta autor do projeto Hamlet, da Die Hard.  Nos shows temos tocado também a “Welcome Fatality”, música pesada e rápida que fala sobre um assalto que deu errado e o arrependimento do protagonista, do ponto de vista de quem desgraçou a própria vida ao matar alguém. Temos até uma balada romântica para a próxima novela, hehehe. É sério, resolvemos fazer o que nenhuma banda de Death Metal nunca tinha feito, pelo menos não no meu conhecimento: uma música de amor. Sem viadagem, claro, vai ser o mais próximo que o metal extremo consegue chegar de uma balada. Mas não conte isso para ninguém ainda, é segredo, hehehe. Ops! Acho que não deveria ter mencionado isso numa entrevista, os fãs vão dizer que nos vendemos...
Alex Neundorf: hahahhaha, Essa eu quero ver! Balada romântica! Parece interessante, uma pena que tenhamos de esperar! Mas tenho certeza que irá valer a espera! Mas, finalizando nosso papo, deixo aqui, como é de costume, o espaço que você julgar necessário para as considerações finais. Finalizo dizendo que foi um enorme prazer conversar com você e que com certeza nosso papo foi muito construtivo. Construtivo não só para mim, que conheci mais sobre o Psychotic Eyes e aprendi coisas novas, mas também, tenho certeza, para aqueles que porventura lerem esse material. Tem muita informação valiosa aqui. Fica a vontade brother e tece ai suas palavras finais.
Dimitri: Não tenho palavras para te agradecer, cara. Foi realmente muito divertida e legal essa entrevista, espero que quem leia consiga perceber o quanto nós nos divertimos, hehehe. Com certeza os leitores do GoreGrinder estão entre a elite do underground nacional. Quando falo "elite" digo em qualidade, em dedicação e conhecimento do metal, nada a ver com classe social. Pois sei que o público do GoreGrinder é, na sua maioria, formado por apoiadores e seguidores do metal nacional, gente que tem aquela energia que tanto faz falta hoje em dia. Vontade de ir e organizar eventos, de descobrir novas bandas, de ouvir aquela demo ou o CD das bandas brasileiras. Isso hoje faz muita falta, e não é culpa da internet, mas do desânimo e da passividade que tomou conta do público. Por isso, agradeço e parabenizo os guerreiros que continuam na ativa, batalhando pelo metal, mesmo sabendo que não haverá retorno. Fazemos isso porque o metal é a nossa vida. O emprego só paga as contas, mas o que nos mantém vivos é a música!
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