Banda/Artista: Huey
Título: Ma
Lançamento: Black Hole Prods.
Ano: 2018
Site oficial: http://hueyband.com
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 05/11/2018

Embora tenha iniciado suas atividades em 2010, eu ainda não havia tido oportunidade de ouvir a banda paulistana Huey até o momento e fui seduzido pelo seu instrumental hipnótico e pesado já na primeira audição. Porém, à medida que fui podendo absorver cada detalhe deste "Ma", segundo álbum completo do Huey, o disco foi se revelando em toda a sua riqueza instrumental e imagética. Assim, um lançamento que pode parecer aos desavisados apenas "mais um disco de stoner rock" é, na verdade, uma obra refinada, cheia de nuances e referências a diversos gêneros do som underground. Tais características fazem de "Ma" um material essencial pra quem se rebela contra as amarras do purismo estético ainda vigente em muitas subculturas da música, por saber que a arte só avança – e junto leva os homens, sua imaginação e sua compreensão de si e do mundo – quando quebra as fronteiras que separam os gêneros e sufocam a criatividade. 

Como todo artista que não se sujeita a regras, a banda se situa exatamente no espaço de transição entre os mais diferentes estilos de compor, naquele entrelugar caótico em que a arte age de forma autônoma e pulsante, o que certamente tem tudo a ver com o título do álbum – "Ma", que em japonês quer dizer "lacuna", "espaço", "pausa", "intervalo", ou ainda "o espaço entre duas partes estruturais". É exatamente nesse espaço que se encontra a estética do álbum, sem dúvida, em uma espécie de vácuo que se refere ao silêncio que se dá entre uma nota e outra e, assim, dá forma à música. Mais do que isso, o conceito de "Ma", de acordo com os japoneses, refere-se a uma forma de ver o mundo em que menos é mais, pois onde há muito, nada se destaca, onde há confusão e aglomeração, mesmo as coisas valiosas perdem seu valor. Entender esse conceito parece-me fundamental para entender a tônica deste disco do Huey, pois a sobriedade que tal concepção implica está presente em todo o material, da capa ao som propriamente dito.

Em primeiro lugar, a arte totalmente sóbria, limpa, do disco, é um claro reflexo dessa ideia de que se pode expressar mais com o mínimo possível. Não à toa, a capa de "Ma" apresenta apenas um tigre e sua sombra sobre um fundo todo vermelho, além do nome da banda, discretamente disposto no canto superior esquerdo, acompanhado do nome do álbum em fundo negativo – aliás, espaço negativo é também outro dos significados de "Ma" muito usado na arte, no desenho gráfico e até mesmo nos jardins japoneses. Esse espaço negativo também está presente na sombra do tigre, animal que é um símbolo caro aos orientais. De acordo com a mitologia japonesa, acredita-se que o tigre tenha origem divina, mas também seja associado à maldade e ao perigo, já que é comum que os demônios japoneses sejam representados vestidos com suas peles. Assim, o tigre pode representar a "escuridão existente dentro de uma pessoa", significados provavelmente associados ao comportamento agressivo do animal. Então, é nesse misto de sobriedade estética com o excesso de força e agressividade do tigre presente na capa do álbum que se encontra também a música do Huey.

Assim, em segundo lugar, levando em consideração que "Ma" também alude ao vazio do qual podem emergir e conviver diversas possibilidades (seria o vazio criador do qual falavam os asiáticos por meio do taoísmo ou aquele da cosmovisão andina, que via na escuridão um poder criador?), o som inclassificável, pleno de referências a correntes diferentes de som pesado, é mais uma contribuição a essa atmosfera de "menos é mais" que se produz nesse intervalo entre gêneros, em que a aparente simplicidade da música revela sua riqueza nos detalhes. Dessa forma, a música do Huey engloba a hipnose do noise rock instrumental (que muito me lembrou a antiga banda Gore, da Holanda, minha primeira referência quando penso em música instrumental de peso), a chapação do chamado post metal, o clima soturno dos pais de todo o metal, ou seja, Black Sabbath, símbolo de todo stoner que se preze, além de uma dose de ruídos de origem experimental, lampejos de melodia e melancolia que garantem a beleza do disco, sem contar os fragmentos de metal extremo (representado pelo doom metal) e uma saborosa atmosfera de psicodelia, rock progressivo (nas mudanças infinitas de andamento e bases) e rock’n’roll, tudo isso transbordando de forma orgânica, soando como se fosse um disco ao vivo. 

Aliás, a banda mesmo informa que a gravação do material se deu dessa maneira espontânea, com o grupo tocando ao vivo no estúdio a fim de captar melhor esse espírito orgânico e evitando ao máximo a interferência de qualquer tipo de pós-produção. Evidentemente, isso deixou a música do Huey mais autêntica, lembrando em muito os discos clássicos do heavy/hard setentão, que eram gravados ao vivo. No caso do Huey, o fato de a banda contar com três guitarristas (sim, isso mesmo!), além de trazer um peso de mamute às canções, ainda facilita o jogo de sonoridades que o trio propicia sem precisar de algum tipo de gravação adicional. Esse jogo sonoro, aliás, é o que torna este material tão cativante do começo ao fim, sem deixar a empolgação do ouvinte cair, o que às vezes acaba acontecendo em discos puramente instrumentais. Afinal, uma das características mais claras da música popular (o termo aqui se opõe a erudito, evidentemente) é a presença da voz como elemento central, principalmente para veicular um possível sentido da canção. Assim, é impressionante como aqui os músicos do Huey tenham conseguido comunicar tantas percepções e sentimentos sem apelar em nenhum momento para a voz, o que nos leva novamente ao encontro desse minimalismo oriental de "Ma", em que se fala muito pouco, mas se comunica muito por meio de uma linguagem não verbal, aliás, fazendo uso quase zero de palavras, vide os títulos bastante objetivos das canções.

Por falar nas músicas em si, há riffs memoráveis, que certamente vão ficar registrados na história do som instrumental pesado, como o que abre o disco em "Inverno inverso", canções altamente hipnóticas e bem construídas, como "Pei", que me trouxe a memória o som de vanguarda de bandas como Prong (não sei se faz sentido, mas essa música tem um quê de "Rude awakening", um dos melhores discos do anos 90) e climas lisérgicos como em "Wine again" e "Mother’s prayer", indicadas para chapar no deserto (na falta de um deserto na sua área, pode ser em casa mesmo, pois o importante é viajar, hehehe!). "Adeus flor morta" é a faixa mais "rápida" do álbum, embora a mudança de andamento do meio para o final a torne altamente representativa do que é a banda, exatamente pela mescla entre partes mais agressivas, muito peso e psicodelia, tudo ao mesmo tempo, assim como a arrastada "Fogo nosso", um doom/blues de virar o sentido das coisas do avesso. "Mar estar" e "0+" também são arrasadoras e cumprem com maestria o papel de deixar o ouvinte extenuado e boquiaberto diante de tamanha avalanche sonora. 

Enfim, "Ma" é um disco surpreendente, cativante, chapante e que tem todos os elementos para agradar quem curte um som pesado e inteligente, que vai muito além das classificações fáceis e entediantes da indústria cultural. Parabéns aos músicos e à Black Hole por apostar em um som que foge ao convencional e expande um pouquinho mais as fronteiras do underground, permitindo que mais uma obra prima chegue até nós.

Tracklist:

1. Inverno inverso
2. Wine again
3. Pei
4. Mother’s prayer
5. Adeus flor morta
6. Mar estar
7. Fogo nosso
8. 0 +

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