Banda/Artista: Expurgo
Título: Deformed By Law
Lançamento: Black Hole Prods.
Ano: 2018
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 14/10/2018

Desde o seu surgimento, cujo marco foi sem dúvida o antológico e inigualável álbum “Scum” (1987), do Napalm Death, o grindcore tem em sua essência a velocidade desenfreada, embora precisa, vocais insanos, alternando entre os guturais graves e os gritos nervosos, além de uma estética extrema, marcada principalmente pela crítica feroz ao sistema e à beleza por meio das letras e da aparência violenta de sua arte. Mais de 30 anos após o seu nascimento, o estilo continua firme em sua pegada e, a despeito de muitas tendências passageiras que deram as caras e sumiram do underground, o grindcore segue impassível sua jornada rumo à destruição dos padrões de beleza da música. Com “Deformed by Law”, os mineiros do Expurgo vêm dar mais uma porrada na cara do bom gosto e mostrar que aquela semente plantada em 1987 continua parindo seus frutos envenenados e raivosos.

Como um dos pontos relevantes do disco, vale começar pela arte visual, com capa assinada por Pedro Felipe e encarte por Fernando Camacho. Com predominância do preto e branco (cinza, na verdade) a capa apresenta um humano deformado, com duas cabeças, uma dilacerada e outra já decomposta, reduzida à caveira. A cabeça que ainda pode ser identificada é de um homem ordinário, vestindo terno e gravata, talvez um advogado ou um executivo, porém, é indiscutível que a figura representa um cidadão bem ajustado às normas sociais. É desse mesmo cidadão (seria um “cidadão de bem”?) que sai a caveira, simbolizando a morte que a todos iguala e deforma, como sugere o título. A arte do encarte, seguindo o mesmo padrão acinzentado, traz imagens de caos e destruição provocadas pela presença humana na terra – guerras, necrotérios, usinas nucleares, carros incendiados e lixões a céu aberto – em evidente consonância com o profundo espírito crítico subjacente ao grindcore e que também ajudam a contar um pouco mais sobre o caráter furioso do disco. 

As letras, profundamente pessimistas, são o retrato fiel de um mundo marcado pela voracidade do capital e pela sede de poder, que levou a um cenário devastador em que o bom senso perde cada vez mais espaço para a ganância irracional. Os temas se coadunam perfeitamente ao apocalipse sonoro do Expurgo, como se pode perceber em músicas como “Silence” – praticamente uma introdução ao estilo de “Multinational corporations”, do primeiro álbum do Napalm Death – “Discurso do cadafalso” (a única em português), “Lungs decay” ou “Global suppuration”, por exemplo, as quais denunciam a falência do sistema de valores e projetos da sociedade ocidental, bem como os planos macabros que mantêm essa mesma lógica e nos aprisionam a essa eterna roda de consumo, como explicita claramente a letra de “Obsolescence”, última faixa do disco.

Musicalmente, a banda apresenta um verdadeiro bombardeio de peso e velocidade, com um grindcore mais “moderno” (entre aspas, porque o que tem mais de moderno aqui é a gravação; o resto é a pancadaria que sempre se fez no gênero mesmo, sem firulas), mais metalizado, cujas referências podem ser Nasum, Brutal Truth, Insect Warfare e, obviamente, muito Napalm Death. “Inhale radiation fumes”, por exemplo, é uma dessas faixas bem nessa linha Napalm, assim como a pesada e muito bem construída “Xenon pieces swallowed”, uma das mais chapantes e metalizadas deste álbum, ao passo que a curta e grossa “Morgue despair” traz o mais puro e tradicional grind, demolindo tudo a sua frente em 22 segundos. Aliás, apesar da clara influência death metal no peso das guitarras e nas vocalizações mais graves, os sons preservam toda a atmosfera catastrófica do grindcore: velocidade sobre-humana, vocais guturais vociferando protestos raivosos contra o sistema, alternados com os agudos desesperados do guitarrista, e músicas curtinhas, variando de 5 segundos (“Habemus canis”) aos “intermináveis” 2 minutos e 37 segundos de “Deploring conditions”, quase uma ópera diante da objetividade das outras faixas. 

Apesar dessa objetividade, isso não significa que o disco seja feito sem a devida atenção ao aspecto musical, muito pelo contrário. Somente uma audição detalhada, daquela que se faz com encarte na mão e ouvidos atentos, pode dar a real dimensão do trabalho criativo dos caras. Há uma variedade grande de riffs e passagens lentas, até bem trabalhadas e com um certo “groove”, que se revezam entre momentos de absoluto esporro e caos, além de uma sincronia e uma precisão absurda que mostram as qualidades técnicas do Expurgo. Sendo assim, “Deformed by law” é um material indispensável pra quem está disposto a incomodar seus vizinhos numa tarde chuvosa e, principalmente, trazer um pouco daquela crítica tempestuosa ao status quo que, infelizmente, uma parte da cena underground esqueceu lá no passado. Porém, felizmente para os coerentes, resta ainda uma banda como o Expurgo, que continuam regando e fazendo germinar aquela semente lançada em 1987.

Tracklist:

1. Silence
2. Victimized
3. Inhale radiation
4. Carnivorous eyes
5. Dead as fuck
6. Xenon pieces swallowed
7. Interlude
8. The taste of human toxicity
9. Discurso do cadafalso
10. Nasty gut feast
11. Classic utopia of a junkee ambience
12. All substances are toxic under the right conditions
13. Habemus cannis
14. Deviled mind
15. Morgue despair
16. Lungs decay
17. Devil variation
18. Sadistic executioner
19. Harmless scares
20. Agateophobia
21. Atmosphere of horror
22. Deploring connections
23. Global suppuration
24. Grey waste III – Malebolge
25. Walk among the dead
26. On the edge
27. Obsolescence

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