Banda/Artista: Basalt
Título: O Coração Negro Da Terra
Lançamento: Black Hole Prods.
Ano: 2017
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 07/07/2018

Quando peguei esse disco na mão pra resenhar, confesso que estava receoso, não pela qualidade da banda em si – afinal, sendo mais um lançamento da Black Hole em parceria com outros selos, certamente não seria uma banda qualquer – mas por ter lido que se tratava de uma banda com uma proposta bem mais contemporânea, digamos assim, com um som um tanto quanto inclassificável, em virtude de abranger um leque mais variado de influências. Então, antes de ouvir o material, me perguntei se eu teria os recursos necessários para fazer uma avaliação justa do material por não dominar todas as referências que o Basalt traz em sua obra de estreia. Entretanto, logo que comecei a audição do disquinho, senti que estava em casa e que me faltaria espaço para pontuar tudo que esse excelente álbum traz, posto que é um material de inegável riqueza estética, marcado pela originalidade em toda a sua concepção, abrangendo capa, letras, layout e, principalmente, a música...e que música! 

Apresentando uma massa sonora densa, pesada e agonizante, o Basalt oferece um amálgama perfeito de diversas tendências musicais barulhentas, combinando sludge, doom, grind, death e até black metal com elementos de noise rock e uma aura de decadência urbana que tornam este disco uma obra perfeita para os nossos dias de incerteza e angústia quanto ao futuro. Para compor esse quadro apocalíptico de desesperança e solidão humana, o trabalho primoroso já começa na sobriedade do material gráfico e lírico, todo composto em preto e branco, sem excessos, como se fosse uma resposta à sociedade dos excessos em que vivemos. Essa parcimônia pode ser notada na capa, que apresenta apenas uma pedra – certamente um basalto, espécie de rocha vulcânica cinzenta – emoldurada por um círculo, que nos ajuda a compreender o título do álbum (“O coração negro da terra”), como se nas entranhas da terra batesse um coração pétreo e obscuro. Da mesma forma, o Basalt também é bastante lacônico nas letras, diretas e objetivas, apesar da riqueza que se esconde por trás dessa simplicidade, como veremos a seguir.

A primeira faixa, “Párias”, após uma rápida introdução, entra com um peso absurdo produzido por um melancólico riff de guitarra e logo descamba para uma fúria tribal nos tambores, anunciando a chegada dos párias, ou seja, aqueles seres humanos invisíveis que rondam a noite e são tratados como escória pelos “cidadãos de bem”. A letra profunda e certeira leva a refletir a sobre quem são esses verdadeiros dejetos humanos e por que não se enquadram nesse esquema social, político, cultural e econômico furado que a sociedade nos oferece como “bônus” pelo nosso trabalho diário. Num momento de tensão absoluta, o instrumental acompanha o sentimento de revolta e traz blast beats bem dignos de um bom death metal, agressividade que certamente se justifica, considerando o clima de fúria que se instala nessa relação entre os excluídos e a sociedade doente que os exclui. Aliás, a letra da canção seguinte, “Terra morta”, aborda exatamente essa doença que se alastra sobre o planeta, descrevendo de forma abjeta o câncer que a tudo destrói, chamado ser humano, mas aqui tratado como a peste que produz a guerra e a fome. É triste, é impactante, mas é a dura realidade! Para criar um clima ainda mais caótico para esse quadro, a própria música incorpora essa sensação na linha original de bateria, cujo ritmo excêntrico chega a lembrar as antigas experiências hipnóticas de bandas como Godflesh, prosseguindo com uma angustiante marcha fúnebre quando aponta para a destruição ambiental promovida pela peste humana. Absolutamente foda!

Impossível não perceber que a terceira faixa praticamente aponta a razão para tais absurdos que somos obrigados a engolir em nome da vaidade humana! Em latim, “Vanitas” significa “futilidade, vaidade” – nada mais apropriado para mostrar em nome de que o ser humano gera tanta miséria, pois é para satisfazer sua vaidade que ele se lança a produzir incontáveis futilidades para preencher sua existência vazia – mas também alude a um tipo de obra de arte muito comum na Idade Média, geralmente usado para ornar caixões e lápides nos funerais. Nesse sentido, os “vanitas” simbolizariam, na verdade, a efemeridade da vida terrena, ressaltando sua insignificância por meio do uso de motivos como caveiras, frutas podres e outros elementos mórbidos que servissem para mostrar a fugacidade de nossa passagem pelo mundo. Então, é em aspectos como esse que o Basalt revela toda a profundidade e inteligência envolvidas neste trabalho, pois o duplo sentido que o título impõe é perfeitamente atingido pela música lúgubre e arrastada e pela letra, que descreve exatamente essa vaidade humana, cujos castelos (“impérios de vidro/ Erguidos por sangue”), leis e valores se tornam inúteis diante da morte (“Cinza e ruínas/ De volta ao pó/ De volta à terra”). 

Prosseguindo nessa toada de pluralidade de significados, a música “Aurora” conecta, com suas guitarras melancólicas que parecem chorar pelo nosso solitário e trágico destino, a escuridão das últimas horas da madrugada com o abismo sombrio que carregamos internamente, adormecidos no sono de nossas ilusões ou entorpecidos enquanto o mundo inteiro dorme. Aliás, a ambiguidade aqui é tamanha que, dependendo do ponto de vista pelo qual se observe, podemos pensar que essa “aurora” pode ser tanto vista como um despertar de consciência (“Somos tomados por completo de nossos sonhos/ fora do corpo, rasgamos o céu/Estrela da manhã/Nos abraça e recebe”), bem ao estilo de F. Nietzsche (que, não por acaso, tem um livro com esse título), como um momento de sofrimento pela percepção da profunda solidão que nos acompanha e nos torna frágeis (“despidos, desarmados, essência pura/do que somos/No abismo escuro/O abismo que somos”).  

“Longa noite”, por sua vez, começa diferente das anteriores, com mais velocidade, mostrando as influências extremas da banda, retornando logo na sequência para a grosseira lentidão do Basalt, mas dessa vez com uma textura bem calcada na escola apocalíptica que pariu nomes como Neurosis, Russian Circles ou Old Man Gloom, entre outros. Aqui, acordes mais dissonantes e viajantes dão um tom lisérgico, fazendo com que a longa noite pareça rastejar diante do ouvinte sorumbático, a quem resta lamentar pela perda de um passado de glória que se foi. Mais uma vez é interessante como a letra da música pode ser tanto aplicada a uma ideia universal de perda e finitude, quanto se presta a uma leitura bem contemporânea da situação do nosso país, com possíveis menções aos anos de chumbo da nossa história recente, bem como ao cenário pós-golpe. 

A próxima música, “Os homens ocos” mantém essa pegada sonora mais próxima do sludge/doom e, após uma introdução atmosférica, cresce em peso e agressividade, atingindo diretamente os personagens que estão presentes na letra (“Os homens ocos, cheios de nada/vozes secas, sem emoção”), numa descrição que serve bem ao homem destes tempos estranhos, em que parecemos cheios, plenos, excessivos (excesso de tecnologia, excesso de informação, excesso de consumo), mas somente nos deparamos com o vazio de uma existência desprovida de sentido. Assim, somos solitários na multidão, mudos em meio à profusão de signos, agindo como máquinas frias diante de futilidade do mundo hipermoderno. Assim, ocos, sem emoção e sem palavras que nos definam, simplesmente somos, sem encontrarmos predicados que nos completem. Por fim, o disco fecha com a excelente “Diante da dor dos outros”, que vem recheada de muito peso e um clima violento, totalmente apropriado para o tema em questão, qual seja, a apatia humana diante das tragédias que assolam a vida do outro. Afinal de contas, nós, ensimesmados nesse mundo ilógico e repetitivo, maquínico, preenchemos nossa passividade diária com a dor alheia, consumindo sangue na frente da tevê, sem no entanto sentirmos absolutamente nada em relação ao outro, que se torna apenas um “corpo frio que não me afeta”. De certa forma, essa última faixa vem a completar o conceito que perpassa todo o disco e que se desdobra nessa profunda crítica a esse ser humano displicente, que negligencia a si mesmo e se deixa transformar em mera massa de manobra nas mãos de interesses alheios à sua vontade e ao seu bem-estar, fechando a obra com a inteligência que é própria ao Basalt.

Aliás, por falar nisso, é bom que se diga que essa inteligência criativa não é por acaso e nem imaginação deste resenhista, mas sim fruto de um trabalho concebido por pessoas que têm know-how suficiente sobre a estética musical e lírica que pretendem desenvolver. Entre seus membros, encontramos gente como Marcelo Fonseca, que atua na cena há bastante tempo, com passagens em bandas hardcore como Constrito e O Cúmplice, Victor Miranda, também membro da banda Surra, Luiz Mazetto, autor de dois livros muito interessantes sobre a cena metal/punk alternativa e que também tocou na banda Meant to Suffer (cujo álbum “A step towards deception” é absolutamente fenomenal, mas pouco conhecido do grande público), além dos excelentes Pedro Alves e Flávio Scaglione. Com um time desses, recheado de influências das mais diversificadas, realmente fica difícil errar a mão e não apresentar um trabalho tão surpreendente. Sem mais delongas (afinal, contrariando as expectativas iniciais, difícil mesmo foi não me alongar no texto!), “O coração negro da terra” é um álbum profundo em sua aparente simplicidade, cuja audição certamente vai render excelentes reflexões aos ouvintes ou, no mínimo, uma ótima viagem aos apreciadores de um som original e que vai além das tradicionais fronteiras entre os gêneros de música pesada.

Tracklist:

1. Párias
2. Terra morta
3. Vanitas
4. Aurora
5. A longa noite (Eclipse sem fim)
6. Os homens ocos
7. Diante da dor dos outros

Compartilhar
Mais sobre:

Envie seu comentário sobre essa notícia!

Nome:
E-mail:
Texto:
=

Parceiros