Banda/Artista: Desalmado
Título: Save Us From Ourselves
Lançamento: Black Hole Productions
Ano: 2018
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 21/03/2018

Eu só vim a conhecer a banda Desalmado há cerca de dois anos atrás, em um show que fizeram na minha cidade e que me impressionou muito pela pancadaria que os caras proporcionaram, mas também por uma certa criatividade instrumental não tão comum no grindcore, manifesta especialmente nos detalhes. Afinal de contas, num primeiro momento, talvez o ouvinte pense estar diante de mais uma banda grindcore com tendência ao death metal, que é bem o que esses caras propõem. Contudo, uma audição mais cuidadosa (ou um bom show, como esse a que eu fui, quando eles tocaram com Homicide e Offal) certamente separará o Desalmado da grande massa de bandas genéricas que povoam a cena. Nada contra os genéricos, pois eu sei muito bem que ter uma banda underground não diz respeito somente a comandar uma nova revolução estética na sua arte, mas é lógico que quando se trata de uma banda que almeja ir além do protesto e da diversão, é preciso ter sua singularidade preservada, ou seja, aquele diferencial que justifique a maior exposição desejada pelo grupo. 

No caso do Desalmado, esse diferencial está garantido em diversos aspectos, dentre os quais eu destacaria o trabalho primoroso do batera Ricardo Nützmann (sei lá, talvez conte aqui o fato de eu ser baterista, mas é certo que o cara tem personalidade e precisão e é criativo no uso dos tambores) e as bases de guitarra de Estevam Romera, que fogem do grindcore convencional, acrescentando também uma pitada de modernidade, com elementos que poderiam ser ouvidos em uma banda de post-metal ou mathmetal/mathcore, tamanha é a originalidade desse trampo. Os puristas, entretanto, podem ficar tranquilos, pois essas marcas mais contemporâneas não estão “na cara”, mas entram como detalhes relevantes para compor a atmosfera de caos e agonia que o Desalmado oferece. Na verdade, baixo e vocal também comparecem com muito peso e agressividade no disco inteiro, criando uma barreira sonora consistente, marcada pela intensa velocidade e muita fúria (os vocais de Caio Augusttus não deixam dúvida a esse respeito), tudo isso unido pelos graves de Bruno Teixeira nas quatro cordas, que dão sustentação para a massa sonora do Desalmado. 

Além disso, todo o trabalho de composição apresenta uma complexidade incomum ao grind, aproximando a banda do death metal em muitos momentos, considerando as habilidades técnicas dos músicos, que certamente são da escola pós-Nasum, com muitas influências do Napalm Death em sua fase mais metal e Brutal Truth, porém, sempre com aqueles resquícios de hardcore, com uma pegada dos antigos Extreme Noise Terror e Disrupt, só pra citar alguns nomes relevantes que vêm à mente ao ouvir o disco, o que não significa que a banda copie nenhum deles. As músicas mais longas e complexas, como a faixa-título e “Bridges to a new dawn”, resumem muito do que estou tentando dizer aqui. A primeira, “Save us from ourselves”, traz uma introdução com uma percussão excelente, mostrando a disposição do grupo em experimentar com sonoridades menos convencionais, que se funde ao peso absurdamente lisérgico do riff principal da música, lento e brutal como um mastodonte, resvalando em seguida para a porrada veloz mais característica do estilo. Já a segunda é a faixa mais chapada do disco e traz um clima hipnótico em sua maior parte, apesar de intercalar também momentos de andamento médio com um breve trecho em blast beats, trazendo uma sonoridade rara que eu só lembro de ter visto em formações inteligentes como Meant To Suffer, banda infelizmente já extinta do interior paulista.

Além dessas duas faixas, há vários destaques no disco: “Blessed by money” é uma das minhas favoritas e também apresenta um arranjo instrumental mais intricado do que a média do gênero, alternando entre o d-beat, passagens mais rápidas, um refrão com andamento médio e fortíssimo (puta letra, aliás!) e uma finalização brutalmente pesada, angustiante, na qual o vocal traz urros desesperados, agonizantes, que se unem perfeitamente à faixa seguinte, a já citada “Bridges of a new dawn”. “It’s not your business” é uma das mais curtas do álbum, mas isso não impede que a composição seja extremamente dinâmica, assim como “Black blood”, outra faixa curta e grossa, mas muito bem trabalhada. Interessante perceber a escolha de uma abertura desenfreada para o material, com a alucinada e violenta “Privilege walls”, uma porrada objetiva que chama o ouvinte para a ação direta, convidando-o a contra-atacar as forças do poder opressor, e de uma faixa mais elaborada e cadenciada para finalizar o disco, a maciça “Exist and resist”. Essa música mostra que nem só de velocidade vive o grindcore, mas sim de muito protesto e consciência, acima de tudo. Por isso, é também um chamado à resistência, que, nas palavras da banda, é nossa única forma de garantir a existência. Essa “evolução” que ocorre ao longo do álbum, na verdade, parece dizer que, apesar da pancadaria, há muito mais camadas no som e na postura da banda que possa parecer à primeira vista, pois por trás de grossas paredes sonoras, há muita inteligência e coerência no Desalmado.

Aliás, a riqueza do grupo está também nas letras do Desalmado, as quais são um capítulo à parte nesta resenha, pois em tempos tão estranhos da nossa cena underground, é louvável que bandas como esta assuma uma postura mais libertária e progressista. Afinal de contas, nunca vivemos um momento tão marcado pelo conservadorismo e pelo vazio ideológico de uma cena que, historicamente, tem tudo para ser revolucionária, e não reacionária. Contudo, há uma grande confusão conceitual que parece embaralhar as mentes menos esclarecidas e que, aparentemente, não entenderam nada do que foi produzido em décadas de som extremo, o que tem levado muita gente boa a pensar que ser headbanger ou punk é apenas mandar um “foda-se” niilista a “tudo que está aí”, aceitando sem questionar as premissas de um mundo dominado pela ambição capitalista ou, no pior dos casos, descambando para o autoritarismo. Felizmente, porém, existem ainda bandas como o Desalmado, cujas coerência lírica vem para demonstrar que ainda temos esperança de que o underground recupere sua imagem (e ação, sem trocadilhos!) revolucionária de outrora. Então, nada melhor do que ouvir este disco em alto e bom som e com o encarte em mãos, pois aí toda essa obra faz muito mais sentido, não tenho dúvida!

No mais, parabéns ao selo Black Hole por mais essa escolha magistral e por estar na linha de frente do grindcore nacional quando se trata de lançamentos cheios de personalidade e criatividade, sem perder a essência barulhenta e subversiva de um gênero feito para incomodar as estruturas do poder. E claro, parabéns ao Desalmado pela condução engenhosa desse trabalho, que pode ostentar com dignidade o rótulo de “grindcore” e ainda assim figurar com destaque no rol do gênero pela sua abordagem inteligente e diferenciada.

Tracklist:

1. Privilege walls
2. It’s not your business
3. Save us from ourselves
4. Black blood
5. Blessed by money
6. Bridges to a new dawn
7. Corrosion
8. Binary collapse
9. Exist and resist

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