Banda/Artista: Nunca
Título: Kânon I
Lançamento: Bucho Discos, Resistência Underground Distro, Back On Tracks Records, Poeira Maldita
Ano: 2017
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 04/02/2018

Por mais de duas décadas, o black metal foi o subgênero underground que sempre fez questão de trilhar seu próprio caminho e tal autonomia trouxe diversas consequências para o estilo, algumas interessantes, outras nem tanto. Por vezes, essa independência resvalou para a mediocridade e o radicalismo niilista, beirando a teorias esdrúxulas e ideologias duvidosas, no caso das bandas de orientação nazifascista, ao satanismo infantil e, por outras, tangenciando a mais absoluta genialidade, com obras de profundo caráter existencial, compostas por músicos talentosos e criativos, além de permitir a gestação de tendências de inteligência e sensibilidade incomparáveis, dada a plasticidade estética do black metal, que, ainda que haja discordâncias, o permite se fundir a gêneros aparentemente inconciliáveis, como a música eletrônica, o folk, o rock alternativo, o punk, entre outros. Bem, esse embate de forças por vezes opostas, entretanto, tem sido benéfico para a própria cena, pois é essa disputa pelo título de “verdadeiro” black metal que acaba por produzir os rebentos mais inusitados do gênero. 

No campo ideológico, por exemplo, a ascensão de forças conservadoras deu impulso a uma reação que, a despeito das críticas dos puristas, cada vez mais vem mostrando a sua cara, especialmente nos tempos bicudos em que vivemos. Assim, diversos grupos têm surgido ao redor do globo dispostos a representar essa tendência mais contemporânea do black metal, chamada por alguns de “blackened crust”, que nada mais é do que a fusão entre o black metal e o hardcore, buscando aliar tudo que há de mais cru e agressivo de ambas as tendências. Apesar de a mistura parecer estranha e até indigesta para os mais conservadores e para aqueles que conheceram o black metal somente após a década de 1990, há na origem de ambos os estilos muito em comum. Basta pensar que um dos pioneiros do black metal, Quorton, afirmou várias vezes que seu primeiro álbum tinha muito mais influência do GBH do que do Venom, como muito pensavam. Aliás, a própria musicalidade do Venom, o pai do estilo, devia muito ao som punk. Do outro lado da história, não há como ouvir o debut do Crude SS sem pensar em Hellhammer, posto que há semelhanças sonoras inegáveis entre ambas as bandas. 

Nesse sentido, o NUNCA, banda da cidade de Itapira, São Paulo, abraça as duas tendências musicais com força e traz a público um lançamento magistral sob todos os ângulos. Em termos líricos, destaque para a maturidade do grupo, por trazer temas de forte caráter subjetivo e que beiram à mais pura poesia, gritando raivosamente sobre a solidão, o suicídio, a miséria e a depressão, entre outros, e apesar do clima de negatividade, o sopro de originalidade que eles lançam sobre a cena é algo extremamente positivo. Interessante que cada letra vem acompanhada de uma reflexão dos membros da banda sobre o tema em questão, algo que não se vê na cena underground com muita facilidade. Aliás, a única vez que eu tinha visto isso foi no disco da banda Iskra (CAN), lançado no Brasil pela Criminal Attack Records. Por isso, o cd, envelopado, vem com um livreto contendo todo esse material, além de ilustrações, fotos e demais elementos que deixam claro o posicionamento antifascista do Nunca.

Bem, toda essa parte lírica se encaixa perfeitamente à musica apresentada pela banda, que prescinde de uma classificação e precisa, situando-se entre o black metal, pelos vocais gritados e as guitarras rápidas, e o hardcore, pelas bases simples e que chamam qualquer um pra roda de pogo, embora traga também pinceladas de doom e death metal. Enfim, como qualquer música extrema muito boa, os sons do Nunca não se prestam a uma classificação tradicional, característica que certamente não é gratuita, considerando a necessidade da banda de quebrar paradigmas e superar aspectos obsoletos da nossa cena underground. Aliás, por falar em cena, aqui temos três músicos com ampla experiência no underground, com décadas de estrada, o que provavelmente explica a liberdade com que a banda transita entre os subgêneros da música extrema sem pretensão de agradar os mais ortodoxos. 

Apesar dessa liberdade estética, o cd inteiro é bem coerente e traz somente pedradas sonoras de objetividade inegável. São 8 faixas curtíssimas, sem firulas, que completam pouco mais de 15 minutos de audição intensa. “Yami no Shison”, cantada em japonês (uma homenagem ao HC daquele país, que está entre as influências do Nunca), é a mais curta de todas e resume a sensação de desespero que o material provoca, mas faixas como “Cilício” (porrada de arrepiar!) e “Black Bloc” mantêm a proximidade forte com o hardcore, ao passo que sons como “Homem-Deus”, “Corda” ou “Ruína” trazem muito da influência metálica dos membros da banda. O fato de o material ser curto e grosso não é nenhum demérito, já que não cansa o ouvinte e facilita o repeat da audição. Particularmente, ouvi o disco um sem-número de vezes sem parar e terminei com a sensação de que precisava de mais um álbum do Nunca. Aliás, a banda já tem material novo circulando e, em breve, pretendo resenhá-lo aqui também.

Pra finalizar, vale reafirmar que o disco é sensacional e vem preencher uma lacuna na cena nacional, que ainda tem poucos representantes nessa linha mais black/crust (o finado Subterror e a banda Mácula seriam mais dois membros desse seleto grupo, ao qual veio se juntar a banda Necrogosto, de SP). Sem sombra de dúvida, é um material indispensável para aqueles ouvintes de mente mais arejada e que sabem o quanto black metal e hardcore têm em comum. Então, que venham mais bandas como o Nunca para acabar com a mesmice e espantar o fantasma do conservadorismo que, este sim, nada tem a ver com o verdadeiro espírito underground.

Tracklist:

1. Homem-Deus

2. Acalanto

3. Black Bloc

4. Yami no Shison

5. Irreversível

6. Ruína

7. Cilício

8. Corda

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