Banda/Artista: Clamus
Título: [de]construct
Lançamento: Black Hole Prods., Violent Records, Rising Records
Ano: 2017
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 04/11/2017

Nessas andanças pelo underground, já tinha ouvido falar bastante do nome Clamus, banda cearense que está na ativa desde 1999 – o que explica a sua recorrência em zines, páginas da internet e comentários de amigos – mas ainda não tinha tido a oportunidade de escutar a música deles. Porém, depois de receber o novo material deles – o excelente “[de]construct”, tive aquela sensação de “por que não os ouvi antes?”. Lógico que todos nós sabemos que é tarefa impossível conhecer todos os lançamentos que rolam na cena, mas confesso que sempre tenho um sentimento de arrependimento quando deixo passar batido uma banda tão cheia de qualidades como o Clamus. Afinal, os caras mostram um peculiar domínio da técnica musical e de composição, trazendo oito sons muito bem arranjados, sem, contudo, perder a ferocidade que garante a alegria dos obcecados por metal extremo.

Bem, além das qualidades dos próprios músicos, cabe destacar, antes de tudo, alguns aspectos que certamente agregam valor à obra em si: trabalho artístico primoroso do grande Alcides Burn na capa e no encarte, produção esmerada de Taumaturgo Moura, que fez o material soar tão profissional quanto qualquer trampo gringo, participação de Daniel Boyadjian, ilustre membro da lenda cearense Obskure, nos solos de guitarra, além da parceria de três selos de ilibada reputação no cenário underground, Black Hole, Rising e Violent Records, os quais não manchariam sua história se a banda não tivesse conquistado o devido respeito em suas quase duas décadas de história. E esse respeito sem dúvida veio no bojo da sonzeira que o Clamus faz do começo ao fim do disquinho, pois de nada adiantariam tais qualidades externas se os caras não despejassem algumas toneladas de música infernal nos nossos ouvidos, certo?

Então, com uma mescla bem dosada de elementos de vários subgêneros do metal extremo, os caras acertam a mão logo na entrada com “Revolta”, que traz uma rifferama aceleradíssima e precisa e um vocal com a potência suficiente para fazer valer o título da faixa. Aqui, a banda oferece também uma peculiaridade, que é o fato de cantar em mais de uma língua, mesclando português, inglês e francês simultaneamente. Ou seja, em algumas músicas, como na pesadaça “Colônia”, os três idiomas são usados ao mesmo tempo, o que confere uma dinâmica particular à banda, transcendendo o mero aspecto semântico das letras e apontando para reflexões um pouco mais profundas acerca da linguagem. Não sei exatamente as motivações do Clamus para essa opção, mas seja qual for o seu fundamento, é evidente que tal dispositivo trilíngue suscita um debate que vai além do tradicional “cantar em outro idioma para levar nossa mensagem mais longe”. 

Após uma cuidadosa e solitária audição, músicas como “Souterrain”, “Nitro blast” (paulada nervosa impressionante, talvez a mais “objetiva” das faixas do CD), “Rien” ou “Libertas” revelam uma riqueza instrumental e lírica incomum e digna de nota, pois embora eu admire a simplicidade e a rudeza dos sons extremos, também é impossível desprezar um trabalho tão bem construído em suas minúcias. Por isso, é importante destacar o nível avançado das composições do Clamus, cuja complexidade beira o progressivo em certos momentos. Na verdade, a própria estrutura das músicas passa longe do usual esquema introdução-estrofe-refrão-estrofe-refrão-solo-refrão-desfecho que é comum na música popular. No caso do Clamus, todas as músicas são marcadas por andamentos diversos, mudanças de tempo e riffs, quebras de paradigmas que fazem cada faixa soar como se contasse uma história, a qual precisa ser acompanhada de perto para que não se perca o fio da meada. 

Por isso, o álbum merece ser ouvido com calma, faixa a faixa, de preferência com o encarte em mãos, demandando uma atenção maior do ouvinte caso este queira realmente entender e curtir a proposta da banda, que, mesmo sendo classificada como algo entre o death e o thrash metal, incorpora influências mais amplas de outras tendências do som pesado. Isso, no entanto, não quer dizer que a música aqui apresentada não seja brutal! Ao escutar “Inconstancy”, por exemplo, o lado death metal fica evidenciado pelos blast beats e pela violência dos vocais alternados de Lucas Gurgel e Felipe Ferreira. Aliás, essa música tem uma letra muito boa também, que fala sobre a mutabilidade de todas as coisas, ideia que parece dar a tônica do álbum inteiro, considerando a frase do filósofo Heráclito escolhida pela banda para a página central do encarte (“Nothing endures but change”).

Em outras palavras, não é um disco para ouvir durante uma cervejada com os amigos, com aqueles refrãos pegajosos feitos pra galera cantar junto, nem aquele som old school eivado de nostalgia, mas um metal mais moderno, feito acima de tudo com muita inteligência e dedicação. O termo “moderno” aqui não deve ser entendido como crítica, nem significa que a banda soe como um metalcore ou alguma dessas tendências atuais, longe disso! Quero dizer mesmo é que a banda deu um passo à frente ao valorizar o aspecto mais complexo das composições, escolhendo trilhar um caminho próprio em vez de copiar as fórmulas tradicionais do som extremo e inclusive fazendo jus à citação de Heráclito mencionada acima. Afinal, talvez fosse uma grande incoerência destacar o movimento constante do universo e deixar sua música inerte e largada às moscas da falta de criatividade. 

Enfim, tenho certeza de que o tópico daria uma discussão infindável e tem vários pontos de vista diferentes – inclusive eu mesmo vejo diversas qualidades em propostas mais constantes, digamos assim – mas o mais importante mesmo é que a banda Clamus chega ao seu terceiro disco com um som maduro, com uma pegada absurda e conseguindo unir talento e pancadaria de forma bem dosada. É um disco inteligente, bem construído e que, mesmo que isso pareça um contrassenso, deve agradar aos headbangers mais tradicionais, considerando sua violência sonora e sua inegável inspiração nas melhores raízes do gênero, mas também aos menos ortodoxos, exatamente por oferecer um trabalho bem mais elaborado do que a média, tanto na parte instrumental quanto lírica. Dessa forma, o Clamus chega ao seu terceiro álbum de forma madura e certamente pronto para o futuro. Só espero que esse futuro venha em breve e que eu não os perca de vista de novo! Belo trabalho!

Tracklist:

1. Revolta
2. Inconstancy
3. Souterrain
4. Colônia
5. Nitroblast
6. Rien
7. Jukai
8. Libertas

Compartilhar

Envie seu comentário sobre essa notícia!

Nome:
E-mail:
Texto:
=

Parceiros