Banda/Artista: Offal
Título: Horrorfiend
Lançamento: Razorback Records
Ano: 2015
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 12/01/2017

O Offal é daquelas bandas tão foda que a gente nem sabe muito bem por onde começar a resenha, tantos são os aspectos a serem explorados em cada lançamento dos caras, pois o material invariavelmente vem munido de uma riqueza de informações que só poderia ter sido gerada por um time experiente, com vasto “know-how” do metal da morte e com muito sangue nos olhos! E é exatamente o que temos aqui em “Horrorfiend”: aquela certeza, desde o primeiro acorde, de que vamos ser tomados de assalto por um death metal de qualidade indiscutível, contaminado até os ossos pela podreira sonora e lírica herdada dos mestres absolutos do metal extremo. No caso do Offal, os mestres são nossos velhos conhecidos: Autopsy, em primeiríssimo lugar, seguido de perto por Master, Impetigo, bem como a escola sueca (Nihilist, Nirvana 2002, Exhumed etc.), entre outras velharias que orgulham a cena underground. 

Além dessas influências musicais, em “Horrorfiend”, o Offal também não deixa de lado sua inspiração nos velhos filmes do cinema “trash”, o que certamente contribui para poluir o ar com um forte cheiro de carniça e sangue coagulado e fazer o som parecer uma trilha sonora de uma película de horror digna de um Baiestorf. Aliás, o cinema desempenha um papel tão intenso no imaginário do Offal que a impressão que se tem é que o álbum é conceitual, embora não o seja. Porém, a forma como as músicas se desenvolvem, as mudanças de andamento, os climas pesadíssimos das partes mais arrastadas, além das vinhetas que entremeiam os sons (as quais, não à toa, vêm de clássicos do cinema de horror/gore, incluindo o próprio Baiestorf, além de Lamberto Bava, Dario Argento, entre outros), tudo parece obrigar o ouvinte a experimentar este disco como uma obra completa, como se suas partes (ou seja, suas faixas) não pudessem ser degustadas separadamente, sob pena de não terem o mesmo impacto. Em suma: é um disco pra ser ouvido ininterruptamente, do começo ao fim, sem perder uma só nota! 

Bem, o time que compôs o disco não poderia ser melhor: André Luiz, um verdadeiro mestre de cerimônias do terror, é um vocalista inigualável, com um timbre gutural marcante e – inacreditavelmente – inteligível (com o encarte na mão, é claro!). Em “Horrorfiend”, ele está em sua melhor forma, imprimindo muita personalidade ao som do Offal e urrando com profunda autenticidade e emoção, o que nos mostra um vocalista maduro e consciente da sua função, que sabe que não basta gritar de qualquer jeito para criar uma atmosfera genuinamente death metal. O baixista João Ongaro detona no instrumento e confere mais peso ao som, combinando seus graves com o excelente batera Igor Thomaz, jovem revelação da música extrema, que veio somar muito ao grupo e vem crescendo muito como músico. Por fim, o guitarrista Tersis Zonato, que também auxilia de forma precisa nos “backing vocals”, é um músico acima da média, sem dúvida. Seus riffs são originais, macabros e muito bem arquitetados e seus solos são tão expressivos que parecem falar com o ouvinte! Seja para trazer um pouco mais de melodia, melancolia ou suspense, cada detalhe de guitarra aqui tem uma função, contribuindo diretamente para compor este universo povoado por cadáveres em decomposição, pus e tripas expostas a céu aberto. Enfim, toda essa riqueza mostra que estamos diante de uma banda de gente grande, em que tudo é muito bem pensado, sem espaço para amadorismo ou escolhas aleatórias.

Sobre as faixas do álbum, eis aí um item complicado de analisar, pois não há altos e baixos em “Horrorfiend”. Por ser minuciosamente composto, percebe-se que o material foi muito bem lapidado e nivelado por cima, não havendo momentos menos empolgantes no disco. “Repulsive creepy crawlers”, a faixa de abertura, é arrasadora e suas variações de tempo dão a cara do álbum logo no começo, assim como a estupidamente pesada “Splatstick sleazin’ gutfeast”, cujo andamento médio deve abrir uma roda nervosa ao vivo, bem como “Beyond madness...”, na qual a alternância de vocais entre André e Tersis é marcante demais. Em “Heinous orgy...”, o riff com cara de doom/funeral metal é de arrepiar os mortos e chegou a me lembrar os áureos tempos das demo-tapes do Paradise Lost, tão absurdo é o peso dessa faixa!  

Para compensar a lentidão colossal da anterior, “Flesh-grinding thrills...” entra com velocidade, despejando fúria nos alto-falantes e esquartejando cadáveres em um magnífico tributo ao imortal Impetigo. Excelente homenagem, diga-se! “The hideous return of Dr. Death” mantém o pique acelerado e o clima ensandecido do Offal (aliás, quem já teve a oportunidade de vê-los ao vivo sabe muito bem o quanto de insanidade está presente em suas apresentações, principalmente pela figura carismática e performática de André Luiz, que dá um show à parte!), numa das faixas mais porrada do disco. A próxima música, “By the head of the conven’s will” traz um diálogo muito interessante entre baixo e guitarra logo no início, antes de descambar para a pancadaria generalizada, com os vocais mantendo a já mencionada alternância entre o gutural de André e os ríspidos agudos de Tersis. A quebra de ritmo dessa faixa é coisa de outro mundo também, com um interlúdio arrastado e cheio de melodia, em mais uma clara demonstração de maestria técnica do guitarrista, um dos melhores do gênero, sem dúvida! “Radioactive distillation...”, a oitava música, é muito bem trabalhada, apresentando todos os elementos típicos da banda, o que mostra coerência na composição, e vem seguida da derradeira “Behind the convent walls”, um longo hino à luxúria habitual dos conventos marcado pelo peso descomunal e pelas variações instrumentais de excelência do Offal, fechando esta obra de forma magnífica.

Enfim, eu não queria me estender demais nesta análise, mas, como falei inicialmente, são tantos pormenores, que é muito difícil não explorar esse complexo universo estético do Offal, se pretende realmente compreender a riqueza desta que é uma das melhores bandas de metal extremo em atividade. Assim como seus outros lançamentos, “Horrorfiend” vem para provar que se pode ser criativo e marcante mesmo numa cena superlotada e mantendo intactas as raízes do gênero, coisa que só mesmo um time de tamanha competência pode fazer sem errar a mão. Nota 10, fácil!

Tracklist:

1. Repulsive Creepy Crawlers

2. Splatstick Sleazin’ Gutfeast

3. Beyond Madness...It’s Macabre!

4. Heinous Orgy of Rabid Consuming (Dawn of Sadus)

5. Flesh-Grinding Thrills and Bone-Crushing Chills

6. The Hideous Return of Dr. Death

7. By the Head of ther Coven’s Will

8. Radioactive Distillation and Undead Mutilation

9. Behind the Convent Walls (Conjuration Spells)

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