Banda/Artista: Headhunter DC
Título: In Unholy Mourning
Lançamento: Mutilation Records
Ano: 2012
Contatos: puredeathcult@hotmail.com
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 16/12/2016

Falar do Headhunter DC não é tarefa simples, por um lado, porque afinal de contas tantos anos de dedicação ao underground pesam muito na hora de resenhar qualquer um de seus lançamentos. Por outro, a certeza de que vamos encontrar uma muralha sonora fiel aos princípios da velha escola do death metal também facilita as coisas para quem acompanha essa cena de perto e sabe que só pode vir coisa boa de uma banda tão experiente. Felizmente, esse último aspecto conta e muito aqui, provando que todos esses anos de persistência valeram muito a pena. Afinal, do começo ao fim do disco, temos uma manifestação explícita do caos que a brutalidade musical pode criar em nome da destruição de tudo que é sagrado pra nossa sociedade cristã e retrógrada.

Logo na introdução, “Rotten death prayer”, uma verdadeira missa profana e macabra, já é possível perceber que não estamos diante de uma banda amadora, mas sim de quem sabe como criar o clima certo para os ouvintes, que não têm como não mergulhar de corpo e mente na jornada para o inferno chamada “...In unholy mourning”. Assim, quando “Dawn of heresy” inicia, os espíritos já estão preparados pra receber uma pesada avalanche de riffs e blast beats. E é bem isso que se segue, com as guitarras grosseiras de Paulo Lisboa e George Lessa, o baixo mastodôntico de Zulbert Buery, os urros enfurecidos de Sérgio Baloff, um dos melhores vocalistas do gênero, e a batera veloz e precisa de Daniel Brandão. Essa primeira faixa é tão certeira que, se o disco tivesse apenas essa música, os fãs de death metal já poderiam se dar por satisfeitos, pois o som agrega sem dificuldade alguma tudo aquilo que o estilo precisa, ou seja, energia, peso e agressividade. Contudo, impiedoso, o massacre continua com “Cursed be thou”, sonzeira bem trabalhada, repleta de oscilações entre a pancadaria generalizada, os solos profundos e melódicos (sim, os caras têm a manha de colocar melodia em meio a toda essa porrada!) e momentos mais arrastados, que ainda trazem coros muito bem colocados, no melhor estilo Celtic Frost. Enfim, coisa de quem manja muito do assunto e sabe de que fonte beber pra produzir o efeito desejado nos seus ouvintes, certo? 

Tanto é verdade que, ao fim dessa última faixa, “Deny the light” invade subitamente os alto-falantes e despeja uma avalanche de socos direto na rosca do ouvido, trazendo um dos sons mais foda deste disco, tanto pela sua velocidade quanto pelos riffs excelentes, que parecem imprimir ainda mais rapidez ao som. Impossível não entortar o pescoço! Um breve segundo pra respirar e logo vem “A dream of blasphemy”, uma dessas faixas que mostram a diferença que faz ter toda essa experiência no submundo da música maldita, pois nota-se que há um trabalho muito bem pensado, calculado, por trás da massa sonora absurdamente violenta que o Headhunter despeja. Em outras palavras, é death metal visceral e inteligente brotando diretamente do cd player, com uma qualidade de gravação bem atual. Aliás, essa é uma das cosias mais impressionantes nessa relação entre qualidade e experiência, pois certamente um disco com uma produção assim, se feito por uma banda sem muito know-how, correria o risco de soar moderno demais e, consequentemente, insosso e sem alma, como soam muitas gravações contemporâneas, infelizmente. Evidentemente, esse não é o caso do Headhunter DC, que não à toa está prestes a comemorar 30 anos de carreira em 2017, sem parar!

E é sem parar que vêm as faixas “Hail the metal of death” e “Into the nightmare”, mais duas bordoadas insanas na cara! A primeira é um verdadeiro hino ao death metal, que, como não podia deixar de ser, é um som veloz, com altos riffs, a qual traz uma ideia original, que eu particularmente achei uma excelente sacada da banda. Afinal, os caras bolaram um coro no trecho em português (“Salve...metal da morte!!!”) gravado por diversas pessoas ligadas à cena underground, como membros das bandas Malefactor, Poisonous, Insaintification, entre outras, bem como de zines e distros – a maior parte da Bahia, terra natal da banda. Ficou muito bom mesmo, não só pelo som em si, mas pelo significado que tal união de vozes deu à música. A próxima faixa é um tributo muito bem escolhido a uma das bandas mais antigas da Bahia, o Thrash Massacre, da qual Sérgio Baloff era integrante e que foi uma das responsáveis pelo surgimento do metal extremo no Nordeste brasileiro. Certamente por ser uma faixa composta há tanto tempo (1987), ela tem o sabor mais “old school” de todo o disco, com uma pegada incrível que mostra que o som feito no Brasil não deve nada a bandas como Master, Sadus ou Possessed, só pra citar os nomes que me vieram à mente primeiro ao ouvir “Into the nightmare”.

“Unexorcised” presta homenagem ao filme “Exorcista” e, com a habitual violência, expõe toda a fúria do Headhunter contra a igreja e seus símbolos, os quais não são capazes de extirpar o mal da humanidade e perdem a batalha contra o demônio, que passa a assombrar seu pretenso exorcista e todos os dogmas cristãos, vomitando nos padres e zombando da fé cega. Logo após, entra a faixa-título, mais um som cadenciado, brutal, com uma atmosfera sinistra que dá o tom malévolo que o Headhunter ostenta desde os seus primórdios, bem como “Lightless”, outra faixa arrastada e de clima macabro. Aqui, death metal é sinônimo de maldade e profanação, não apenas um som pesado com vocais monstruosos! Ao final do cd, somos brindados com mais uma faixa, uma versão absurdamente pancada de “Summoned to hell”, da lendária banda peruana Mortem, cultuadíssima mundo afora exatamente pelo mesmo motivo que fez o Headhunter obter respeito internacional, ou seja, a fidelidade ao mais obscuro metal da morte. Como ambas as bandas têm suas raízes fincadas na origem do estilo, a faixa, mesmo sendo de um álbum de 1998 (“The devil speaks in tongues”), tem a pegada de um death metal tradicional, daqueles que poderiam muito bem figurar em um disco da década de 1980 sem soar fora de contexto. 

Além disso tudo, ainda há outros pontos a destacar, como a arte da capa e o “layout”, as letras, entre outros aspectos que compõem uma banda com tamanha tradição no underground, mas estes eu deixo para os ouvintes curtirem em casa, durante a execução dessa pérola do death metal, que merece ser degustada aos poucos, com a atenção que requerem as obras primas para serem compreendidas. Afinal, não temos em “...In unholy mourning” apenas mais um disco de death metal, mas um verdadeiro manifesto em prol do underground extremo. Ao fim, o desafio que parecia ser complexo demais – resenhar um disco excepcional de uma banda tradicional – foi superado exatamente pelas qualidades que o Headhunter DC conseguiu agregar ao longo desses quase 30 anos de história! Por isso tudo, salve o metal da morte!

Tracklist:

1. Rotten death prayer
2. Dawn of heresy
3. Cursed be thou
4. Deny the light
5. A dream of blasphemy
6. Hail the metal of death!
7. Into the nightmare
8. Unexorcised (Haunting your exorcist)
9. In unholy mourning
10. Lightless

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