Banda/Artista: Whipstriker
Título: Only Filth Will Prevail
Lançamento: Morbid Tales Records
Ano: 2016
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 18/09/2016

Formado em 2008, no Rio de Janeiro, o Whipstriker é uma das bandas brasileiras mais bem-sucedidas nos últimos anos, tanto em termos de shows (inclusive fora do país), quanto de lançamentos, contando com mais de 25 registros entre o ano de fundação e 2016. Muita gente, então, fica se perguntando qual a fórmula para ostentar um currículo tão invejável, principalmente por se tratar de uma banda fiel às suas raízes profundamente fincadas no underground. Este novo disco, “Only filth will prevail”, terceiro “full-length” da banda, talvez me ajude a entender que forças movem o Whipstriker rumo ao topo do submundo metalpunk, pois com tamanha pauleira, é pra lá que a banda caminha, sem dúvida!

Em primeiro lugar, basta observar a arte do petardo para perceber que a essência estética do underground está presente em todos os cantos do disco. Concebida no tradicional preto-e-branco que acompanha a cena desde os primórdios, a capa – assinada por nada mais, nada menos que o mestre Mark Riddick – retrata um cenário pós-apocalíptico em que somente restarão sobre a face da terra arrasada os abjetos, os excluídos e toda sorte de renegados que estão à margem da sociedade dos “cidadãos de bem”. Os traços do artista são perfeitos e o desenho inteiro é cheio de detalhes interessantes, que tornam a capa um atrativo à parte (aliás, uma camiseta com esse desenho ficaria animal!). Esses detalhes são ampliados no decorrer do encarte, ilustrando as letras do disco.

Por falar em letras, está aí mais um elemento que, por si só, já prende a atenção dos maníacos que curtem dissecar o material como um todo, em vez de se ater apenas à música. Não que estas sejam complexas demais ou filosóficas, longe disso! Elas são simples, no geral, e lançam mão de uma linguagem básica, que, aliás, é do conhecimento de boa parte do público fã do gênero. Porém, o cara que tem algo a dizer – no caso, Victor Vasconcellos, mentor do Whipstriker – consegue fazê-lo exatamente com essa simplicidade, deixando nas entrelinhas pormenores que apontam para um sentido muito mais amplo e realista do que pode parecer inicialmente. Afinal, ao ver tantos “Satans”, “hells” e “deaths”, pode-se ser induzido ao erro de julgar o Whipstriker como mais uma banda satânica escrevendo sobre temas que não têm nada a ver com a realidade. Contudo, basta ouvir “Flag of cruelty” – que retrata a violência urbana, especialmente a carioca, mas que pode ser aplicada a qualquer periferia deste país – para se perceber altas doses de realismo no aspecto lírico, bem como “Flames of hate” ou “Satan’slave”, nas quais as figuras “do mal” são usadas como metáfora para uma realidade cruel e sanguinária, abordada com pessimismo e desprezo profundos.

Além disso tudo, o elemento mais importante a compor a “fórmula do sucesso” do Whipstriker – sua música, obviamente – é indiscutivelmente empolgante e poderosa, numa proporção tamanha que faria até os defuntos da terra devastada baterem cabeça! Da mesma forma que as letras, o som do Whipstriker não tem mistério, não! Cada som é uma porrada direta no estômago, sem firulas, sem exibicionismos técnicos, sem aquela busca doida por originalidade que, por vezes, acaba comprometendo a função catártica inerente ao som pesado. Aqui temos apenas o que lhe é fundamental: riffs cortantes e absurdamente selvagens, baixo pesadão e grosso, bateria hipnótica, marcada pela objetividade, além de vocais guturais – embora inteligíveis – que seguem a velha escola Lemmy/Cronos, ou seja, aquela voz rouca e grave que não dá muito margem a arroubos operísticos ou melodias em excesso. A coisa aqui é crua e violenta! Aliás, se compararmos esse disco com os dois anteriores, veremos sim uma evolução, mas em direção a uma maior agressividade, e não ao contrário. Se em “Crude Rock’n’Roll” (2010), o som já demonstrava essa pegada, mas ainda sem tamanho peso, e no segundo – o excelente “Troopers of Mayhem” (2013) – as guitarras soaram mais sujas, neste disco a combinação de muito peso e muita sujeira faz de “Only the filth will prevail” o melhor lançamento da banda até aqui. 

E essa combinação é coerentemente mantida no disco inteiro. Assim, quando entra “Waiting for the doomsday”, sente-se o cheiro da atmosfera underground de imediato, seguindo-se em pérolas como “Nuclear metal blood”, cuja rifferama é de quebrar o pescoço, ou “Electric bloodbath”, que tem um jeitão bem Motörhead e guitarras empolgantes. Aliás, Victor Vasconcellos realmente manja dos riffs, pois todas as músicas têm bases muito marcantes e simples, embora “Flag of cruelty” tenha nascido já com cara de hino metalpunk, mostrando que é com simplicidade que se constroem os melhores riffs. O mesmo se repete em “Armageddon delight”, outra paulada veloz com cara de hino, que pode ser colocada na galeria das sonzeiras inesquecíveis sem precisar de firula alguma. Mesmo quando o assunto é som arrastado, a banda deixa sua indelével marca em “Flames of hate”, que traz à mente bandas como Venom, Bulldozer e Warfare lá dos meados da década de 1980 direto para 2016.

No fim de tudo, pode-se dizer que a fórmula da banda é mesmo a mais básica possível e, talvez por isso mesmo, seja uma das maneiras mais bem-sucedidas de se fazer som underground e deixar sua marca em meio à miríade de lançamentos da cena. Bastam uns bons riffs, um vocal ensandecido, estruturas simples, umas boas letras com um refrão memorável e muita, mas muita honestidade e dedicação autêntica ao que se faz e está pronto mais um combo de destruição auditiva em massa, com garantia de permanência no panteão dos discos clássicos. Mas não se engane, por que não é de sucesso comercial que estamos falando: tudo isso aqui é feito pelo Whipstriker sem perder a essência underground, porque, afinal de contas, é pra isso que estamos aqui, não é mesmo? Certamente, a cena underground agradece – e vai agradecer ainda por muito tempo – por mais essa porrada anticomercial de qualidade indiscutível!

Tracklist:

1.  Waiting for the doomsday
2.  Satan’slave
3.  Nuclear metal blood
4.  Electric bloodbath
5.  Flames of hate
6.  Flag of cruelty
7.  Armless dance
8.  Death vigilance
9.  Armageddon delight

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