Banda/Artista: Desalmado - Homicide
Título: In Grind We Trust
Lançamento: Black Hole Productions
Ano: 2016
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 02/08/2016

Cada louco tem suas manias e, como qualquer um que se disponha a ficar pirando em um som para escrever resenhas é meio louco, a regra aqui vale também. Eu, particularmente, tenho a mania de ouvir o som por horas, dias, às vezes, semanas a fio, para deixar o material sonoro ir maturando no cérebro e no corpo, que vai absorvendo e digerindo a massa pesada para transformá-la em uma obra de arte palatável ou em mais um emético álbum sem personalidade condenado a mofar na vala do ostracismo. Neste caso, tive ainda a oportunidade de assistir ao show de lançamento do “split” do Homicide e Desalmado, o que me deu ainda mais elementos para escrever o texto que ora se desenrola diante dos seus olhos. Como é muito raro ter esse privilégio, gostaria, sem mais delongas, de compartilhar essa experiência aqui.

Tal e qual a primeira impressão que tive ao ouvir o disco, no show, fui imediatamente tomado de assalto pela brutalidade do grindcore apresentado por ambas as bandas. No cd, a barulheira começa com o Desalmado, banda paulista formada em 2004 e que apresenta 6 faixas na sua parte do “split”, as quais mostram um trabalho de muita personalidade dentro de um estilo que nem sempre prima pela originalidade. Afinal, no grindcore, o lance é a porrada na cara, é o protesto raivoso em forma de som, é a fúria avassaladora de todas as indignações combinadas que contam, ao fim e ao cabo, e não maestria técnica, certo? Bem, no caso do Desalmado, esse paradigma não se confirma, porque o que mais impressiona aqui é exatamente essa capacidade de surpreender no aspecto musical, trazendo a criatividade para o primeiro plano, mesmo sem perder a típica violência sonora e lírica do gênero. 

A abertura do disco já dá mostras claras do que vem pela frente: um libelo contra o genocídio provocado pela polícia nas periferias do país, cujo comportamento reflete o espírito fascista e conservador que permeia a sociedade brasileira. As vítimas desse massacre são basicamente jovens pobres e negros, quase sempre executados de forma injusta e violenta por meio do braço armado do Estado, e o Desalmado chega com os dois pés em “A ordem dos porcos”, atuando como se fosse a voz dessa parcela da população à margem dos interesses da elite suja que comanda o globo por meio do controle econômico e social. Logo na sequência, entra a grosseira “O pavor do estado”, cuja letra é uma continuação da ideia apresentada na introdução. Musicalmente, o troço é nervoso: uma bateria potente e acelerada, vocais nervosos, cordas pesadíssimas montadas em cima de uma estrutura que, nos detalhes, se mostra original e muito convincente, mesmo pra quem curte grindcore da velha escola. Afinal, em termos de produção e gravação, pode-se dizer que este material é bastante moderno em relação à primeira geração do grindcore, embora as influências dessa geração estejam claramente presentes na estética do Desalmado. 

Aliás, como o “split” é muito bem produzido, um dos motivos pra eu ter ido assistir ao show de lançamento foi exatamente pra conferir como ficaria essa paulada ao vivo, porque, como todo mundo sabe, hoje em dia há muita tecnologia disponível pra maquiar a banda mais medíocre e transformá-la em uma nova sensação musical. E o mais foda é que os caras não deixaram a desejar em nada no palco! Lembro muito bem de “Hidra”, que inicia com uma levada lenta e logo ganha ares caóticos numa paulada desenfreada até 1 e meio de música, para voltar ao peso mastodôntico do início. Ao vivo, essa combinação é devastadora! Outro aspecto que me chamou a atenção no palco foi a bateria de Ricardo Nutzmann, que insere alguns contratempos muito bem encaixados e viradas bem elaboradas, adicionando precisão e originalidade ao som do Desalmado, além de muita velocidade, evidentemente. “Em ruínas”, faixa que vem na sequência no cd, é um exemplo certeiro dessas características, trazendo, em cerca de 2 minutos e meio, todos os elementos que marcam o som da banda. 

As duas últimas músicas, “Eternidade do medo” e “Diáspora”, mantém o nível de pancadaria absoluta, com riffs marcantes e afiados e mais uma letra extremamente realista, que poderia muito bem se adequar à tragédia dos imigrantes na Europa. A propósito, as letras são inteligentes e, apesar da simplicidade, têm sua riqueza no fato de poderem ser aplicadas a mais de um contexto, como se a intenção aqui fosse mostrar a universalidade da miséria humana no mundo globalizado e não falar de problemas pontuais desse ou daquele lugar específico. “Diáspora”, por exemplo, embora seja dedicada aos escravos trazidos da África (“Pássaros negros sufocados, por ouro e prata aprisionados”) é, acima de tudo, um grito contra a escravização de todos os povos que são “sequestrados de suas terras” e, em nome da sobrevivência, são aprisionados “por ouro e prata”. Musicalmente, esse último som é um dos melhores de todo o “split”, com aquele empolgante andamento crust punk indicado pra abrir a roda no meio do público e levar a galera à loucura, efeito que, aliás, eu vi acontecer de verdade! Puta banda!

Na sequência, vêm os brothers do Homicide com mais sete lindas canções de perfurar tímpanos sensíveis! Mais furiosos e objetivos que seus parceiros de “split” no aspecto musical, essa rapaziada – que, orgulhosamente, eu tive o prazer de assistir ao vivo e com quem toquei diversas vezes – não dá trela pra virtuosismo ou minúcias estéticas: é uma porrada atrás da outra, direto na orelha! Contando já com o novo baixista – Aracno Aranha – e uma experiência de 10 anos no underground, William Longen (vocal), Diego Valgas (vocal e guitarra) e Marlon Joy (bateria), o Homicide traz, como de costume, um grindcore finíssimo, com influências claras de ENT, Terrorizer, Driller Killer, Napalm Death e congêneres. Essas referências são mais do que suficientes pra provar que os caras conhecem o terreno onde estão pisando.

Assim, sem maiores cerimônias, “Ilusão idiótica” mostra o poder da avalanche sonora produzida pela banda, apresentando peso e velocidade, além da puta integração entre as vozes, que dão aquela dinâmica tipicamente nervosa do estilo. De longe, pode-se dizer que essa é uma das faixas mais “trabalhadas” da banda aqui, porque “Vosso líder” e “Contra o tempo” são pedradas diretas, verdadeiros manifestos a favor da brutalidade e da grosseria musical! Ao vivo, é impossível não destacar a energia e a sincronia perfeita dessa galera, principalmente do batera Marlon, um dos melhores bateristas que eu vi tocar nessa linha. O cara é rápido pra cacete, dinâmico nas viradas supervelozes e tem uma precisão quase mecânica, sem oscilar durante a música em termos de tempo e força das marteladas. 

Essa coesão toda pode ser observada nas últimas faixas do cd, sendo que “Estado terminal” e “Causa e efeito” mostram claramente a relação íntima do Homicide com Extreme Noise Terror, principalmente dos primeiros discos, nas partes mais lentas, e com o poderoso Terrorizer nas partes mais extremas, em que o pau come solto e a turma não alivia pra ninguém. O cd fecha ainda com mais duas faixas escritas em inglês, marcando uma volta da banda ao idioma, visto que nos últimos anos a banda compôs exclusivamente em português. A propósito, independente do idioma, as letras da banda são altamente ácidas e apontam para o buraco existencial em que se enfiou o ser humano contemporâneo, o qual não percebe que a mediocridade de sua vida o leva à autodestruição e não à utópica felicidade prometida pelo mundo do capital.

Por fim, vale dizer que a experiência de poder avaliar um disco em estúdio e ao vivo quase que simultaneamente foi bastante interessante, principalmente por se tratar de um disco animal, feito por músicos dedicados e uma gravadora que tem mantido seu velho compromisso com o underground intacto durante quase 15 anos, além de ter podido sacar que o material apresentado aqui é real, palpável, e não apenas mais um trabalho de estúdio bem maquiado pela produção. Que venham mais lançamentos como este em breve!

Tracklist:

DESALMADO
1. A ordem dos porcos
2. O pavor do estado
3. Hidra
4. Em ruínas
5. Eternidade do medo
6. Diáspora

HOMICIDE
1. Ilusão idiótica
2. Vosso líder
3. Contra o tempo
4. Estado terminal
5. Causa e efeito
6. From reality to dust
7. Stupid

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