Banda/Artista: Flesh Grinder
Título: Nomina Anatomica
Lançamento: Black Hole Productions
Ano: 2016
Contatos: fleshgrinderbr@yahoo.com
http://blackholeprods.com/
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 22/07/2016

Quando a primeira nota toca, é impossível não sentir o odor dos corpos embalsamados em formol invadir as suas narinas e provocar aquele desejo profundo de vomitar, tamanha a ligação desses caras com o que há de mais (psico)patológico e sanguinário na face desta podre terra! A morte aqui é onipresente e serve para ilustrar a maior verdade de todas, porque, como já diria Tom Warrior, “only death is real”. Realista do começo ao fim, o quinto álbum desses incansáveis batalhadores do underground serve também para mostrar o quanto a experiência pode fazer diferença na hora de acertar a mão e lançar um disco que mantém a estupefação do ouvinte do começo ao fim, sem pausa para respirar um pouco de ar puro! 

Por isso que eu dizia que, já na primeira nota, dá pra sacar que se trata de uma banda veterana, ainda que eu não conhecesse o Flesh Grinder. O som perfeito das guitarras, pesado, cheio, toma conta logo de cara, trazendo aquele “feeling” que todo veterano sente ao ouvir uma sonzeira das antigas, algo que somente um Carcass, um Xysma, um Autopsy ou um Nihilist, só para citar aqueles que parecem ter alguma influência aqui, poderiam fazer com facilidade. O baixo, a cargo de Rogério Murara, e a bateria, do inigualável Daniel Henriques, cumprem seu papel perfeitamente, dosando com maestria trechos mais lentos e pesados, que são alternados com tempos médios e momentos de velocidade e caos total. Os vocais, comandados por Rogério e Fábio Görresen, refletem aquela velha brutalidade da escola Carcass, que é, sem dúvida, a maior referência do Flesh sob todos os aspectos. 

Aliás, estetica e liricamente, “Nomina anatomica” também é inspirada no melhor do gore/splatter, com todos os elementos que satisfazem a curiosidade que a morte desperta nos vivos (ou morto-vivos?). Além dos nomes das músicas, retirados diretamente dos relatórios de anatomia, a capa traz um cadáver masculino com o queixo aberto, com marcas de sutura que “arrepiam” os olhos. Pra quem não sabe, o título faz referência ao manual internacional de terminologia anatômica humana usado até meados da década de 1990. Seguindo essa concepção, o que se segue por todo o encarte e contracapa (belíssimo trabalho, aliás!) são diversas fotos do mesmo cadáver em pleno processo de dissecação, dilacerado e inerte como mera matéria orgânica, desprovido de qualquer traço de cultura que o eleve ao grau de evolução que o ser humano um dia imaginou ter atingido, talvez porque, essencialmente, sejamos apenas isto mesmo: um amontoado de carne, ossos, tripas, vísceras e sangue, prontos para servirmos aos vermes um banquete de decomposição como qualquer matéria orgânica. A morte, enfim, iguala a todos e, na mesa anatômica, nos putrefaz sem piedade, transformando a todos em pó.

Após a instrumental “Lazario”, “Masseration Larvae” entra com os dois pés no alto-falante, trazendo aquele climão death/gore pesadão e pedindo uma reação imediata do corpo. Impossível não bater a cabeça de primeira. Contudo, faixa após faixa (ou seria membro após membro?), o disco em si se revela como uma obra profundamente bem concebida e, para que se faça justiça ao trabalho de composição da banda, precisa ser minuciosamente dissecado também pelo ouvinte. Ou seja, mesmo que se perceba a alta qualidade do disco logo nos primeiros minutos, sua riqueza vai sendo revelada aos poucos, a cada vez que nos debruçamos sobre este cadáver para observar-lhe a putrefação total. 

E é mesmo como se o material fosse ficando cada vez mais podre! “Graveyard Meat”, por exemplo, precisa apenas de 1 minuto e 30 segundos para dar seu recado, numa porrada rápida e rasteira nervosíssima típica dos primeiros anos da cena grindcore, lá no final da década de 1980. “Injuries” tem uma entrada arrasadora e uma levada bem ao estilo dos primórdios do death metal, assim como “Unsatisfactory doctors report”, características que mostram que, apesar de ser lançado em 2016, “Nomina Anatomica” tem suas raízes fincadas no solo da velha escola. “Putrilagem”, por outro lado, apresenta o lado mais arrastado dessa ode ao ocaso da humanidade, como se esta rastejasse pesadamente rumo ao seu próprio abismo, pronta para mergulhar no vazio da morte. “Soon after death”, por sua vez, traz aquele andamento médio típico dos últimos trabalhos do Carcass e certamente deve fazer abrir a roda em um show! 

Enfim, é dispensável dizer que o disco mantém o nível alto até o seu final, razão pela qual não vale a pena citar faixa por faixa aqui. O que realmente importa é saber que, após oito anos, o Flesh Grinder continua amadurecendo e lançando ótimos álbuns, progredindo de forma natural, sem perder a grosseria e a crueza que lhe são peculiares desde o começo dos anos de 1990. “Nomina Anatomica” é um disco inteligente de uma banda experiente e que mostra por que esses catarinenses estão no topo da cena “splatter” há tanto tempo. Absurdamente foda!

Tracklist:

1.  Intro Lazario
2.  Masseration Larvae
3.  Graveyard Meat
4.  Injuries
5.  Putrilagem
6.  Similia Similibus Solvuntur
7.  Unsatisfactory Doctors Report
8.  Fetus Forming Bizarre
9.  Appendicular Pecculiar
10.  Soon after Death
11.  Banquete Funerário
12.  Dementopia

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