Banda/Artista: Jupiterian
Título: Aphotic
Lançamento: Black Hole Productions
Ano: 2015
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 13/02/2016

“Afótico”, tradução do título deste fenomenal disco do Jupiterian, significa, segundo o dicionário Houaiss, “privado de luz”, referindo-se ainda à fauna e flora próprias dessa zona afótica, normalmente as profundezas do oceano onde nem mesmo a fotossíntese ocorre. E, sinceramente, não poderia haver título mais apropriado para o presente trabalho dessa banda de São Paulo, que mescla com excelência o lado mais cavernoso do death metal com todo o peso do doom/sludge metal! Afinal de contas, a sensação primeira que vem à mente e ao corpo do ouvinte é a de que se está mergulhado no mais profundo abismo oceânico, em um espaço aparentemente vazio, mas cuja escuridão esconde mistérios ainda desconhecidos. E o melhor é que, quanto mais afundamos nesse mar de sonoridades pesadas e psicodélicas, mais camadas de som vão se revelando aos sentidos.

Por isso mesmo, minha primeira sugestão aos que optarem por esse mergulho no abismo do Jupiterian é que jamais o façam sem fones de ouvido ou sem o volume adequado, pois seria uma verdadeira injustiça com um som tão meticulosamente arquitetado. Apesar de, num primeiro momento, o som parecer apenas uma massa sonora pesada e arrastada nos moldes do melhor death/doom metal – o que já seria ótimo por si só – à medida que se avança na audição apurada do material, percebem-se muitas nuances originais e muito bem encaixadas no contexto hiperpesado no qual o Jupiterian se enquadra. Em outras palavras, quero dizer que o som desses caras é muito mais rico do que uma primeira impressão pode causar e, por isso, a recomendação de uso de fones para uma degustação apropriada desse material.

Aqui em “Aphotic”, além do básico peso sabbático que marca o gênero, temos muito mais referências, que vão do velho noise rock e suas vertentes mais experimentais, bem como do chamado post-metal, do sludge e até mesmo, lá no fundo, um melancólico toque de gótico nas guitarras. Fora isso, o lado doom é evidente pelo caráter predominantemente lento das músicas, arrastadas e pesadas como um mastodonte, ao passos que o aspecto death é preservado nos ótimos vocais guturais e na afinação superbaixa dos instrumentos (aliás, o baixo cavalar é um destaque aqui, certamente). Porém, apesar de tudo isso, não quero ficar fazendo comparações com esta ou aquela banda em especial, porque o Jupiterian trabalhou tão bem a atmosfera de cada uma das cinco faixas deste disco, que qualquer comparação soaria desnecessária aqui.

Por falar em atmosfera, sente-se aqui a profunda desolação humana, que se arca lentamente sob o pesado fardo da existência, que não resiste à catastrófica densidade de sua falência como espécie. Sobre os ombros do homem que é sugerido pelo som do Jupiterian, pesam os grilhões que ele mesmo criou e o levaram a submergir, catatônico, em sua zona afótica, incapaz de se erguer em busca de uma luz no fim do túnel. Então, tons cinzentos dominam a paisagem, como em “Permanent Gray”, trazendo em seu bojo sensações de melancolia – há algumas melodias de uma tristeza plangente em algumas músicas – angústia e vazio, como bem mostram, por exemplo, os minutos finais da citada faixa de abertura. Este cenário certamente conduz à morte como solução possível e não é à toa que a última faixa do disco carregue o sugestivo título de "Drag me to my grave".

Além disso, toda a bela arte do encarte completa o quadro, com sua estética noire, totalmente preto e branco, no qual se fundem a transcendência de símbolos místicos com a crueza dos ossos de partes do corpo humano. A música e a arte aqui parecem tentar expor uma grande contradição humana, pois, apesar de toda a sua possibilidade de transcender, o homem está amarrado à sua condição real, escravo de sua própria pequenez. Enfim, se foi essa a intenção desses sujeitos, não posso garantir, até porque o encarte – infelizmente – não traz as letras, mas é o que todo esse clima soturno e hipnótico evoca se ouvido nas condições ideais de degustação.

Embora cada um tenha a sua maneira de encarar o material aqui disponível, é inegável a qualidade artística de todo o disco, uma obra homogênea e inteligente, pesada e estranhamente atraente, em meio ao transe e ao desespero que o som sugere. É simplesmente arrebatador, depois de algumas audições cuidadosas, pois certamente não é um disco fácil! É, sim, um material de absorção lenta, não indicado para momentos de preguiça ou em uma roda de cerveja com os amigos, mas extremamente indicado tanto para momentos de solidão e reflexão quanto para acompanhar viagens alucinatórias ou certas substâncias ilegais.

Dada a homogeneidade da obra, não destacarei nenhum som em particular, pois todos são mesmo fantásticos e mantém o nível alto do começo ao fim. Aliás, os músicos que compuseram “Aphotic” entendem muito do assunto e deram ainda mais consistência ao disco, conseguindo atuar diretamente no plano sensorial de quem se disponha a curtir o material em “loop” (recomendo a prática, inclusive!). Por isso, embora a banda assuma o rótulo de doom metal, acredito que não seja necessário ouvir o disco tendo isso em mente, porque os caras fizeram um trampo tão bom que transcende essa necessidade de enquadrá-lo em alguma tendência. Particularmente, mergulhei de cabeça nessa atmosfera brutalmente pesada e, mesmo não sendo um profundo conhecedor de doom, pude apreciar e sentir cada nota cavernosa do álbum em puro torpor. Sem dúvida, ao final desse transe, fica a certeza de que a Black Hole Productions, mais uma vez, acertou a mão e nos trouxe mais um lançamento memorável.

Tracklist:

1. Permanent Gray
2. Daylight
3. Proclamation
4. Aphotic
5. Drag me to my grave

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