Banda/Artista: Subterror
Título: Antropormortum
Lançamento: Black Hole Prods
Ano: 2015
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 04/07/2015

Assim que “Antropomortum” caiu em minhas mãos, já me ocorreu uma primeira impressão: “putz, é bem o tipo de som underground sujo, daquele que me pega logo na primeira audição!” Como não sou homem de me deixar levar apenas pela primeira impressão, cá estou eu diante dessa obra, ouvindo-a por praticamente duas semanas a fio e, sem enjoar, continuo arrebatado como de início: os caras são foda mesmo, mermão! O Subterror é uma banda relativamente nova, formada em 2009 em Brasília com a proposta de fazer um som crust pesadão (que eles preferem chamar de stenchcore, como faziam os ingleses do Deviated Instinct), com influências claras de death metal, como, aliás, é praxe nesse tipo de pancadaria, que funde muito bem o melhor do punk e do metal extremo. No caso do Subterror, felizmente, esse conceito é bem verdadeiro, sem contar que Luan (baixo/vocal), Samuel (bateria) e Harry (guitarra) ainda se dão ao trabalho de incrementar essa proposta com muita inteligência e domínio do gênero. 

Nesse sentido, as letras deste disco demonstram uma profundidade filosófica única, além de serem escritas totalmente em português, outro detalhe que lhes confere certa originalidade no estilo. A temática também aponta para uma direção mista: é tão crítica quanto às letras punks, expondo as mazelas da sociedade, ao mesmo tempo em que apresenta um fundo bastante sombrio, revelando uma visão cética e decadente do ser humano e seu mundo, algo bastante comum no metal. Essa opção por uma abordagem mais subjetiva da realidade filia o Subterror a uma tradição seguida por algumas bandas que praticam essa forma híbrida de som, o crust, incluindo aí Amebix, Hellbastard, Axegrinder ou Prophecy of Doom, entre outras, para citar apenas as mais antigas do gênero. 

A vantagem do Subterror é conseguir passar essa ideia de forma perspicaz, com letras muito bem construídas e singulares, que certamente levarão à reflexão os ouvintes mais atentos, mantendo sintonia inclusive com a arte preto-e-branco do disco, responsável pelo clima “noir” do material. A própria introdução do disco dá uma dica dessa consistência temática da banda, apontando para uma visão de mundo bastante interessante por meio de uma frase do professor de filosofia Louis Mackey, retirada do filme “Waking life”, que diz: “há dois tipos de sofredores neste mundo: aqueles que sofrem por uma falta de vida e aqueles que sofrem em virtude de uma superabundância de vida. Eu sempre me encontrei na segunda categoria”. Tal citação não é gratuita e, de certa forma, indica o sentimento que subjaz a obra, cujo aparente pessimismo, na verdade, é um grito desesperado de lucidez contra a apatia humana. Afinal de contas, “Antropomortum” exala uma energia vital surpreendente e cada faixa é um autêntico chacoalhão na indolência do homem contemporâneo, esse sujeito infeliz e dependente que já não sente mais nada diante da sua própria ruína. Resumindo: as letras são boas pra caralho e vale muito a pena ouvir o disco e acompanhar o que os caras têm a dizer, que não é pouca coisa.

Entrando na seara musical propriamente dita, o Subterror mostra seu poder de fogo, agindo como uma máquina barulhenta a serviço do caos total! É muita porrada do começo ao fim! A banda mescla o que há de melhor do som que nasceu na Suécia e se espalhou pelo submundo underground, seguindo uma linhagem que vem desde os punks, com muito de Crude SS e Mob 47, passa pelos mestres do death metal da velha escola (Nihilist, Entombed, Dismember, Grave etc.) e culmina na pancadaria mestiça do Driller Killer. Assim, após a instrumental que inicia o disco, vem “Estética do fim”, que abre com um riff bem death metal combinado a uma batida de inspiração hardcore, ou seja, direta e reta, sem nenhuma firula, na cara. O sangue já começa a ferver nas veias, os ouvidos se abrem sedentos por mais esporro e logo vêm “Pathos”, uma paulada certeira nas têmporas com uma puta letra, e “Iconoclasta”, mais um violento diatribe contra o homem submisso à absurda lógica do capital e que brada, entre indignado e entorpecido: “em tempo morto, produzo o excesso e ao mesmo tempo não tenho nada”. 

No miolo do disco, digamos assim, temos 3 faixas que trazem toda a essência do Subterror, em termos de peso e visão de mundo: “Caminhando de um inferno para o outro” é uma faixa mais cadenciada, muito bem construída, mostrando uma integração fudidíssima entre o clima propiciado pelo instrumental e o desespero transmitido pela letra, especialmente em sua parte mais lenta, que parece fazer o ouvinte sentir a agonia desse sujeito que se recolheu à sua “vergonha de sentir” e já não consegue “nem rir nem chorar”. Muito foda! “Fanatismo do pior” espatifa os miolos logo de cara e mal deixa o ouvinte respirar em seu 1 minuto e meio de destruição, praticamente emendando sua fúria na música que mais se destaca entre todas do disco: “Apatia e privilégio”. 

Por diversas razões, este é o som que melhor resume o que, ao fim e ao cabo, é esta obra chamada “Antropomortum”, condensando escopo musical e temático de forma perfeita. Além de ser uma sonzeira infernal, dominada por riffs matadores do começo ao fim, a faixa apresenta uma variedade rítmica riquíssima, bases muito bem construídas e empolgantes, com pontes bem amarradas e uma elaboração técnica incomum ao gênero, mas muito bem-vinda quando mantém intactas a crueza e a rispidez do crust, como é o caso aqui. Além disso, “Apatia e privilégio” traz uma letra intocável, marcada pelo infinito questionamento das possíveis alternativas que poderiam levar a um mundo melhor. Contudo, diante do absurdo do próprio sistema social criado pelo homem, aquele que o questiona se vê obrigado a se afastar de alguma hipótese supostamente verdadeira, já que todas as alternativas podem ser falsas. Enfim, esta foi a leitura que me soou mais razoável, pois seria incoerente admitir uma verdade também em minha interpretação...afinal de contas, o que nos resta “é a insuficiência de todas as hipóteses”, não é mesmo? Ponto para os caras, mais uma vez!

Em seus momentos finais, o disco ainda nos brinda com duas porradas na orelha: a curta e grossa “Distopia”, com riffs marcantes e feitos pra rasgar a pele de tão cortantes, e a densa até o osso “Escrevo para apagar meu nome”, que começa mastodôntica, pesadaça, para logo cair numa empolgante levada crustcore capaz de levantar defunto! Aliás, a letra é uma das melhores do disco e versa sobre a inevitabilidade da morte, nossa única certeza e, na visão do Subterror, é nossa única esperança de, enfim, acabar com a decepção profunda que o sujeito contemporâneo sente a seu próprio respeito. Certamente, um grand finale para este grande disco!

No geral, todas as faixas são animalescas e, embora possa parecer pouco um disco ter apenas 9 músicas, no caso do Subterror, foi a medida exata. Em pouco tempo – pouco mesmo: são impressionantes 23 minutos e meio de duração! – os caras passam uma energia tão gigante, que logo se coloca o disco pra rodar de novo! É legal destacar também a produção do disco, suja e bem equalizada/mixada, garantindo uma guitarreira pesada, baixo sombrio, interagindo perfeitamente com as marretadas precisas e fortes da batera, o que traz muita consistência ao resultado final. Certamente, há muito mais detalhes a evidenciar num trampo dessa categoria, mas acredito que a raça que parar para ouvir esse material com atenção vai conseguir detectar ainda mais particularidades relevantes escondidas nos interstícios dessa muralha de peso e distorção. Afinal, “Antropomortum” é um daqueles discos que vão ficando melhores a cada audição pelos novos elementos que vão se revelando no meio da barulhenta massa sonora do Subterror. Parabéns à banda e ao selo Black Hole por apostar em um material tão inteligente e coeso!

Tracklist:

1. O vazio da máquina
2. Estética do fim
3. Pathos
4. Iconoclasta
5. Caminhando de um inferno para outro
6. Fanatismo do pior
7. Apatia e privilégio
8. Distopia
9. Escrevo para apagar meu nome

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