Banda/Artista: Catacumba
Título: Animus Mortis
Lançamento: Blasphemy Production
Ano: 2013
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 24/07/2014

Embora seja considerado um EP, “Animus mortis” traz 6 músicas que completam quase 30 minutos de duração, acompanhadas de uma riqueza de referências e detalhes que tornam o álbum uma obra-prima do underground e que me impedem de escrever um texto breve demais acerca do álbum. Em primeiro lugar, é preciso que se diga que eu já tinha visto diversos vídeos do Catacumba e tinha curtido o som, mas ainda não tinha tido a oportunidade de ouvir um álbum do começo ao fim com a atenção que a banda merece. Sinceramente, me arrependo de não tê-lo feito antes, porque o que temos aqui é metal profano da melhor qualidade, atestada pelo canhoto, sem dúvida!
 
O que mais me chamou a atenção logo de cara foi que o Catacumba, por mais que seja considerado e tome pra si o rótulo black metal, vai muito além disso, trazendo um som minuciosamente esculpido no qual se fundem demoniacamente diversas vertentes da música pesada. O clima black metal se sobressai em virtude dos seus aspectos macabros e da atmosfera de enxofre que o disco exala, mas uma audição atenta logo perceberá elementos de death metal e da corrente mais maligna do thrash metal (leia-se Poison – o alemão, é claro – Possessed, Sodom e todas aquelas maravilhas das antigas que faziam um som thrash – ou death/thrash – com visual e letras satânicas), bem como pequenas notas do mais puro heavy metal. Primeiramente, a timbragem das guitarras de Count Único Del’Inferni apresenta bastante peso e uma afinação mais encorpada, elementos característicos das bandas de death metal, o que torna “Animus mortis” um álbum que foge do som agudo típico e meio cansativo do black metal pós-invasão norueguesa. Em alguns momentos, na verdade, o timbre das guitarras chega a lembrar bandas como Carcass ou Autopsy, imprimindo maior originalidade ao som do Catacumba. A batera de Amazarak também não segue os preceitos mais ortodoxos dos discos de black metal, cuja bateria muitas vezes soa abafada e em volume mais baixo que os outros instrumentos, tendo sido gravada aqui num volume que lhe dá mais destaque e peso, apesar de os pratos preservarem a sonoridade básica do metal negro. Completam a banda um excelente vocalista, Gordoroth Vomit Noise, cujos vocais seguem a blasfema linhagem do black metal, e o baixista A. Apeph, responsável por dar mais peso ainda ao EP.
 
A qualidade de gravação do petardo é, sem dúvida, outro ponto a se destacar neste disco. Além da mixagem perfeita, a produção caprichada de Adriano Scaramussa e da própria banda foi responsável por pensar cada detalhe do disco, que mais se assemelha a uma escultura cuidadosamente talhada, como eu disse anteriormente. Afinal, em cada passagem de som, em cada solo, em cada urro do insano vocalista, em cada quebra/variação de ritmo, há um pormenor que faz toda a diferença no conjunto da obra. Como exemplo dessa riqueza, pode-se citar as guitarras dobradas logo no início da primeira faixa, com a guitarra solo prenunciando um clima ainda mais apocalíptico para o ouvinte, bem como as vozes, que se sobrepõem no refrão, as quais imprimem maior perversidade ao produto final. Eu poderia citar uma infinidade de passagens nas quais esses detalhes são responsáveis por dar a cada som a atmosfera pensada pelos autores do disco, mas deixo aos ouvintes a possibilidade de descobrirem por si só essas minúcias que tornam o material tão interessante, mesmo após algumas boas audições. Sempre há algo novo a se descobrir, certamente!
 
Outro aspecto que faz de “Animus mortis” um álbum único é o alto nível das composições, pois todas as músicas têm diversas passagens diferentes e bem trabalhadas, o que parece indicar uma extrema dedicação ao som, algo pouco usual no underground. Isso mostra o empenho do Catacumba em fazer um som de respeito, bem arranjado, complexo, porém, sem se tornar um metal firulento e sem emoção, como é comum nos bandas mais técnicas. Nesse sentido, qualquer um dos sons aqui presentes pode servir como exemplo dessa complexidade, como “Temple of bones”, que contém uma passagem, por volta dos 2 minutos de música, cujas guitarras trazem aquele climão heavy metal fantástico e, apesar do andamento predominantemente lento, ganha velocidade em seu final caótico. Aliás, não há muito investimento da banda em termos de rapidez, sendo poucas, porém, fundamentais e muito bem encaixadas, as partes mais velozes, que servem muito mais como pontes entre os trechos de mais peso e cadência, como em “Mnemosyne”. “Omega chalice”, contudo, é a faixa que mais se destaca em termos de correria, embora alterne esses momentos com levadas mais moderadas e de muito peso. Essas partes mais lentas remetem muito mais aos progenitores da maldade blackmetálica (Bathory, Venom, Bulldozer e Hellhammer) do que ao som da década de 1990. Em suma, toda essa rica e firme teia sonora, ao fim e ao cabo, não atrapalha o resultado final; ao contrário, ela pede muito mais concentração do ouvinte, que precisa embarcar de verdade nessa viagem rumo à obscuridade malévola criada pelo Catacumba a fim de extrair da obra toda a emotividade empregada em cada uma suas composições.   
 
Por fim, gostaria de chamar a atenção para um último aspecto da banda em si, e não apenas deste disco, que é o visual. Este traz elementos evidentes do black metal, como cruzes invertidas, braceletes de pregos, correntes, entre outros, os quais, em conjunto com o preto-e-branco predominante, expressam o teor satânico da banda, no sentido mais metafísico do termo. Porém, o Catacumba alia a esse lado mais transcendental um realismo brutal, por meio do uso de cigarros, bebidas e drogas na foto do encarte, sem medo de chocar a moral cristã vigente e de trazer uma realidade bem urbana a uma cena que lida muito com essa subjetividade do ocultismo, mas esquece de incorporar o mal aos fatos da vida mundana, ao cotidiano. Aliás, para os bons entendedores, a foto é capaz de fazer o intestino revirar, além de horrorizar qualquer devoto religioso ou membro da famigerada TFP.
 
Enfim, “Animus mortis” é uma grata surpresa para quem ainda não o conhecia, como eu, e um álbum que tem tudo para marcar a história do underground. Talvez hoje em dia isso não faça tanto sentido ainda (afinal, são tantas bandas novas, seguidas de uma penca de lançamentos diários na cena, que nem todo mundo consegue dar conta de ouvir tudo), mas tenho certeza de que uma obra-prima desse quilate não será esquecida pela nossa história. Impressionante e imprescindível!

Tracklist:

1. Simon the magus
2. Mnemosyne
3. Smoky god
4. Omega chalice
5. Temple of bones
6. Procreation of hades

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