Um bom jornalista, diriam os teóricos dessa área, seria aquele que analisa imparcial e friamente um fato, personagem ou objeto para dar seu parecer com base em critérios técnicos e racionais. Felizmente, no meio underground, temos liberdade suficiente para fugir desses dogmas acadêmicos (alias, quem aí faz jornalismo imparcial mesmo, hein?) e nos derramarmos em emoção plena ao toparmos com uma obra-prima dessa magnitude! Afinal, “Indoctrination of hate” é um álbum que nasceu grande, com cara de obra-prima já na capa, assinada por Remy C., que já trabalhou para Mumakil, Agathocles, Whitechapel, Arch Enemy e Cryptopsy, entre outros, e na arte muito bem-feita pelo proprietário do selo Black Hole, Fernando Camacho, que têm realizado excelentes produções artísticas nos seus próprios lançamentos (a capa de “Nadir”, do Facada, está entre os melhores trabalhos artísticos recentes do underground!). Porém, além da arte visual, há muito mais elementos que convergem para que este trabalho possa ser chamado de obra-prima. 
 
Evidentemente, o primeiro elemento é a música: vigorosa, consistente, avassaladora, grosseira e instigante, a porrada come solta desde o momento inicial, após uma breve introdução falada, explodindo na cara do ouvinte sem dó nem piedade. A intro já anuncia o clima de bomba-relógio, com um agoniante tique-taque ao qual se sobrepõe um discurso atribuído a Seung-Hui Cho, autor do massacre na Universidade Estadual da Virgínia que vitimou 33 pessoas em 2007. Aliás, o discurso inflamado, cheio de ódio, praticamente explica o conceito do disco e o próprio nome da banda. O termo “ódio”, a propósito, é recorrente no disco e reflete um sentimento de profundo desprezo em relação ao que a humanidade tem feito há séculos consigo mesma e com o mundo ao seu redor, gerando um absurdo processo de retroalimentação cujo principal combustível é o próprio ódio, com consequências explosivamente nefastas para a coletividade. Nas palavras da própria banda, “I’m a time bomb/ready to explode”, que foi o trágico destino do atirador sul-coreano e que parece ecoar na crítica proposta pelo Expose Your Hate em todo o disco.
 
Outro elemento que merece destaque e tem ainda a ver com a música é o clima apocalíptico estabelecido por cada riff, cada urro vocal, cada solo, cada batida, enfim, pelo caos generalizado promovido pela banda do começo ao fim de “Indoctrination of hate”. Afinal, não estamos diante de um mero disco de heavy metal extremo, mas de uma banda que traz consigo claras referências ao grindcore aparentemente desenfreado de gente como Brutal Truth, Driller Killer, Carcass ou Napalm Death, para citar os primeiros que me vieram à mente. Isso dá ao som uma brutalidade que poucos conseguem com tanta maestria, pois o conjunto aqui é musicalmente muito firme e apresenta uma precisão absurda na execução de cada petardo lançado na cara do ouvinte. Aliás, nesse sentido, é impossível não perceber que cada músico deu o seu melhor para criar um produto original, pesado e barulhento, fundindo o que há de mais podre em termos de desgraça sonora. Em outras palavras, as influências grindcore se somam muito bem ao death metal para deixá-lo mais agressivo do que de costume, levando a pancadaria à enésima potência. Daí, a impressão de estarmos imersos no mais perturbador apocalipse, um verdadeiro prenúncio do fim do mundo. 
 
O mais legal é perceber que não há necessariamente faixa a se destacar em meio ao caos do EYH, pois todas formam um conjunto bastante coerente e coeso, sem aliviar em nenhum momento. Pode-se iniciar a audição por qualquer faixa, até mesmo pela última faixa do disco, “Life not for sale”, pois todas trazem o que a banda tem de melhor a oferecer: velocidade e cadência na medida certa, guitarras cortantes e violentas, solos dissonantes prontos para perturbar a melodia de um inexistente mundo perfeito, peso mastodôntico que faz estremecer as paredes de casa e urros selvagens proferidos com muito, mas muito sangue nos olhos. Por sinal, o time de músicos precisa ser destacado, por que, além de tudo, eles são todos veteranos e sabem muito bem o que estão fazendo aqui. Assim, nas guitarras, temos Flávio França e Herman Souza, com um trabalho de inegável competência; no baixo, o experiente Cláudio Slayer, deixando o som ainda mais pesado; na batera, Marcelo Costa, quebrando tudo; e nos vocais, rugindo feito uma fera hidrofóbica, Luiz Cláudio. É relevante mencionar que, à exceção de Flávio, todos os outros membros já tiveram passagens pelo Sanctifier, um dos nomes mais poderosos do underground brasileiro, com longa história na cena extrema, o que só vem a trazer um pouco mais de credibilidade ao som do Expose Your Hate.
 
Além de todos esses elementos que fazem de “Indoctrination of hate” um dos melhores discos lançados neste ano, ainda há um aspecto que, particularmente, considero importante mencionar: as excelentes letras que compõem o CD. Afinal, além de muito bem escritas, elas justificam a extrema raiva presente em cada faixa do disco, pois retratam a sórdida realidade em que estamos imersos, fruto de um mundo dominado pela ganância capitalista, pelo individualismo exacerbado, pela alienação generalizada e pela tendência à autodestruição que marca nossa trajetória. Assim, o EYH descarrega todo seu ódio contra as imposições e fanatismos de ordem religiosa e política (“Spreading holy violence”, “Deceived in faith”, “666 reasons to hate” e “Confront the untouchable”), a obsessão pelo dinheiro (“Money power control” e “Life not for sale”), entre outros temas, com destaque ainda para algumas reflexões acerca das angústias contemporâneas, como em “Transitory lifetime” e “My de-generation”, por exemplo, conjunto lírico que demonstra claramente a filiação da banda ao ethos do grindcore.
 
Em suma, este é mais um exemplo certeiro da destruição que a nossa cena underground ainda tem a oferecer, seja pelas mãos da nova geração ou da velha guarda, que tem muito a lenha pra queimar. Aliás, o título “Indoctrination of hate” é bastante sugestivo, pois a nova geração pode (e deve!) se espelhar nos mestres para dar rumo certo ao ódio que corre nas veias de uma juventude nascida em meio ao caos da contemporaneidade. Tudo isso faz deste um disco imperdível, uma verdadeira e barulhenta aula contra o conformismo que mantém intacta, mesmo com uma produção moderna, a essência do death/grind mundial, sendo capaz de arrepiar e emocionar este velho escriba. Nota 10, sem dúvida!

Tracklist:

1. Ready to explode
2. Blessed by ignorance
3. Spreading holy violence
4. Odius operandi
5. Deceived in faith
6. My de-generation
7. Marked target
8. When we destroy to create
9. Money power control
10. Confront the untouchable
11. Suspicious activity
12. Machine gun full of hatred
13. 666 reasons to hate
14. Transitory lifetime
15. Start the chaos
16. Self-denial attitude
17. Life not for sale

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