Banda/Artista: GS Truds
Título: Only Tia Gertrudes Is Real
Lançamento: Esporro Sonoro Prods./Gallery Prods./MVCS Prod./Metal Island/Tenebrarum
Ano: 2013
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 28/01/2014

O cômico na cena underground, principalmente em se tratando de metal, é ainda algo visto com muita desconfiança. Tal suspeição que se lança sobre o humor é estranha, principalmente se levarmos em consideração que, no dia a dia, muitos dos headbangers com os quais convivo são pessoas bem-humoradas que costumam inclusive rir de si mesmos com frequência ou tirar sarro uns dos outros. No meio punk, a comicidade, em suas formas mais sarcásticas, até é bem aceita, desde que tenha um fundo crítico e ácido. Ou seja, se a proposta for séria, se pode até fazer uma ironia ou tirar uma onda com a cara de alguém, mas sem perder o foco. Em resumo, a piada pela piada em si, de fato, é quase uma heresia no meio underground. Tanto é verdade que grupos que por acaso ousem se aventurar pelo terreno do cômico e do nonsense são sempre considerados menores, como se o que eles fizessem não tivesse sequer valor musical ou artístico, mesmo que eles saibam tocar e dominem com perfeição o código metal ou punk. Na melhor das hipóteses, vão ganhar a pejorativa pecha de for fun, como se fazer comédia não fosse nada além de um passatempo de crianças ou desocupados.
 
Mesmo assim, felizmente, algumas bandas de metal persistem na ideia de trazer o bom humor para sua produção e o fazem de forma bastante consistente, talvez iluminados por algum resquício do trabalho comicamente corrosivo do falecido Frank Zappa, ao qual se deve adicionar uma boa dose de coragem para enfrentar as críticas do povo “sério” do underground. Esse é o caso do GS Truds, banda veteraníssima na cena, mas pouco citada pelos “troos”, que certamente devem achar que é só mais uma banda for fun. Tendo lançado apenas 4 demos em sua longa trajetória (a banda existe desde 1987!), provavelmente por não desfrutar do mesmo prestígio que as bandas sérias, essa banda cearense só agora conseguiu lançar seu debut, o pesado “Only Tia Gertrudes is real”, uma paulada thrashcore de arrepiar o mais exigente fã de crossover. 
 
Além de ser uma banda veterana, o que mostra inegável empenho e dedicação acima da média, o som que Luiz Lemos (vocal), Carlos Menezes (baixo), Paulo Henrique (guitarra) – contando com o apoio do batera Acacio Vidal – fazem é realmente uma prova inconteste de que eles entendem do assunto e, apesar da atitude bem-humorada, não estão pra brincadeira quando o assunto é fazer música pesada de qualidade. O lance é sério: porrada pra todo lado, guitarras muito pesadas e cortantes, vocais urrados no melhor estilo HC e cozinha alternando entre partes rápidas e outras mais cadenciadas, como pede o bom crossover. Aliás, musicalmente falando, as referências são as melhores possíveis: há um pouco de Nuclear Assault, Psychic Possessor e até do velho Anthrax, nos seus discos mais pesados, mas a maior influência mesmo vem de bandas como S.O.D. e, principalmente, do R.D.P. dos tempos do “Cada dia mais sujo e agressivo”, “Brasil” e “Anarkophobia”. Há que se considerar ainda que parte desse sarcasmo do GS Truds, de certa forma, também encontra eco nos trabalhos do RDP, posto que os paulistanos sempre tiveram uma tendência à ironia e ao deboche em termos de atitude e letras.

Por falar nas letras, estas retratam, em português coloquial, um universo bem suburbano, em sua maioria, com diversas referências a putas e botecos (“Puta purulenta”), locações de periferia (“Terror no beco da poeira”), igrejas evangélicas (“Satã obreiro da universal”) e lendas urbanas (“Véio do saco”), evidenciando, de forma irreverente, uma realidade bem brasileira. Nesse mesmo sentido, a banda faz graça com a religião em “Maldição do ovo”, que retrata o caso de uma galinha preta que pariu um pinto anticristo ao som de Slayer, com a cena underground, ao criticar os embalistas de hoje em dia em “Retroboy”, abrindo ainda um espaço para as letras de inspiração gore/terror bem à sua maneira, ou seja, com uma veia cômica que chega a beirar o puro nonsense. Nessa toada, seguem as ótimas “Churrasco dos vermes”, “Ataque das borboletas canibais” e “Velma, a barata zumbi”.
 
Dentre todas as faixas, embora elas formem um todo bastante homogêneo, eu destacaria as excelentes “Churrasco dos vermes” e a cadenciada “Ataque das borboletas canibais” – sem dúvida a música mais foda do disco, que põe qualquer veterano a bater cabeça e deve abrir uma roda gigante ao vivo. Também curti muito “Maldição do ovo”, “Terror no beco da poeira” e os riffs empolgantes de “Puta purulenta”, o que não significa que os outros sons sejam ruins, longe disso! 
 
Assim, “Only Tia Gertrudes is real” é um puta disco de thrashcore, mas que corre o risco de ser esquecido pela cena diehard, que infelizmente leva o mundo a sério demais e, por sua vez, esquece que, se não fosse a irreverência de certas cabeças mais arejadas no mundo das artes, talvez ainda estivéssemos produzindo música erudita e o que chamamos de underground seria um lugar tão “divertido” quanto um jogo de golfe num resort burguês ou um recital de poesia parnasiana. Enfim, com um disco assim, o GS Truds felizmente abre uma brecha na sisudez metaleira e prova que se pode fazer a raça bater cabeça e rir de si mesma sem que com isso se perca a autenticidade. Em tempos de “troos” caçando as bruxas na rede social e outras manifestações de seriedade malévola e desnecessária mundo afora, é um alívio poder ouvir um som empolgante assim e lembrar que, antes de tudo, rir é sempre o melhor remédio, mesmo na cena underground.

Tracklist:

1. Puta purulenta
2. Maldição do ovo
3. Retroboy
4. Churrasco dos vermes
5. Ataque das borboletas canibais
6. Satã obreiro da universal
7. Terror no beco da poeira
8. Véio do saco
9. Velma, a barata zumbi

Compartilhar
Mais sobre:

Envie seu comentário sobre essa notícia!

Nome:
E-mail:
Texto:
=

Parceiros