Banda/Artista: Bode Preto
Título: Inverted Blood
Lançamento: Lajä Records / Death Noise Prods
Ano: 2012
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 13/07/2013

Era 1987. O metal extremo rapidamente se espalhava pelo underground, atingindo terras distantes e sem nenhuma tradição na música pesada, como o Brasil, por exemplo. Então, esse foi o ano do lançamento do LP que é um dos maiores cultos da história da música extrema, um dos seus mais perversos e mais negros registros: “INRI”, do Sarcófago. Bem, apesar de "INRI" ser um marco insuperável para a cena underground, muitas tentativas de superar sua brutalidade e crueza foram feitas durante os últimos 26 anos por grandes bandas como Blasphemy, Beherit, Mystifier ou, mais recentemente, Morbosidad ou Grave Desecrator, só para citar alguns dos herdeiros diretamente inspirados por "INRI". No entanto, parece que agora o sucessor desse marco finalmente apareceu, pelo menos para os meus humildes ouvidos: "Inverted blood", do BODE PRETO.

O Bode Preto é uma banda recém-formada do Piauí, mas, apesar de sua história recente, os seus membros são malucos antigos do underground. Josh S. (vocal/guitarra) já tocou em bandas como Monasterium na década de 90 e Adelson Souza (bateria) também é muito conhecido na cena por sua infernal pancadaria em bandas como The Endoparasites, Grave Desecrator e Diabolic Force.

Provavelmente, essa familiaridade com as profundezas do subsolo explica por que "Inverted blood" é uma obra-prima de death/black metal, porque a minha primeira impressão é que eles começaram exatamente onde Sarcófago parou depois de lançar seu primeiro LP. Quando a primeira faixa é ouvida, parece que "The last slaughter" (última faixa do INRI) acaba de tocar! Dessa forma, não é exatamente uma coincidência ver que Fábio Jhasko, que tocou no Sarcófago 1990-1993, foi convidado aqui para fazer os solos de guitarra em três músicas. É bom que se deixe claro, entretanto, que isso não significa que a banda não tenha personalidade, absolutamente, porque eles têm seu próprio som e uma maneira peculiar de abordar a música e, principalmente, em termos de letra, como uma audição mais apurada certamente pode provar. Na verdade, os contextos são bastante diferentes se compararmos o meio da década de 80 com 2012, mas o Bode Preto foi capaz de unir a grande sonoridade daquela época à sua própria maneira de fazer metal extremo. 

Então, não espere uma cópia, por favor, pois tudo é cuidadosamente pensado em "Inverted blood", desde a introdução – chamada "Anunciação", que, além de ser uma festa cristã, é um termo muito difundido na cultura popular do Nordeste brasileiro – até a arte da capa e contracapa, que é um detalhe da pintura mitológica "O Enigma", feita por Gustave Doré, famoso artista e ilustrador de livros do século 19. A própria escolha dessa pintura poderia render um longo artigo se quiser relacioná-la com o trabalho do Bode Preto. Além disso, suas letras também merecem uma atenção especial, porque são inteligentes e se encaixam perfeitamente no contexto deste álbum, aprofundando temas obscuros e subjetivos que expressam sentimentos de angústia, rebelião contra Deus e a religião e desilusão em relação ao mundo em que vivemos. Também é importante destacar que Josh, que escreveu todas as letras, também domina o inglês, o que torna o conteúdo das letras mais claro, apesar de todas as metáforas e outras figuras de linguagem muito bem utilizadas em todo o trabalho.

Falando especificamente sobre a música, esta é simplesmente incrível, crua, brutal e soa totalmente “evil” e obscura, e, mesmo que eles não abordem algum tipo de infantilidade satanista, a atmosfera é profundamente macabra. O que confere à música do Bode Preto essa aura malévola é a própria gravação, que lança mão de alguns efeitos de voz muito fudidos, as guitarras brutas e pesadas, cujo som parece preencher completamente as músicas, não deixando absolutamente nenhum espaço para o silêncio e a harmonia. A música aqui é um fudido e caótico death/black metal em sua melhor forma, com certeza! A propósito, é impossível não destacar também seus riffs, que são simples como deve ser o metal underground, mas que grudam na mente do ouvinte imediatamente, mostrando as altas habilidades de composição desses caras. Os tambores de Adelson são rápidos e não param um segundo, martelando a cabeça do ouvinte sem misericórdia, o que, combinado com o som encorpado das guitarras de Josh, faz deste álbum uma verdadeira obra-prima da brutalidade.

Ao ouvir a obra como um todo, fica claro que é impossível falar sobre esta ou aquela faixa em especial. Minha impressão geral é que a intenção aqui era criar uma obra completa, cuja atmosfera barulhenta e confusa pudesse sugar o ouvinte para dentro de uma espiral de caos total e irreversível. Simplesmente, um grande lançamento da Death Noise Prod e Läjä records que você não pode perder, principalmente se você, como eu, considera "INRI" um clássico absoluto.

Tracklist:

01. Anunciação
02. Inverted blood
03. Black mirror
04. Children of suicide
05. Elytron (Succubus)
06. Mother of ferocity
07. Serpent inferior
08. Amorphophalus titanum
09. The erection of the cross

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