Banda/Artista: Neófito
Título: Eternal Suffering
Lançamento: Independente
Ano: 2010
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 10/12/2012

Em alguns casos, persistir pode ser uma grande virtude. Este é o caso da banda lageana Neófito, cujo disco “Eternal suffering” comprova toda a persistência de Rafael Tizatto (guitarra), Rafael Ghislandi (vocal & guitarra), Guilherme Letti (bateria) e Robson Anadom (baixo, que atualmente já cedeu o posto para Thiago Tigre) em fazer um som Death/Doom desde o seu início, no já distante ano de 1994. Uma das virtudes está em se manter fiel ao estilo, mesmo que ele nunca tenha se tornado moda entre todos os subgêneros do Metal, e conseguir fazer um som de absoluta competência, mesclando altas doses de peso, com melodia na medida certa e muita pancada nas horas em que é preciso descer a porrada. O interessante neste disco é que ele foi gravado originalmente em 1996 e traz uma sonoridade “old school” que lembra, em termos de qualidade de gravação, alguns clássicos do metal nacional da década de 1980, como Taurus, Anthares e Metralion, por exemplo. Relançado em 2010, o disco não perdeu sua qualidade, ao menos para este que vos escreve, fã incondicional do som antigo das demo-tapes e “plays” gravados nas periferias deste mundo, e mostra o quanto a banda era afiada desde os seus primórdios.

Bem, falando do som em si, na primeira música, “Cold illusion”, todas essas características já ficam bem evidentes logo na introdução, com uma base pesadíssima e recheada de melodia, mas não daquela alegre e bonitinha, e sim de uma melodia melancólica bem ao estilo de bandas como Paradise Lost e My Dying Bride, soturna e profundamente emotiva ao mesmo tempo, para entrar em um ritmo médio, cair na porrada e rapidamente voltar ao “midtempo” que predomina nessa música. Aliás, variações de tempo são uma constante no disco, o que o torna menos repetitivo, com certeza. Destaque também para o belo solo que inicia aos 1min38s e vai até os 2min09s, sem que isso signifique algum excesso de virtuosidade. 

“The birds”, a segunda faixa, manda um riffzão lento bem ao estilo do Death/Doom do início da década de 1990, para logo acelerar e mandar ver numa das faixas mais rápidas do disco. Aliás, nesse som, os caras conseguiram imprimir uma melodia tão poderosa aos refrãos que a música parece ainda mais rápida do que talvez seja. Todas as variações de tempo e solo estão presentes também, tornando “The birds” uma das melhores faixas do disco, sem dúvida.  “Empty”começa pesadona, cai numa pancadaria digna dos primeiros discos do Sepultura, na fase Death Metal ainda, e traz solos inspiradíssimos da dupla do Neófito, provando que eles são hábeis na criação de belas e tristes melodias, bem como de interlúdios que se encaixam muito bem à proposta da banda. O gosto da banda por longos interlúdios, aliás, está patente na faixa chamada simplesmente de “Instrumental”, que apresenta todos os elementos da sonoridade do Neófito, ou seja, peso, velocidade, momentos melancólicos, palhetadas quase Thrash e solos criativos. Na verdade, é bom que se diga, solos existem aos montes durante todo o CD, mas estes são muito bem aproveitados e adequados, não soando chatos em momento algum.

A faixa-título começa com um dedilhado macabro e mostra uma banda coesa em sua proposta, trazendo um Death/Doom arrasador, que alterna os momentos mais arrastados com outros bem velozes com perfeição instrumental e mostra toda a agressividade do Neófito quando o lance é quebrar tudo. “Sr. Tyrants” mantém a pegada típica da banda e é seguida pela mais cadenciada “1452”, que traz vocais mais falados no começo, talvez pela influência gótica que estava muito presente nas bandas desse estilo em meados da década de 1990. Aqui, os solos ganham destaque, principalmente do meio para o final da música, quando a banda exibe todo o seu potencial para criar atmosferas que evocam sentimentos profundos e reflexões abissais sobre a existência, ao menos para aqueles que se deixam levar pela intensidade emocional que um disco desse estilo pede. 

Aliás, é essa combinação de melancolia e melodia que dá o toque final à faixa “King of fears”, com solos que tocam fundo na alma e um encerramento que mostra toda a personalidade da banda: um triste solo de teclado (ou seriam metais?) que fecha o disco de forma sensacional, deixando no ar um clima de solidão e descrença na trágica realidade deste mundo. A propósito, no EP “Abused”, de 2012, essa temática de profundo e crítico ceticismo diante da realidade será explorada mais a fundo ainda, mantendo a coerência do Neófito em sua produção e concepção de mundo. Aliás, é fato de eles ainda estarem em atividade, lançando novos trabalhos e organizando shows na sua região que mostra o quão virtuosa é a persistência do Neófito, mesmo que a moda continue pregando outras tendências e comportamentos.

Tracklist:

1 – Cold illusion
2 – The birds
3 – Empty
4 – Eternal suffering
5 – Instrumental
6 – Sr. Tyrants
7 – 1452
8 – King of fears

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