Banda/Artista: No Sense
Título: Obey
Lançamento: Violent Records
Ano: 2011
Contatos: Facebook
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 09/09/2012

Há uns anos atrás, falar em evolução musical no meio underground, principalmente para os defensores incondicionais da barulheira punk e metal mais radical, era uma verdadeira heresia, um violento atentado ao pudor! No final da década de 1980 e início do decênio seguinte, era praxe entre os mais radicais (inclusive este que vos escreve, admito) não aceitar a menor suspeita de aprimoramento técnico que pudesse surgir de um lançamento para outro. A banda que desconsiderasse essa regra implícita corria sérios riscos de ser malvista e até mesmo excluída do circuito underground, sob o argumento de que teria “se vendido” para o “mainstream”. Lembro que até mesmo o Sore Throat chegou a sofrer esse tipo de acusação quando lançou “Disgrace to the corpse of Sid”, em virtude do seu lado B mais lento e musical! Dá pra crer? Pois é, mas era assim mesmo que a evolução era vista, ou seja, como um equívoco que representava, antes de qualquer coisa, uma submissão ao mercado, uma guinada da banda rumo ao comercialismo. 

Hoje em dia, contudo, estamos todos mais velhos e experientes e foi exatamente essa experiência (que não tínhamos nem como ter na época) que mostrou a muita gente que evoluir não era um pecado, mas algo natural para quem quer que ouse se aventurar em qualquer área de trabalho ou criação, pois é praticamente impossível fazer a mesma coisa durante um bom tempo sem aprimorar sua técnica ou sem que se tente novas formas de fazer o seu ofício. Além disso, também é natural que, ao longo do tempo, sejam incorporadas outras influências e vivências àquilo que se faz, principalmente quando se fala de arte, pois não há artista que não procure realizar novos experimentos em sua criação, nem que seja para fugir do tédio de produzir sempre a mesma coisa. 

Bem, essa longa introdução vem nos servir aqui para falar sobre o poderoso álbum “Obey”, da banda santista No Sense, lançado em 2011 pela Violent Records, que retornou aos palcos em 2008, isto é, quase 15 anos depois de ter dado uma pausa em suas atividades. Apesar de estar com sua formação quase intacta, contando com Marly nos vocais, Paulo na bateria, Morto na guitarra, além da adição de Ângelo no baixo (substituído por Juninho, do Repulsão Explícita, logo depois das gravações), é evidente que, da década de 1990 pra cá, muita coisa mudou e é por isso que procurei definir melhor o que vejo como evolução aqui. Afinal, no caso específico de “Obey”, como o disco conta com 7 músicas atuais e mais 8 bônus do EP “Out of reality”, originalmente lançado em 1991 pela saudosa Fucker Records, fica praticamente impossível não comparar as duas fases da banda e não reparar nas diferenças e semelhanças entre elas.

Porém, ao contrário daqueles idos tempos de radicalismo pueril, em que já começaríamos a resenha lamentando a evolução da banda, que produziu um disco com uma sonoridade mais metalizada, neste caso, tal processo de aperfeiçoamento técnico, além de ser (e soar) perfeitamente natural, foi totalmente benéfico por dar à banda uma identidade musical simples e objetiva: é som extremo underground e ponto final. 

Assim, vejamos: em primeiro lugar, o EP continua primoroso em termos de barulheira dissonante e ofensiva, na cara, curta e grossa, uma porrada só e objetiva direto no queixo! Grind/Noisecore com belíssimas influências de 7MON, Crawl Noise, Tumor, Anal Cunt, Fear of God e todas aquelas maravilhas da antimúsica que fizeram a alegria de uma raça que via no extremo barulho uma forma de se opor ao crescente tecnicismo, o qual passou a dominar o cenário da música pesada underground com a ascensão do Thrash Metal mais acessível de bandas como Metallica, Megadeth ou Testament e influenciou muito a mudança de estilo (ou evolução) das bandas do underground brasileiro daquela época. 

Em 1991, a propósito, esse petardo caiu como uma bomba na cena, já que a maioria dos lançamentos das bandas mais extremas era feita ainda na base da fita de ensaio e, embora parte da mídia especializada estivesse muito mais interessada no Sepultura, no exterior os “noisecore freaks” receberam muito bem o material do No Sense. Todas as faixas são curtas, com entradas típicas do Grindcore, apesar de podermos sentir, lá no fundo, uma tendência a explorar partes lentas e pesadas que se mesclam às mais velozes, algo que, de certa forma, mostra já uma evolução em relação às demos e ensaios anteriores ao EP. “Devastation and massacre”, por exemplo, apresenta um tempo médio, com um andamento punk/HC perfeito, e “Just say no”, também mais pesada, apresenta as influências metálicas da banda, assim como “Darkness”, embora sons como “Leprous lovers”, “Consuming till death” e “Confused mind” sejam perfeitos para mostrar todo o potencial Grind/Noise caótico do No Sense.  

Em segundo lugar, a parte inédita do CD, ou seja, as 7 primeiras músicas gravadas em 2011, merece alguns destaques importantes. Afinal, quando eu comecei esta resenha falando em evolução foi porque é impossível não perceber a diferença entre esse registro atual e as gravações antigas, o que de maneira nenhuma quer dizer que a banda “se vendeu” apenas porque “evoluiu” e agregou influências mais técnicas ao seu som, como veremos a seguir. Evidentemente, muita coisa aconteceu desde a década de 1990, tanto no aspecto técnico das gravações, quanto na cena underground, sem falar na maturidade que os integrantes ganharam e que hoje está estampada na própria concepção do disco, nas letras, no som e, é claro, também na parte musical. Com uma pegada muito mais Metal, reflexo natural daquilo que os integrantes da banda têm ouvido mais nos últimos anos, segundo as palavras de Marly, “Obey” começa com “No more hope”, uma faixa pesadíssima, feita sob medida para o “headbanging”, pois, embora não abra mão da velocidade, já que tem um rápido trecho em “blast beat”, o que se sobressai é mesmo o andamento médio e altamente empolgante. Porém, como essa evolução musical não significa, como poderíamos pensar há uns 20 anos atrás, que a banda não é mais fiel ao seu estilo agressivo, pode-se perceber que a característica extrema da banda se mantém intacta, principalmente na curta duração das músicas (a primeira, por exemplo, tem menos de 1min30s...) e na agressividade constante e desenfreada de cada som.

“Border line”, na sequência, vem com um jeitão Crust, mas logo desemboca na mais pura pancadaria bem ao gosto das influências Grind da banda, não chegando a completar um minuto de duração. A faixa-título tem um início bem Metal, com a batera de Paulo e o baixão cavernoso de Ângelo dando o ritmo mais cadenciado que prevalece nos menos de 2 minutos de som, trazendo também muito do que é o No Sense hoje em dia, por contar ainda com uma parte em velocidade máxima e ressaltar o peso com os vocais mais insanos de Marly. A propósito, é impossível também não destacar essa evolução vocal de Marly, que está urrando como nunca, com um gutural profundo e muito mais raivoso do que nas antigas, o que a coloca, sem sombra alguma de dúvida, como a melhor vocalista de música extrema do país (e uma das melhores do mundo também, sem erro!), além de ser considerada eternamente como a primeira, no Brasil, a desafiar o padrão masculino predominante na função e ter conseguido um lugar de respeito absoluto no underground. É, então, em “Obey” que ela mostra toda a sua força, conseguindo expressar toda a sua raiva contra aqueles a quem obedecemos cegamente, abandonando nossos desejos e nos alienando para viver um sonho que não é nosso. Certamente, o desempenho de Marly, que põe alma de verdade em cada grito, deve fazer com que também o ouvinte sinta essa mesma revolta e saia gritando “obeeeeeeeey”. 

Tema semelhante e uma raiva idêntica transbordam do som seguinte, “Iconoclastas”, uma pancada Death/Grindcore que está entre as minhas favoritas do disco, com certeza, seguida de perto por “Never surrender”, outra faixa curtíssima, muito rápida, barulhenta e totalmente grindcore, talvez a que mais lembre o velho No Sense. “Vendetta” e “Guided by voices”, por fim, trazem um pouco mais das ótimas influências metálicas da banda, com guitarras muito graves e andamentos mais cadenciados, sem perder em termos de porrada, já que o peso agonizante de ambas as músicas (especialmente a última, que chegou a lembrar verdadeiras instituições como Asphyx ou Grave) mexe com qualquer coração underground e nos leva a crer que a volta do No Sense foi mesmo um dos melhores acontecimentos da cena nos últimos anos. 

Em resumo, acho importante concluir que, ao fim e ao cabo, não importa mesmo todo esse papo de manter as raízes X evolução quando a banda em questão apresenta um trabalho tão honesto e tão violento quanto “Obey”, e principalmente quando conhecemos a história da banda e toda a sua dedicação ao underground, que é o que realmente importa. Talvez fosse muito mais estranho se uma história tão longa não tivesse sido marcada por nenhuma mudança, pois o natural, quando se fala de artistas criativos e incansáveis é que estes amadureçam e procurem experimentar novas maneiras de conceber o mundo a sua volta, ou simplesmente façam aquilo que lhes pareça o mais fiel possível ao seu modo de sentir a realidade em cada momento. Ao final, o que se sobressai nesse lançamento do No Sense é, acima de tudo, um som extremo autêntico e maduro, feito com muita alma e garra, por uma banda que certamente não precisa mais provar nada pra ninguém.

Tracklist:

01. No more hope
02. Border line
03. Obey
04. Iconoclastas
05. Never surrender
06. Vendetta
07. Guided by voices
08. Confused mind
09. T.V. Alienation
10. Just say no
11. Darkness
12. Leprous lovers
13. Devastation and massacre
14. Consuming till death
15. Dying

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