Banda/Artista: Cruscifire
Título: Chaos Season
Lançamento: Independente
Ano: 2010
Resenha por Alex Neundorf
Publicada no dia 04/09/2012

O Cruscifire é uma banda que, desde sua fundação em 2004, vem trilhando uma trajetória de desenvolvimento e evolução muito séria e comprometida com sua identidade musical, com o público e com o Metal de uma maneira geral. Afinal, já em 2005 e 2007 podíamos ouvir similaridades com este play nas respectivas demo ‘Sick World’ e no EP ‘A New Bloody Day’; também através do nome sempre presente na mídia especializada, nos shows com grandes nomes do metal brasileiro e mundial, na divulgação profissional e competente. De Atibaia, no estado de São Paulo, temos aqui o debut lançado em dezembro de 2010 (lembrando que recentemente, em fevereiro de 2012, a banda lançou e disponibilizou o EP ‘Hateful’ para download), quando a banda contava com os irmãos Victor Angelotti (Vocals, Bass, acoustic Guitars) e Caio Angelotti (lead Guitars), além de Ricardo Cari que gravou a bateria. Vale mencionar que atualmente a banda é formada pelos irmãos Victor e Caio Angelotti, mais Murillo Romagnoli (Guitar) e Victor Nabuco (Drums). O som é (e sempre foi, embora nos primeiros materiais também flertasse com o Thrash Metal) um Death Metal bem anos 2000, mesclando a brutalidade que é comum ao gênero com uma técnica mais apurada e composições que gravitam em um meio-termo na ênfase entre o melódico e o rítmico.

Iniciando nossa crítica, temos de considerar a parte gráfica que é um caso à parte, pois muito bem trabalhada pelo conhecido artista Marcelo Vasco (ou Marcelo HVC, como também assina seus trabalhos), mas também pelo próprio Victor Angelotti. A concepção da arte da capa nos remete a identidade que o artista mencionado já desenvolve de longa data (impossível não olhar uma capa e sacar de cara quem a fez). No caso aqui, temos uma ideia que nos remete, talvez, aos cenobitas e cenários de tormento do universo de Hellraiser e da obra de Clive Barker. Internamente, o encarte é bem simples, porém com muito bom gosto e completo, no sentido de conter, além das letras, fotos dos componentes da banda e todas as informações necessárias.

Em se tratando da parte técnica, a produção e gravação foram efetuadas no estúdio próprio da banda em Atibaia. Já mixagem e masterização são assinados por Denis Dilallo e AVWorks Studio de São Paulo/SP.

A seguir, a parte musical propriamente dita:

Este play conta com dez sons, sendo oito deles totalmente novos (duas músicas apareceram no EP de 2007), que totalizam quase trinta e seis minutos ininterruptos de um Death Metal muito coeso, bem trabalhado e de excelente audição (para ser contido nos elogios!). A primeira faixa se chama ‘A Letter For My Enemy’ e já inicia de forma devastadora com tudo, incluindo voz, iniciando junto. Ouvindo as linhas de guitarra com mais atenção nos vem a lembrança duas influências declaradas da banda: Cannibal Corpse e Dying Fetus. Principalmente nas guitarras dobradas. Com relação ao tema abordado na letra, certamente muitos ouvintes se identificariam com ele. Quem nunca conheceu gente assim? ‘You think you’re better than everything, but you can’t look yourself in the mirror’. A seguir temos ‘Chaotic’ que mantém a quebradeira e ritmicamente é bem mais complexa que a anterior. Tranquilamente é um dos destaques deste play. A letra aborda um tema mais clichê: um certo pessimismo com relação aos destinos da humanidade. ‘The Chaos Season’ é a terceira faixa e intitulada este debut. E aqui temos outro destaque, uma vez que a composição é bastante intrincada, mas ao mesmo tempo cativante e transbordante de feeling. ‘The chaos season, spreading terror everywhere’. O próximo som se chama ‘Squeals From Slaughterhouse’ e abre com uma intro matadora (que é a mesma base para o refrão) e, embora seja um som mais reto que os anteriores, tem algumas partes mais cadenciadas e marcadas. Vale mencionar que este também é o som mais longo do play com quase exatos cinco minutos de duração. Na sequência, a quinta faixa é ‘A New Bloody Day’, faixa que também constou como faixa de abertura do EP por ela intitulado. Aqui, temos uma nova produção que a deixou mais encorpada e atualizada com este full. O que chama a atenção, apesar de musicalmente também ser uma faixa primorosa (e perfeitamente compreensível sua reutilização neste full), é a parte lírica, onde encontramos uma abordagem mais crítica com relação a flagrante e estrutural desigualdade social do nosso país: ‘The streets are full of blood, a new blood day, where are the rights?’. A destruição continua com ‘Smash Your Head’ que mantém a pegada das faixas que abrem o play. Um desenvolvimento mais cadenciado é a marca desse som, além deste ser também o mais curto com pouco mais de dois minutos. Com uma introdução pra lá de interessante e cativante, temos ‘Sons Of Disgrace’, a sétima faixa deste trabalho. E já se aproximando do fim do play, a antepenúltima faixa é ‘Finish Him’ que nos brinda com um som que mantém a brutalidade e feeling. Aqui temos outra música bem rápida e direta, sem maiores firulas, é quebradeira total. Para fechar o registro, temos na sequência as excelentes ‘Valley Of Suicidal’ e ‘Untrue Illusion’, esta última, outra remanescente do EP de 2007. Ambas desenvolvem-se tendo por fio condutor a porradaria acelerada. Em ‘Valley...’ temos um vocal quase onipresente e que chama bastante a atenção pelo peso que oferece à faixa. Já ‘Untrue Illusion’ destaca-se pela quase onipresença das dobras de guitarra.

Ok! Audição realizada, vamos às considerações finais. Em primeiro lugar gostaria de chamar a atenção para a sempre bem vinda iniciativa de lançar este material de forma independente. Cada vez mais vemos isso acontecer no nosso cenário metal e, acho eu, que representa bem as quantas anda esse mesmo cenário. Hoje, apesar de podermos presenciar uma profusão de bandas nunca antes vista, graças certamente ao fenômeno da massificação da internet, também verificamos a falta de uma estrutura de suporte para essas bandas (selos, distros, produtoras, etc. profissionais, ou melhor, de uma envergadura mais abrangente). É claro que hoje temos muitas distros, selos e produtoras, mas grande parte delas são trabalhos ‘na raça’, desenvolvidos por gente que nutre este trabalho mais pela paixão pela coisa do que pelo desenvolvimento profissional. Esse fenômeno paralelo, de dissolução dos grandes selos e difusão dos selos undergrounds, traz consigo, claro, coisas boas e ruins: ‘boa’ no sentido de que nunca foi tão fácil conseguir uma divulgação ampla e massiva, inclusive de âmbito internacional; ‘ruim’ no sentido de que uma banda nascida nesses anos 2000, irremediavelmente, se não ‘fazer das tripas coração’ e desembolsar uma quantidade significativa de capital, jamais conseguirá escapar do vórtex do underground. Dificilmente veremos uma banda alcançar o patamar de um Sepultura, por exemplo. Claro, há que se relativizar tais considerações. Estas, são desse que vos escreve, uma vez que entendo que toda banda, ou ao menos boa parte delas, almejam tocar para grandes públicos, em grandes festivais, ter seu trabalho reconhecido mundialmente, etc. Há bandas e bandas e, no caso do Cruscifire, entendo que o objetivo seja este. Underground e Mainstream não são essencialmente ‘bons’ ou ‘ruins’. São etapas de um trabalho. O trabalho independente é certamente mais difícil e acidentado, mas os louros colhidos são ainda melhor apreciados.

Outro aspecto que há de se mencionar é a qualidade desse som, tanto em termos de produção quanto em termos de composição. Simplesmente esta banda chegou ao patamar ‘gringo’ de qualidade e não deixa nada a desejar em relação aos grandes ‘figurões’ do gênero. As linhas de guitarra são de muito bom gosto e esbanjam esmero e técnica, sem deslizar para o cada vez mais chato ‘technical’ Death Metal. São, em minha opinião, o grande destaque no som do Cruscifire. A cozinha é competentíssima e segura o peso perfeitamente. Os vocais também, apesar de a linha principal ser mais tradicionalzona, podemos verificar um certo dinamismo quando temos backings e em alguns momentos até uns pig squeals. Embora nada deslocado. Está tudo bem encaixadinho. No geral, o som se equilibra quase à perfeição entre uma faceta voltada para a parte melódica e outra voltada para o rítmico. Destaques para as faixas: ‘Chaotic’, ‘The Chaos Season’ e ‘A New Bloody Day’.

Mesmo que esta crítica seja um pouco retardatária e não esteja completamente ‘antenada’ com o que a banda vem desenvolvendo atualmente, e que certamente esses quase dois anos colaboraram sobremaneira para a evolução e desenvolvimento do som do Cruscifire rumo ao próximo full-lenght, me permito tecer ao menos alguns poucos apontamentos, totalmente opinativos e relativos: primeiro, acredito que a banda já possui uma identidade muito característica, musicalmente falando, e que são fornecidos basicamente pelas linhas de guitarra e vocal. Segundo, as linhas de vocal poderiam se utilizar de um maior dinamismo e flexibilidade, como vemos em ‘Untrue Illusion’ ainda de maneira embrionária. Digo, mesclar registros diferentes na mesma linha mestra e não utilizar os screams apenas como backing. Trazer essas linhas mais rasgadas e agudas (ou médias) pra frente. Acho que seria bastante interessante ouvir algo nesse sentido, embora não desmereça em nada a postura adotada neste play.

Por fim, acredito que este primeiro registro do Cruscifire fornece uma excelente ‘carta de entrada’ para a banda e garante-a como sendo uma das que produziu um dos melhores lançamentos daquele ano. Além, é claro, de elevar as expectativas para o próximo lançamento. Finalizamos, esperando que a banda continue ‘spreading terror everywhere’.

Tracklist:

01. A Letter For My Enemy
02. Chaotic
03. The Chaos Season
04. Squeals From Slaughterhouse
05. A New Bloody Day
06. Smash Your Head
07. Sons Of Disgrace
08. Finish Him
09. Valley Of Suicidal
10. Untrue Illusion

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