Banda/Artista: Offal
Título: Macabre Rampages And Splatter Savages
Lançamento: Black Hole Productions
Ano: 2010
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 29/06/2012

Bicho, vou ser sincero: tem algo melhor do que colocar um disquinho pra rolar e sentir, já nos primeiros acordes, uma emoção tão intensa quanto aquele orgasmo perfeito do último ménage à trois? Pois é, tem coisas que são assim, e o “novo” do Offal é certamente um exemplo que se encaixa bem no caso acima, pois os caras conseguiram protagonizar um dos melhores momentos do death metal mundial. Tudo bem, algum leitor (se houver algum) mais jovem ansioso por lançamentos mais recentes poderá dizer que o disco em questão já não é mais uma novidade, pois foi lançado em 2010 pela Black Hole Productions. Em dois anos, dizem, muita coisa acontece e, no caso do underground, realmente muita coisa acontece mesmo, dada a profusão de bandas e lançamentos dessa opulenta cena, que está sempre parindo mais um rebento insano de alguma mente doentia ao redor do mundo. Porém, o caso de “Macabre rampages and splatter savages” é daqueles em que o tempo é o que menos importa, pois o que André Luiz (vocal), João Carlos Ongaro (baixo), Tersis Zonato (guitarra e voz) e Eduardo Tobe (bateria) nos mostram aqui é mais um lançamento que transcende o tempo, atravessando-o para se tornar item obrigatório na categoria dos clássicos.

Imediatamente, a primeira referência que vem à mente assim que se começa a ouvir o artefato é Autopsy, claro, e 90% dos marginais que adoram animar seu dia ouvindo um death metal de tendência gore poderão perceber essa benéfica influência. Contudo, o Offal não se atém apenas a essa inspiração principal: uma audição mais atenta do CD mostra claramente que os curitibanos estão bem embasados quando se trata de “background” metálico, indo muito além da lenda criada por Chris Reifert. Assim, em seu segundo “full-length”, o Offal traz na bagagem diversas outras influências, advindas, em sua maioria, da mesma época em que surgiu o Autopsy, certamente, como Exit-13, Carcass e toda aquela geração de bandas extremas norte-americanas que deu à luz o famigerado Grindcore, como Master, Funeral Bitch, Deathstrike, Repulsion, Majesty e Nausea (afinal, essa foi uma das principais fontes metálicas em que o Napalm Death bebeu para criar o “Scum”), bem como as inglesas Bolt Thrower e Cancer. Com essa base respeitavelmente pesada, tem como um disco desses ser ruim?  Evidentemente que não, mas de nada adianta fazer essa afirmação sem dizer como cheguei à conclusão acima, certo? 

Talvez por isso, o disco cheira à podridão exacerbada desde o seu início, quando “Offal”, a primeira faixa, instrumental, entra solene, como um death/doom metal que se arrasta lúgubre como um animal asqueroso cujos movimentos gosmentos preparam os ouvidos para “Feast for the dead”, um dos destaques do CD, com uma pegada inegável daquele death metal old school que faz a alegria de qualquer demente! Com uma batida em midtempo, é impossível não sacudir o corpo na levada da batera e não sair “assoviando” o solinho de guitarra que fecha as primeiras estrofes, digno de um Exit-13, com toda a certeza, assim como as guitarras que embalam a segunda parte da música, mais lenta ainda e com um clima totalmente doom. A propósito, o guitarrista Tersis é foda e detona no seu instrumento, criando bases e solos altamente cativantes, com uma dose exata de melodia, trampo que ele mantém nas faixas seguintes, “Trial of the undead” e “Putr-essence”, duas porradas irretocáveis do melhor death metal, daquelas que colocam qualquer metalzinho contemporâneo pretensioso no seu devido lugar, ou seja, no lixo!  Vale registrar que o final dessa terceira faixa também é memorável, uma base arrastada, agonizante, dá o tom de terror dos seus últimos dois minutos, evidenciando outra inspiração essencial do disco: os filmes de horror de Dario Argento, Lucio Fulci e Joel M. Reed, entre outros. 

Aliás, as referências ao cinema doentio e marginal são escancaradas, tanto pela dedicatória aos mestres, como pelo uso de diversos trechos de filmes, como “Zombie”, “The Return of the Evil Dead”, “Bloodsucking Freaks” etc. como intros para alguns dos sons (inclusive, na medida certa, sem abusar do recurso!). Dessa forma, o cinema B entra aqui como verdadeiro “leitmotiv” de “Macabre rampages”, conferindo unidade ao produto final, imprimindo-lhe até mesmo um ritmo narrativo original, aspectos que marcam tão profundamente o ouvinte que, certamente, contribuem também para torná-lo um lançamento de maior longevidade, no sentido mnemônico mesmo, pois na segunda audição já é possível reconhecer diversos momentos do CD. Bem, não sei ao certo qual foi a intenção da banda em entremear as músicas com tantos trechos e referências ao cinema, mas a impressão que eu tenho é de que o próprio “Macabre rampages and splatter savages” foi concebido como um filme digno de um Petter Baierstof, combinando podridão e perversão, tendo como pano de fundo o suspense e a tensão proporcionados por essa trilha sonora do metal da morte!

A propósito, voltando ao CD, “The eyegouging” é o seu som mais curto, com menos de um minuto de duração, lembrando as experiências do primeiro disco da banda e mostrando a latente influência grind/gore da banda, que, se não está explícita, está ali no fundo, para quem conhece a história dos membros do Offal. “The cold grips of death” chega detonando com um death metal à velha escola, caindo depois no climão “offálico”, ou seja, macabro, denso, assustador, coisa pra fazer o seu vizinho tremer de medo! “Flesh freak”, por sua vez, inicia uma espécie de trilogia instrumental, unindo-se a “Deep red – The blood is running cold” e “Terrore in Giallo” para dar ao disco exatamente o peso do terror criado em cada parte dessa obra-prima do underground. Vale destacar que as músicas instrumentais foram arranjadas por Tersis Zonato (que também toca no Axecuter e Lutemkrat), que fez um puta trabalho em cada um delas, mostrando que boa parte do brilho desse disco se deve a sua competência, com certeza. Por falar nisso, competência é o que não falta a nenhum dos membros da banda: o baixista mantém o peso necessário, o batera é avassalador e preciso e o vocalista André dispensa qualquer comentário, pois ele garante o posto de um dos melhores na sua função hoje, sem dúvida. Infelizmente, neste ano de 2012, o baterista teve que deixar a banda por razões pessoais, mas torço para que eles logo consigam arranjar alguém que realize um trabalho tão fudido nas baquetas para dar sequência a essa trajetória death/gore em clara ascensão.

Por fim, cabe mencionar o trabalho de primeira feito pela Black Hole (como sempre, aliás) e toda a maravilhosamente lúgubre arte do CD, elemento indispensável para os apreciadores de um bom encarte e que nunca trocariam esse prazer por uma mera cópia em MP3, certo? Finalizando, eu diria que a impressão que fica é que “Macabre rampages and splatter savages” foi minuciosamente construído, detalhe a detalhe, resultando em um equilíbrio raro no metal extremo atual entre a sonoridade clássica do underground e produção bem cuidada da contemporaneidade. Afinal, sabendo aproveitar os recursos atualmente disponíveis, o Offal conseguiu manter a atmosfera orgânica, independente e original que consagrou toda uma cena dedicada ao mais macabro death metal nesses quase 30 anos de história do estilo. Assim, seja em 1985, 1990, 2010 ou 2012, como eu disse no início, o tempo aqui é que menos importa, pois “Macabre rampages” coloca o Offal em pé de igualdade com os pais a quem eles devem parte de sua “educação”, tornando-se simplesmente eterno.

Tracklist:

01. Offal
02. Feast for the dead
03. Trial of the undead
04. Putr-essence
05. The eyegouging
06. The cold grips of death
07. Flesh freak
08. Mortuary waste
09. Onslaught of dismemberment
10. Deep red – The blood is running cold
11. Death’s curse
12. Terrore in Giallo

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