Banda/Artista: Andralls
Título: Andralls
Lançamento: Free Mind Records/Distro Rock
Ano: 2009
Resenha por Cristiano Passos
Publicada no dia 22/06/2012

Muita gente que começou a curtir som pesado na década de 1980 tem com o Slayer uma relação que beira o sagrado. Afinal, muita gente também foi “abduzida” pelo metal mais extremo por meio do Slayer, que, se em “Show no Mercy” e “Hell Awaits” já demonstrava uma fúria avassaladora, no seu terceiro disco, “Reign in Blood”, quebrou de vez os padrões de velocidade e pancada sonora. Isso lá pelos idos de 1986, quando bandas mais violentas que o quarteto da Califórnia só circulavam precariamente via tape-trading e demorariam mais tempo para atingir um número maior de pessoas, bem mais do que o Slayer, que já tinha um contrato “grande” para os padrões da época. Embora o Slayer hoje já não seja uma banda underground, ostentando o status de “Big four do thrash” e uma carreira profissional bem-sucedida dentro do heavy metal em geral, a banda ainda tem a admiração de boa parte do público underground tanto pelo que eles continuam representando aos saudosistas em termos afetivos (ou seja, não racionais) quanto pela sua estabilidade musical. Afinal, como muita gente diz: “Slayer é Slayer”. Dessa forma, eles conquistaram uma posição rara entre as bandas mais mainstream, cujo excesso de profissionalismo tende a afastá-las do público underground, que costuma olhar desconfiado para quem vira “banda grande”, como se boa parte da aura que envolve o segmento mais independente estivesse diretamente ligada à artesanalidade que lhe é intrínseca. 

Bem, fiz essa longa introdução para me reportar ao caso do Andralls, até porque, em primeiro lugar, o som me remeteu diretamente ao “Reign in Blood” e também para outro aspecto (secundário, para alguns, mas essencial para os headbangers mais radicais) que me chamou a atenção ao perceber a qualidade e o profissionalismo do disco da banda brasileira em questão. O homônimo “Andralls” é o 6º disco (4º de estúdio) da banda e mostra, de imediato, uma banda musicalmente muito madura, coesa e profissional. E foi esse profissionalismo que despertou esta reflexão pessoal, pois, particularmente, meus ouvidos estão mais acostumados a artefatos bem mais toscos tecnicamente, tanto na parte musical quanto na produção (que, sejamos francos, na maior parte dos casos nem existe), e logo que coloquei o CD pra rolar, pude sentir um climão mais mainstream em virtude da gravação cristalina que temos aqui. Porém, ao deixar o disco tocar mais e tentar não me prender aos meus rabugentos preconceitos, comecei a perceber o “lado Slayer” da banda e o som nervoso e pulsante que saía dos alto-falantes passou a me envolver como ouvinte. Permiti-me, então, ouvir e “entender” o que há neste CD do Andralls que foi me empolgando a cada nova música, independentemente da sua esmerada produção.

De cara, o CD começa com uma pedrada nos ouvidos chamada “Two sides”, que entra direto, sem introduções pretensiosas e enfadonhas, já cai na porrada tipicamente thrash oitentona e – me perdoem pela insistência – traz à memória o citado disco do Slayer pela sonoridade altamente agressiva, moldada pelas guitarras pesadíssimas e aceleradas, pela cozinha incansável e por vocais urrados, lembrando os bons tempos em que o thrash metal era quase confundido com o death metal, tamanha sua brutalidade. Na sequência, vem “Crosses shall burn”, outra sonzeira pra fazer qualquer marmanjo fã de metal extremo bater cabeça do começo ao fim, mesmo nas suas partes mais cadenciadas. Aliás, por falar em partes, o Andralls apresenta aqui um trabalho bastante intricado, com diversos momentos bem trampados, sem com isso diminuir o fôlego ou soar presunçoso. 

“In the eyes of the killer” mantém a pegada rápida da banda, além de ter um refrão nervoso que gruda logo na primeira audição, e é seguida logo após por uma das melhores faixas do disco, a violenta “You mean shit”, também com ótimo refrão e riffs pegajosos, dando um caráter mais extremo à música do Andralls. Da mesma forma, “Last enemy” não alivia na pancada, dando a impressão de que essas três músicas formam um conjunto só, coisa pra acabar com o fôlego de qualquer headbanger que se arrisque a acompanhar a paulada no pescoço. A próxima faixa – “Blind leads the blind” – contudo, apresenta de início uma cadência mais característica dos anos 90, com uma batida em tempo médio e muito pesada, que dá tempo ao ouvinte de se restabelecer, para logo após torcer o pescoço novamente com “My hate will never die” e “Dynamite”, que apresenta uma estrutura muito bem trampada, o que não lhe tira a violência sonora, evidentemente, e ainda conta com os solos de Fabiano Penna, produtor do disco e ex-membro de uma pá de bandas extremas desde a década de 1990, como Blessed, Rebaelliun e Horned God. As últimas 4 músicas mantém a velocidade característica da banda, mas eu destacaria “Let’s kill again”, que, provavelmente devido às suas frases curtas, transmite de forma perfeita e objetiva a raiva necessária a qualquer lançamento thrash metal que se preze, com um vocal agressivo e gritado que nos faz querer urrar suas palavras de ordem junto com o vocalista.

Enfim, todas as faixas se complementam e fazem de Andralls um ótimo disco de thrash metal, colocando a banda em um patamar muito acima do nacional. Na verdade, o CD é tão perfeito que pode ser colocado lado a lado com muitas bandas gringas, sem dúvida nenhuma, tanto em termos de composição quanto de produção. Mesmo assim – e aí volto ao início desta resenha – tenho certeza de que muita gente ficará com um pé atrás exatamente em virtude dessa excelência, principalmente os leitores/ouvintes que cultuam o metal extremo underground. Mesmo assim, mesmo sendo eu também parte desse universo mais artesanal e tosco em que o metal se solidificou como uma arte marginal e antimercado, confesso que curti muito o CD inteiro, que me fez reviver os anos em que eu descobri o Slayer e todo o mundo brutal que estava por detrás da maior culto thrash de todos os tempos. Afinal, além de todas as teorias racionais que povoam nosso universo extremo, há, acima de tudo, uma porção afetiva nisso tudo que nos rodeia, fazendo com que o importante, no fundo, seja ouvir uma boa música pesada e sentir o corpo pulsando a cada batida, seja ela mais ou menos underground. Sendo assim, parabéns ao Andralls pela pancadaria de primeira!

Tracklist:

01. Two Sides
02. Crosses Shall Burn
03. In the Eyes of the Killer
04. You Mean Shit
05. Last Enemy
06. Blind Leads the Blind
07. My Hate Will Never Die
08. Dynamite
09. Global Decadence
10. Not Dead Yet
11. Let’s Kill Again
12. Rage Empire

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