Banda/Artista: Psychotic Eyes
Título: Psychotic Eyes
Lançamento: Independente
Ano: 2007
Resenha por Alex Neundorf
Publicada no dia 08/11/2009
O Psychotic Eyes é uma daquelas bandas que eu não canso de fazer elogios. São um exemplo de perseverança, afinal enquanto algumas bandas, na nossa atual era do “tudo fácil”, conseguem já com pouco tempo de estrada lançar vários materiais e debutar com certa facilidade (algumas com qualidade, outras completamente descartáveis), o Psychotic Eyes teve de batalhar duro para lançar, de forma independente, seu full-lenght de estréia. Depois de quase oito anos de estrada, uma pausa nas atividades entre 2002 e 2004, mudanças de formação, outros diversos problemas, conseguem em 2007 enfim o objetivo primário de 99 entre 100 bandas de metal: lançar um álbum completo. E não foi somente isso que eles fizeram: a bem da verdade, lançaram um material acima de qualquer crítica. Perseverança, honestidade, humildade sincera, garra, entre outros, são qualificativos que podemos incluir em nossa avaliação sobre a parte humana da banda, mas que acabam imprimindo um feeling indescritível em algumas faixas. Não é fácil fazer, de forma independente (diga-se: tempo e $$), o que eles fizeram nesse material auto-intitulado “Psychotic Eyes”.

De São Paulo/SP e Guarulhos/SP, a banda Psychotic Eyes foi formada em 1999 depois que os componentes originais se reuniram (através de um anúncio no site da Rock Brigade) e resolveram montar uma banda. Depois disso vieram uma demo em 2000, o split com o Ancestor e uma segunda demo (disponível para download no site da banda) em 2002, por fim, o full-lenght auto-intitulado “Psychotic Eyes”. Esse período mais extenso de inatividade se explica pela pausa de quase dois anos que a banda passou entre os anos 2002 e 2004, assim como algumas mudanças de formação, que acabaram prejudicando um andamento natural de sua trajetória. Atualmente, com a saída recente do guitarrista Valdemar Ferrari, o Psychotic Eyes é um power-trio e conta com Alexandre Tamarossi (Bateria), Dimitri Brandi (Vocal e Guitarra) e Leandro Araújo (Baixo).

A arte da capa é assinada pelo artista Gustavo Sazes (veja: http://www.abstrata.net). E essa arte é um casamento perfeito tanto com o nome da banda como com as letras que estão presentes nesse play. Bastante intimista e subjetiva, psicológica. Nela vemos uma mão que está para agarrar um coração (sei lá se canceroso ou apenas extirpado do peito), mas um coração cheio de tentáculos. Atrás um sujeito (o dono da mão e do coração?) gritando. Quando vejo essa imagem remeto meu pensamento quase que instantaneamente a algum conto e as atmosferas que o H. P. Lovecraft criava. Depois de ler as letras e acompanhar com as músicas com certeza você vai ter uma idéia da mensagem que a capa passa: uma mente perturbada, atormentada. Um destaque a parte é o encarte: além de contar com todas as letras traduzidas para o português (idéia sempre louvável), com informações bem completas sobre o álbum, também é bem ilustrado, no geral, abordando tematicamente o que as letras tratam.

Psychotic Eyes” conta com nove sons e conta a ótima produção de Alex Nasser (ex-baterista das bandas Avalon e Scars). A abertura do álbum fica com a excelente “Celebrate the Blood”, faixa que ganhou também um vídeo-clipe. Um riff bastante marcante introduz um outro riff que serve de base a um primeiro verso cantado da música. E esse primeiro verso cantado chega a lembrar bastante “Infernal Death” do legendário “Scream Bloody Gore” do igualmente legendário Death. Ao menos na levada. O que segue é uma composição até bem quebrada e com uma alternância de tempos complexa. Destaque para a parte com guitarras dobradas depois do segundo refrão, que remete indiscutivelmente ao que Chuck Shuldiner fazia no Death. Simplesmente lindo de ouvir. E aqui convém mencionar: o Death é sem sombra de dúvidas a banda que mais merece comparações na apreciação desse material (eu diria que o Kreator também). A seguir temos “Bloody Years Forever” que é uma música bem longa, contando com mais de seis minutos. Nem por isso se torna chata ou massante. Inicia somente com a batera e ai segue um riff introdutório bem marcante. O andamento é bem cadenciadão e com algumas mudanças sutis. Em termos líricos, a abordagem remete ao livro “Frankenstein” de Mary Shelley. “Psychotic Eyes” é a terceira faixa deste play e um dos destaques. É fudida demais. Muito legal em vários aspectos: linhas de guitarra muito cativantes, com um feeling que realmente toca no fundo da alma Headbanguer (ouça principalmente o riff do refrão). Fazia tempo que não tinha esse sentimento ao ouvir uma música nacional. É fácil sentir isso em bandas gringas (quem é fã real de Death, de Mercyful Fate, de Slayer, de Sepultura mais antigo, por exemplo, sabe do que estou falando), aquelas que tornaram-se ícones em seus respectivos sub-gêneros metálicos. Em bandas de porte mais nacional é difícil ter essa sensação. Principalmente quando concentramos nossa atenção no cenário atual, que assiste uma enxurrada de bandas (sempre menciono isso: algumas com muita qualidade e potencial, outras que são “mais do mesmo”). Além do feeling que essa faixa auto-intitulada exala, podemos mencionar também a levada que a parte cantada adota (principalmente no verso que antecede o refrão), os riffs diversos que compõe a faixa, a batera e o baixo bastante precisos, como pontos bem marcantes. E para finalizar o que eu tenho a dizer sobre esta música, apenas uma sugestão, quem ouvir, por favor, canta junto ao menos essa parte: “They report to me what to do, but I don’t want to hear, ‘cause their words are untrue. I’m looking for something real, I can’t do what they wish, ‘cause their force is Unknown. Filling lies into your heart. Blind darkness I’ll show through psychotic eyes”. A quarta música intitula-se “Black Lotus” e mantém um clima bastante interessante. Começa com uma introdução curta, com um clima mais acústico, cadências muito legais e uma linha vocal um pouco diferente das anteriores (em alguns momentos lembra muito aqueles vocais limpos, quase falados, de bandas Thrash dos anos 80). O refrão ficou com uma levada muito legal e acaba sendo a parte mais destacada da música. O tema desta composição também merece um comentário a parte: é um elogio ao Heavy Metal, em uma abordagem que mescla ritual e linguagem profana. Como no próprio encarte eles enfatizam, é uma homenagem ao Thrash Metal dos anos 80. “Carnage is My Name” é a faixa mais longa, com pouco mais de seis minutos. Esta música começa com sons do filme “Resgate do Soldado Ryan” e quando inicia as guitarras já manda ver em um solo bastante marcante. No mais, achei a música mais comunzinha do play. Ai ouvimos o inicio da próxima faixa, que é muito legal. “The Hand of Fate” é baseada no filme “Sinais” (aquele do Mell Gibson) e começa com um andamento bem melodioso e bonito (que se mantém em quase toda a música). Essa sexta faixa é sem dúvida um destaque desse material (e se é necessário algum tipo de comparação eu diria que é um misto de Death e King Diamond). Na seqüência, temos “Storm Warning” que é um som bastante curto e remete mais para um Thrash Metal mais direto. Riffs bem característicos e sem aquelas partes mais melodiosas das músicas anteriores. É uma faixa que, apesar de ser bem interessante (aquela parte quase falada no meio do som ficou bem legal, o solo também é algo muito cativante), acaba eclipsada pelas anteriores. A oitava faixa chama-se “The Logic of Deterrence”. Começa com uma curtíssima intro mais acústica e ai descamba para um riff inicial que lembra muito o começo de “Crystal Mountain” do Death (música lançada como uma versão na demo 2), ao menos no andamento. Música muito legal e uma das que melhor se vê a coesão de toda a banda: guitarra muito bem trabalhada nas bases e nos solos, baixo e batera bastante precisos, linhas de voz casando perfeitamente com os timbres da parte instrumental. Por fim, fechando esse excelente play, temos “Psychotic I: Remember” que é a mais curta com menos de três minutos. É uma faixa instrumental, voltada para criar um clima conclusivo e que se agarra ao uso de teclados. Particularmente não gostei muito, mas não estraga o play, acho mesmo que fecha satisfatoriamente. No entanto, acho que ela seria mais interessante se estivesse mais no meio do CD e que este fechasse com um som como a oitava faixa. Sei que provavelmente ela esta no lugar em que está porque tem uma razão, mas somente assinalo que não acho ela oportuna para fechar um full como este.

Um dos poucos aspectos que eu apontaria (além dos que eventualmente já apontei) em minha crítica seria algo mais pessoal: particularmente não gosto muito do timbre escolhido para o som da caixa. No inicio da faixa “Bloody Years Forever” dá para ouvir com bastante clareza: ficou um som meio “lata” demais. Mas ai é mais uma questão de gosto pessoal, timbres são como sabores e odores: cada um tem suas preferências. Outro ponto que gostaria de marcar, o baixo ficou bem baixo (trocadilho clichê). Entendo que a guitarra é um elemento chave nas composições, portanto não deveria ser encoberta, mas gostaria de poder ouvir o baixo com maior nitidez também. Por fim, mas que daí nem diz respeito a uma crítica do álbum em específico, diz respeito à divulgação deste material: reconheço as dificuldades de fazer tudo na raça (leia-se: independente), mas este “Psychotic Eyes” teria merecido uma divulgação ainda mais abrangente, uma turnezinha. Mas como disse, reconheço as dificuldades. Apenas sinto por este material não ter ganhado a divulgação que merecia, na abrangência que merecia.

Destaques a parte, merecem as faixas “Psychotic Eyes” (que eu ouvi umas trinta vezes de forma ininterrupta), “Black Lotus” e “The Hand of Fate”. São todas composições excelentes pelo seu caráter cativante e transbordante de feeling. Os timbres de guitarra também são um aspecto a ser comentado. Muito bom ouvir um som novo apostando nessa atmosfera mais antiga, própria das bandas dos anos 80 principalmente. As linhas de vocal também são de muito bom gosto. Lembra em muitos momentos o Chuck dos primeiros álbuns principalmente (até porque em um “The Sound of Perseverance” já fica difícil), mas também o Petrozza do Kreator. Particularmente eu gostei muito das músicas que possuem uma melodia mais marcante em algum momento. São elas que transbordam em feeling e fazem o nome “Psychotic Eyes” e as letras contidas nesse CD fazerem mais sentido. São essas músicas que tocam mais profundamente, por serem as mais psicológicas, intimistas e subjetivas. No mais, acho que parte do que poderia ser dito sobre esse álbum já foi dito: enfim, excelente material a espera de um sucessor.
Tracklist:
1. Celebrate The Blood
2. Bloody Years Forever
3. Psychotic Eyes
4. Black Lotus
5. Carnage Is My Name
6. The Hand Of Fate
7. Storm Warning
8. The Logic Of Deterrence
9. Psychotic I: Remember
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Dimitri Brandi  comentou:
Prezado Alex e amigos do Goregrinder, Não tenho palavras para agradecer a maravilhosa resenha. Realmente conseguiu me emocionar ver que nossa música causou impacto sobre pessoas que são verdadeiros fãs do metal, assim como nós. Principalmente a comparação com King Diamond e Mercyful Fate, me orgulhou muito, pois é comum nos compararem com o Death (que honra!) e o Kreator, mas até então ninguém havia mencionado as sensacionais influências das bandas do rei diamante. Concordo com todas as críticas ao álbum, realmente o som de caixa e a mixagem do baixo podem melhorar muito, e vamos batalhar por isso no nosso próximo trabalho. Já quanto à turnê, só o Gmail sabe o quanto tentei marcar datas para shows de lançamento. Mandei e-mail para todos os promotores e organizadores de shows que tive notícia. Tentei marcar turnês conjuntas com outras bandas, de vários estados. Mas, infelizmente, nada disso deu certo, e ficamos restritos a poucos, embora bons, shows no interior de São Paulo. Espero que as coisas melhorem e sejam diferentes para o segundo CD. Abraços metálicos!!!
04/12/09 às 16:00 Hs
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