Banda/Artista: Bloody
Título: Slow Death
Lançamento: Independente
Ano: 2005
Resenha por Alex Neundorf
Publicada no dia 26/02/2009
Para aqueles que nunca ouviram, ou viram, esta banda em ação, a primeira coisa que surge como uma constatação imediata é o profissionalismo impar desses caras. Nesse quesito, além de muitos outros que serão mencionados a seguir, o Bloody é sem sombra de dúvida um exemplo no metal nacional. São profissionais ao nível dos gringos da América do Norte e Europa. Não só na sua apresentação, através da internet (myspace, site) e releases impressos (assim como encartes e capas dos CDs), como também no próprio som executado. Acredito mesmo, que a própria postura que enfatiza esse profissionalismo, acaba por se concretizar sob a forma do som dos caras. Em outras palavras, esse som que os caras fazem com maestria é fruto de dedicação, rigor, bom gosto, entre outros adjetivos, que só podem ser encontrados em pessoas que tenham um mínimo de postura crítica, ante as demandas de seu público, ante as exigências de sua cena, ante as cobranças que os próprios músicos devem fazer a si mesmos e a banda que compõe.

Nascida em Hortolândia, no estado de São Paulo, a pouco mais de 6 anos (em 2002), o Bloody, poderia se dizer, tem uma história de sucesso no underground nacional, afinal, já em 2002 lança a muito bem recebida demo “Eat your Brain”, composta de 5 sons que já apresentavam muita qualidade na composição e execução, para em 2005 já lançar seu primeiro full, sempre de forma independente. Neste play, que conta com 9 sons, gravados, mixados e masterizados no renomado Da Tribo Studio, tudo é 100% analógico, como a banda mesmo gosta de frisar. Em termos de qualidade na apresentação do trabalho, podemos dizer que está tudo absolutamente impecável, desde as fotos de divulgação muito bem trabalhadas, passando pela qualidade gráfica, arte e conceito, até as informações que recheiam o encarte, tais como letras com tradução, característica exemplar e sui generis. 

De cara é a capa que chama a atenção: uma ampulheta quebrada, que deixa vazar seu conteúdo (provavelmente, sangue)... Ao fundo, um tecido todo dobrado, mas que deixa evidente a silhueta do anjo da morte portando sua ceifa! Enfim, arte e conceito casando perfeitamente: afinal, se a morte é lenta... 

Slow Death” abre de forma sui generis, com a música “Against the Storm” iniciando em um grito, similar ao de quem está em uma queda, e com uma batida de bateria bastante cadenciada. No entanto, ao verificarmos que a letra de “Contra a Tempestade” versa basicamente sobre a visão de mundo de um homem-bomba, podemos concluir que o tal grito inicial é aquele que corresponde aos dos últimos momentos de sua vida: “I not afraid to die, because all my life I fought against the storm”. Excelente som, vocal encaixado de forma excelente e com um timbre muito agradável, aspecto destaque do som do Bloody; no geral, um som bastante cadenciado e cativante: primorosa abertura! Em “Seeking For Blood” podemos observar uma veia bastante crítica das composições, o que me fez lembrar (e até pensar se não existe nenhuma conexão entre) do fato ocorrido pelos idos de 2004/05 e que fora chamado pela imprensa de “máfia dos vampiros” e que consistia no desvio, por parte de parlamentares e funcionários do ministério da saúde, de verbas vultosas destinadas à compra de medicamentos. Sonoramente, esse som mantém a cadência e uma velocidade média em seu andamento, mas o destaque mesmo fica por conta do excelente refrão (uma característica marcante desta banda: o esmero na composição dos refrães). O terceiro som deste trabalho é “Inquisition”, regravação de som contido na demo de 2002, que versa (como é ótimo poder contar com a tradução das letras no encarte!!!) sobre o tema da crítica a igreja e que, embora seja muitas vezes afirmado como um dos maiores clichês do gênero, nunca perde sua atualidade e importância (em tempos atuais, eivados de fanatismos de todos os gêneros, com certeza, um tema absolutamente oportuno). É mesmo um som bem simples, mas executado com maestria, além de contar com um refrão que mantém a linha das anteriores: in... qui.. sition!!! A próxima faixa é “Justice with Blood”, e que conta com uma ótima introdução mesclando partes mais cadenciadas com uma mudança de andamento ligeiramente mais rápida (cujo ritmo é ditado pela execução no bumbo), criando uma sensação agradável ao ouvinte. Lembra até, em alguns momentos, o Kreator. O tema é o da polêmica pena de morte. A posição assumida: “who kills deserve to die” ou “death penalty now”! A seguir, mais um som regravado do trabalho de 2002, dessa vez a música que intitulara a demo: “Eat Your Brain”. Apesar do nome, em um primeiro contato, nos remeter a algum filme de Lucio Fulci ou George Romero, a verdade é que a letra trata a idéia de “comer seu cérebro” em um viés crítico, que me fez pensar, de forma análoga, no sentido apresentado por um 1984 de Gerge Orwel, por exemplo: “they are the eyes of your mind”. Então, vem a faixa que dá nome ao álbum, “Slow Death” inicia com uma intro de guitarra bem interessante e então segue um andamento bem mais lento, talvez o mais lento de todo o álbum. De fato, este som é o mais longo do play e o único que ultrapassa a barreira dos 5 minutos. Eu diria até que esse som lembra mesmo bandas de slow Death como Obituary e Six Feet Under. A sétima faixa é “Endless Game” e apresenta a maior velocidade das composições deste álbum, imprimida em grande parte pelo bumbo e pelo riff de guitarra. Também conta com a participação especial de Frank Gosdzik (ex-Kreator, ex-Sodom, Mystic) executando o solo da música. De toda forma, um destaque que encorpa o caldo. Em “God of Disgrace” temos uma longa introdução até entrar a primeira linha de voz e, infelizmente, já encaminha o ouvinte para o final do play. Enfim, chegamos a última faixa, que tem por obrigação dar um fechamento digno da qualidade de todo o álbum. “Real Vision” é o som mais curto desse play, contando com pouco mais de três minutos. Tem a participação, no solo, de Ciero da banda Broken Heads. Com um bumbo bastante rápido e um riff de guitarra bastante característico, ela encerra como manda o bom senso: rápida, direta e com muito feeling!!! E a guitarra soando, até se perder e ficar inaudível...

Em termos gerais, alguns aspectos que ficam claros, como sendo os pontos fortes desse play: o esmero na composição dos refrães, que são realmente muito interessantes e agradáveis, fáceis mesmo de serem lembrados; a levada mais de média velocidade e também sempre enfatizando construções mais cadenciadas são um ponto marcante; da mesma forma, os temas abordados são sempre muito atuais (fanatismo religioso, crítica à política, etc.) e com forte teor crítico, aspecto que dá mais organicidade ao trabalho. Destaques desse álbum, para mim, a faixa de abertura “Against the Storm”, por fornecer uma abertura magistral, com uma letra cativamente e muito bem encaixada ao instrumental; conjuntamente, “Slow Death” que intitula o play e que é uma excelente composição. Individualmente, os destaques claros desse play ficam por conta das linhas vocais ótimas de Paulo Tuckumantel, falando em termos de timbre e no ajuste das letras à sonoridade das músicas; na bateria, que também possui uma mixagem bastante característica, os bumbos são bastante evidentes e audíveis (às vezes, até um pouco em demasia, embora nada comprometedor); as linhas de guitarra não apresentam nada de absolutamente inovador, mas também não deixam nada a desejar, primando sempre pela objetividade e pelo aspecto direto e sem muita firula (nem todas as músicas possuem solos), o que também não deixa de ser, em certo sentido, um ponto forte (haja vista o estilo a que se comprometem executar).

Sem dúvida, mais um trabalho acima da média e que já está integrando o hall histórico dos grandes álbuns debut das bandas brasileiras do estilo. Sem hipocrisia, colocaria este “Slow Death”, guardadas as devidas proporções e comparações (características próprias, épocas, etc.), ao lado de debuts como de um “Antes do Fim” de 1986, ou “Consciense” de 1987, respectivamente do Dorsal Atlântica e do Overdose. Não pela originalidade ou pelo caráter visionário daquelas, mas pelo que pode proporcionar, como um impulso vigoroso, à carreira dessa excelente banda do interior paulista.
Tracklist:

1 - Against The Storm
2 - Seeking For Blood
3 - Inquisition
4 - Justice With Blood
5 - Eat Your Brain
6 - Slow Death
7 - Endless Game
8 - God Of Disgrace
9 - Real Vision

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