Os fascínios do underground
Segunda-feira, 18 de Maio de 2015
 

Antroforce, de SP, honrando o underground


Relendo alguns textos deste blog, bem como algumas resenhas minhas, percebi a recorrência do termo “underground”, que deve ser a palavra mais usada por mim sempre que escrevo. Assim, fiquei pensando nas razões para tal insistência e resolvi compartilhar com meus acidentais três ou quatro leitores. 

Em primeiro lugar, valho-me do termo sempre que quero aludir às cenas metal e punk, preferindo-o aos outros dois exatamente por ver ambas as cenas como parte de uma coisa só, apesar de todos os protestos e divergências quanto a essa unidade que ainda persistem de ambos os lados, embora mais três décadas de convivência e troca de experiências entre headbangers e punks, em diversos aspectos, sejam prova mais do que incontestável da sua permanente inter-relação. Dessa forma, para facilitar a minha vida, o termo que primeiro me ocorre é sempre “underground”, a fim de evitar essa segmentação desnecessária.

Em segundo, por si só, o chamado underground é, por diversas razões, cheio de fascínios para quem vive essa cena quase diariamente. Afinal de contas, desde os anos 80 que esse submundo da música vem parindo uma prole extraordinária, praticamente sem pausa, bem como uma coleção de histórias incríveis capazes de continuar surpreendendo velhuscos céticos como este escriba. 

Há algumas semanas atrás, por exemplo, fui a um show aqui em Florianópolis chamado Underground Attack, que trazia em seu cast duas bandas conhecidas – Axecuter, de Curitiba, e Battalion, de Itajaí – bem como duas formações das quais não tinha ouvido falar ainda – Antroforce e Harpago, ambas de São Paulo. E, puta que pariu, que show animal! A primeira banda, Antroforce, chegou detonando um speed/thrash oitentista sem muitas firulas, com letras em português, deixando estupefatos os presentes, pois a grande maioria deles também via a banda pela primeira vez. Do começo ao fim do show, o que se viu foi um sucessão de riffs feitos para bater cabeça e fazer aquela roda com a galera, o que de fato aconteceu. 

A segunda banda, Harpago, também veio com uma sonzeira forte, embora mais cadenciada que a primeira, mostrando um heavy/speed totalmente inspirado nas bandas nacionais das antigas, como Anthares, Astaroth, Azul Limão, Harppia, entre outras. O mais legal foi perceber a dedicação dos caras ao som e à aura oitentista, como se estes vivessem num mundo paralelo, indiferente às modas modernas que saturam o mainstream, trilhando uma senda anticomercial sem dar a mínima para sucesso e fama. 

Aliás, é bem isso mesmo que acontece: independente de tudo que está rolando “lá fora”, no mundo “normal”, essa galera continua a produzir sua música, seu visual, sua própria cultura e, com seus próprios meios, consegue atravessar o planeta, infectando todos os rincões desta terra, das Filipinas ao Paraguai, de Botsuana à Polônia, de Tóquio a Florianópolis. 

Assim, enquanto nas Filipinas a banda Deiphago surpreende com seu ultrabarulhento Black Metal, revivendo os primeiros dias do underground latino-americano, no Paraguai, o Master of Cruelty reedita o death/black dos tempos da dobradinha brasileira que marcou a cena com “Morbid visions” e “INRI”, dois clássicos absolutos do submundo. Da mesma forma, na África, o Wrust mostra que não limites geográficos para a selvageria sonora, assim como o pesadíssimo Ebola, na Polônia, e o avassalador Terror Squad, na Terra do Sol Nascente, os quais não deixam dúvidas de que a cena underground continua firme e forte como nunca, contrariando os mais pessimistas, que dizem que tudo isso morreu no começo da década de 1990. 

Ao mesmo tempo, voltando a Florianópolis, é preciso dizer que, mesmo sendo já mais conhecidas do que as duas primeiras bandas da noite, os veteranos da Axecuter e da Battalion representam bem a velha escola a música que contamina os porões das pequenas e grandes cidades mundo afora. Ambas as bandas chegaram com os dois pés, fazendo um show impecável, que agitou velhos e novos fãs de música pesada. O resultado é que não teve alma viva que não batesse ao menos sua cabeça durante o curto set de cada uma das bandas, comprovando que o underground, com muito ou pouca gente, com ou sem dinheiro, ainda é capaz de surpreender com sua energia e criatividade. É por essas e outras que eu ainda me arrepio e gasto meu sagrado tempo aqui, falando com meus três ou quatro leitores...


Master of Cruelty, do Paraguai


 
Postado por Cristiano Passos às 16:29Hs - Comentários (0)

Perfil de Cristiano Passos

Nascido em 1973, em Florianópolis-SC, encarnado em som underground desde 1987. Foi vocalista de bandas como Necrobutcher e Subversive Reek Mute Perturbation (SRMP), além de ter participado de diversos projetos paralelos entre 1989 e 1993. Atualmente, é baterista da banda Antichrist Hooligans e atua como rato dos porões do underground, buscando manter vivas as vozes do submundo extremo de outrora.






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