LUVART - Preservando a essÍncia do mal
Quinta-feira, 8 de Maio de 2014
 

Capa de Necromantical Invocation (2012)


Há alguns meses atrás, apresentamos aqui no Goregrinder a obscura banda LUVART por meio de uma resenha, mostrando o quanto o debut "Necromantical invocation", lançado pelo selo Hammer of Damnation, procurava ao máximo preservar intacta a essência maléfica presente no black metal. Agora, por meio do amigo Cannibus Hashcloud, trazemos aos leitores uma entrevista feita originalmente para o zine "Blasfêmias do espírito", que não saiu por motivos alheios à vontade de seu editor. Assim, para não deixar morrer o espírito negro que orienta a entidade Luvart, nem o incansável trabalho de Cannibus em prol do underground, resolvemos publicar aqui a entrevista que segue. 

01. Após um longo período de silêncio, você resolveu dar nova voz à banda Luvart... conte como se deu esse processo, e quais foram as mudanças de formação ocorridas até chegar a atual?

Brucolaques: A necessidade de dar prosseguimento a um trabalho que estava inacabado e que poderia oferecer experiências muito interessantes foi o fator crucial para que eu despertasse Luvart de seus 14 ininterruptos anos de sono e, em 2009, a centelha de que eu precisava foi lançada. O primeiro passo foi trazer as pessoas certas, com o comprometimento ideológico necessário e que mantivessem toda a identidade musical que Luvart sempre teve. Diante disso, nosso objetivo passou a ser o resgate de todo o ambiente vivenciado nos anos 90, para que pudéssemos retomar de onde havíamos parado. O resultado disso pôde ser visto na demo “Bestial Devotion”, de 2010, em nosso debut álbum, “Necromantical Invocation”, de 2012, assim como continuará a ser visto no que será produzido daqui para frente. Eu penso que falar a respeito de formações passadas é certo desperdício de tempo, então prefiro mencionar apenas quem compõe a Luvart, atualmente: Brucolaques (guitarra), Kholddun (vocal/teclado), Marbas (guitarra/baixo) e Blood Devastator (bateria).

02. O que significa “Luvart” e por que a escolha desse nome para a banda?

Brucolaques: Luvart é o príncipe dos anjos negros maléficos, o demônio do pecado incerto e ocasional, sendo esta entidade pertencente à terceira ordem dos anjos caídos da primeira esfera, chamados Tronos (que significa “anciãos”). Escolhemos este nome pelo fato do mesmo traduzir de forma exata nossos princípios e conceitos. Temos a identificação com o pecado porque somos dotados de uma vontade livre, a liberdade do indivíduo, que é nosso dom mais precioso. Nascemos e morreremos pecadores! Absorvemos e desenvolvemos os conhecimentos para nos aperfeiçoarmos, podendo depois levá-los tão longe quanto consigamos. Rebelamo-nos contra a escravidão espiritual e a mentalidade de rebanho, por ser uma destruição total para a sobrevivência, com suas crenças completamente irracionais e portais para deuses totalmente inativos.

03. Conte um pouco da história do Black Metal em sua cidade, como você começou a se envolver com o metal extremo e por que escolheu o Black Metal como forma de manifestação para a sua banda?

Brucolaques: A primeira banda com ideal Black Metal, surgida por aqui, foi o Necro Disseminator, seguida, alguns anos depois, por Abaddon, Luvart e Surtur. Tanto Necro Disseminator, quanto Surtur encontram-se inativas, atualmente. Anos depois, quando Luvart já havia encerrado as suas atividades, fundei a banda Saevus, que esteve ativa entre 1999-2007 e, junto conosco, veio o Demogorgon (cujo mentor reside nos EUA, hoje em dia). Atualmente, além de Luvart, temos o Chaos 666 como os principais representantes, do gênero, na cidade. Meu primeiro contato com o Black Metal, por assim dizer, foi em 1989, com o álbum “At War with Satan”, do Venom, mas meu envolvimento direto com o cenário se deu mesmo a partir de 1992, quando comecei a arquitetar a ideia de fundar uma banda como forma de manifestação de meus ideais. Ter desenvolvido habilidades musicais acabou se tornando a forma mais apropriada que encontrei para externalizar minhas visões dentro das artes ocultas, meu espírito interior e minhas vontades, resultando no que pode ser visto no Luvart, assim como o que foi desenvolvido no Saevus, anos atrás.

04. O que significa o Black Metal para você e quais são as bandas que se traduzem por Black Metal em sua opinião?

Brucolaques: Para mim é uma ferramenta de manifestação do Satanismo com o intuito de usar sons e vibrações para atingir emoções intensas, evocando e invocando as forças descritas nas letras para se alcançar uma profunda condição espiritual e a força interna que nos guia. É uma das mais altas formas de arte Satânica, a meu ver. Eu penso que o poderoso sentimento obscuro se faz presente em bandas como Mortuary Drape, Necros Christos, Murder Rape, Grave Desecrator, Varathron, Hetroertzen, Spell Forest, Vulturine, Burial Hordes, Watain, Ofermod, Patria, entre outras, que continuam destilando todo o seu veneno e poder para manter a chama e o caos, desta nobre arte, vivos.

05. O que pensa a respeito de todas essas subdivisões que existem no Black Metal moderno, como NSBM, atmospheric, depressive, pagan, heathen e outras?

Brucolaques: São apenas rótulos insignificantes e desnecessários!

06. Com quais bandas de hoje se identifica?

Brucolaques: Eu aprecio aquelas poucas que realmente partilham das mesmas visões que possuo e, obviamente, as trato como aliadas.

07. Cite seus cinco discos preferidos de Black Metal.

Brucolaques: Worship Him (Samael), Blood Ritual (Samael), In the Nightside Eclipse (Emperor), Storm of the Light’s Bane (Dissection) e Celebration of Supreme Evil (Murder Rape).

08. Um nome da cena.

Brucolaques: Eu respeito várias pessoas que fizeram e fazem algo importante, mas mencionar seus nomes é algo totalmente irrelevante, a meu ver.

09. Uma banda.

Brucolaques: Existem muitas bandas que foram importantes e relevantes para formar a base do Black Metal e, outras mais, para a manutenção do gênero, ao longo dos anos, como algo sério e ameaçador. Um nome apenas não seria possível simbolizar o gênero, em sua totalidade, pois várias foram as bandas e suas contribuições.

10. Um zine.

Brucolaques: Revelações Abissais zine é o melhor que tenho visto nos últimos anos, por ser um zine que procura enfatizar ideologia, que não omite a verdade, que não faz média com bandas ou selos quando analisa materiais em reviews. Seu compromisso é apresentar edições de qualidade, extremamente informativas e com bandas que realmente residem nas profundezas. Ele sim é o verdadeiro “arauto da má notícia”.

11. O que acha de teclados e vocais femininos no Black Metal? Você os utilizaria em suas músicas?

Brucolaques: Cada banda se utiliza de meios e artifícios que sejam úteis à sua proposta e quem sou eu para julgá-las. Penso que vocais femininos, líricos, não sejam algo compatível com a música de Luvart, devido à sua tonalidade mais suave e “angelical”, por assim dizer. Quanto a teclados, não vejo nada de errado em empregá-los desde que sejam bem executados e com propósitos úteis. Nós priorizamos a espontaneidade com o único intuito de qualificar ainda mais nossa Arte Satânica. Em nosso debut álbum há uma música chamada Pestifera Crucis, onde usamos piano e um coro. Em nosso próximo álbum, utilizaremos alguns coros e órgão, em algumas passagens de alguns de nossos ritos, para ser uma espécie de complemento aos mesmos.

12. O que pensa a respeito dos webzines e blogs de compartilhamento de arquivos? Você é a favor da facilidade de intercâmbio de sons que existe hoje em dia, ou prefere os tempos de antigamente, em que as fitas “cassete” eram passadas de mão em mão?

Brucolaques: Para ser honesto com você, não posso medir a credibilidade de um trabalho pelo fato dele ser impresso ou online. O importante é manter a responsabilidade e compromisso de se fazer um trabalho decente, pois existem zines impressos que não passam de lixo, repletos de perguntas clichês, mal elaboradas e português sofrível, o que dificulta até mesmo o entendimento na leitura, enquanto que existem webzines cuidadosamente bem feitos e informativos. Quanto aos blogs de compartilhamento de arquivos, não sou favorável. Não somente pelo fato de tornar o material acessível, mas porque o considero também um desrespeito com bandas e selos que colocaram tempo, energia, dinheiro e superaram dificuldades para gerar seus trabalhos. Além do mais, o compartilhamento de arquivos mata uma coisa que acho vital nos lançamentos: as informações extramusicais (letras, a arte do livreto que pode estar relacionada com todo o contexto do trabalho etc.). As pessoas precisam ter um entendimento geral do resultado final da obra e o mp3 apenas lhes dá uma pequena parte de tudo isso, que é somente a “música”. A parte visual é tão importante quanto à música, pois uma banda sem imagem é uma banda sem rosto. Eu acho que antigamente havia um maior idealismo, cooperação, respeito, busca por informação para o autodesenvolvimento e irmandade entre todos e, apesar das dificuldades, as pessoas eram mais ativas. A falta de informação que tínhamos sobre as bandas antigamente gerava um misticismo que fazia com que corrêssemos atrás para conhecê-las a fundo. Eu valorizo muito esta questão do misticismo porque ele faz com que as pessoas se dediquem mais, a saber, o que são as bandas de verdade, já que a inacessibilidade motiva a busca pela informação. Eu sou um grande conservador e acho que hoje em dia falta um pouco daquela velha convicção, respeito e paixão às novas gerações, essa vontade de manter viva a tradição.

13. Quantos shows realizaram com a Luvart até a presente data? Que tipo de evento vocês buscam participar?

Brucolaques: Até o presente momento, Luvart executou apenas quatro cerimoniais, sendo 3 deles no estado de Minas Gerais e, outro, em São Paulo (o primeiro e único fora de nosso Estado), sendo este último ao lado dos titãs Mortuary Drape e Mythological Cold Towers. Buscamos estar em eventos que tenham bandas com características e atitudes similares às nossas. Você jamais nos verá em eventos onde haja uma mistura de gêneros e público, ou mesmo em eventos que tenham associação com fins filantrópicos. Somos bem seletivos neste ponto, já que não temos o objetivo de sermos acessíveis as grandes massas ou vendermos nossos princípios e integridade satânicos. As pessoas devem ter a percepção de que o Luvart não é entretenimento, mas uma banda perturbadora, perigosa, e estamos aqui para lhes proporcionar algumas experiências espirituais obscuras, fazê-las refletirem e pensarem, não diverti-las.

14. Como será o próximo álbum de vocês? Quantas músicas, temas das letras, possível gravadora?

Brucolaques: Nosso próximo álbum se chamará “Rites of the Ancient Cults” e o mesmo retratará, através de uma perspectiva totalmente pessoal, os antigos cultos da mão esquerda, em suas letras. Posso dizer que em termos líricos, este álbum será ainda mais profundo, se comparado ao primeiro, pois nos vemos constantemente desafiados a superar nossa natureza escura e atingir a automaestria por meio da libertação do conhecimento interno ou esotérico, dentro de nossos individuais. Sua criação reflete o que sentimos em nossas almas, com o objetivo de criar uma tensão no ar quando energias estranhas são emanadas, apresentando novas obras de poder a serem reveladas. Serão gravadas 8 músicas e a gravadora responsável pelo lançamento do mesmo será a francesa Drakkar Productions, através de sua subsidiária, a Drakkar Brazil Productions.

15. Uma mensagem final...

Brucolaques: Eu agradeço a você, pela entrevista e atenção dada ao Luvart. Nós somos a Legião que se abriga na noite, conduzindo nossas vitórias sobre os que gostariam de negá-las.


Brucolaques, uma das mentes malignas que formam o Luvart


 
Postado por Cristiano Passos às 16:17Hs - Comentários (0)

Perfil de Cristiano Passos

Nascido em 1973, em Florianópolis-SC, encarnado em som underground desde 1987. Foi vocalista de bandas como Necrobutcher e Subversive Reek Mute Perturbation (SRMP), além de ter participado de diversos projetos paralelos entre 1989 e 1993. Atualmente, é baterista da banda Antichrist Hooligans e atua como rato dos porões do underground, buscando manter vivas as vozes do submundo extremo de outrora.






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