Rebentos do underground
Sábado, 22 de Fevereiro de 2014
 

"Caos total", do Orgia Nuclear (ES)


Embora este espaço tenha começado com a intenção de resgatar bandas antigas do nosso underground, é impossível – pelo menos para quem não vive apenas de nostalgia, como eu – não observar a prolífica cena atual. Afinal de contas, as bandas se multiplicam nas periferias deste país, surgindo em todos cantos e com as mais diversas propostas. Desta vez, gostaria de falar sobre algumas bandas novas, cujas demos, ainda que tenham sido lançadas há alguns anos, mostram o poder de fogo da cena underground brasileira em amplo sentido, pois seus trabalhos mostram também a importância das distros e pequenos selos que vêm garantindo, em parceria, uma maior divulgação para essas bandas.

 

O primeiro nome que eu gostaria de destacar é o do GLAUCOMA, banda de Manaus que pratica um thrash metal vigoroso, com uma boa dose de death metal, bem ao gosto dos oitentistas. Na verdade, logo de cara, ao ouvir a demo Civil War (2011), o que vem à mente é aquela sonoridade clássica de bandas como Mutilator, Dorsal Atlântica e Sepultura dos primórdios, ou seja, uma sonzeira de arrepiar o couro! Os vocais de Adelson Brandão lembram realmente a velha escola de Max e Carlos Vândalo, inclusive na cadência, bem ao estilo do death/thrash metal da década de 1980, sendo obrigatório ressaltar também a presença da crueza e rispidez tipicamente hardcore, que podem ser sentidas na raiva que o vocalista busca transmitir. A demo, lançada com o apoio do selo Anaites Records, de Fortaleza, contém apenas 6 sons, dentre os quais eu destacaria “Civil war”, “Apocalypse” (que começa mais cadenciada e depois desce o cacete!) e “Sentido opcional”, que mostra o quanto a língua portuguesa, quando bem explorada, se encaixa no metal tão bem quanto o inglês. A seguir nessa pegada, espero que o Glaucoma possa apresentar em breve um novo trabalho, pois talento pra pancadaria não lhes falta.

A segunda banda da lista também vem de Manaus, cidade que tem uma cena muito forte, representando muito bem a região Norte, que, diga-se, é a região de onde saiu a primeira banda brasileira a gravar um disco de heavy metal, em 1982! Formada por Afrânio Pires (vocal, também baixista da excelente Brutal Exuberância), Natha Hate (bateria), Elderson Oliveiro (guitarra) e Henrique Nascimento (baixo), a EXTREMAMENTE TOSCO vem com a Demo Promo 2011, que traz 9 sons dominados pelo peso e marcados pela indignação, algo que pode ser visto nas suas letras. A propósito, todas são vociferadas em português também, apresentando um conteúdo bastante crítico e realista, que soa muito bem ao meu cérebro punk, como se pode ver em “Demagogia”, “Olhos da desgraça” e “O amanhã é o ontem”. Contudo, nem só de crítica social vive a Extremamente Tosco. Há espaço também para a poesia (“A origem do bom fluído”), para a reflexão sobre a arte e o espírito louco de Van Gogh (“Corvos no trigal”) e para a diversão metálica (“Tattoo, cerveja e metal”), mostrando uma visão de mundo ampla e inteligente. Quanto ao som em si, sai debaixo, porque a porrada come solta do começo ao fim! É death/thrash metal na veia, acrescido de algumas benéficas influências de metal tradicional, principalmente nos solos de guitarra. Aliás, apesar do adjetivo “tosco” do nome, a banda executa muito bem suas canções, que são bem trampadas, e a gravação está excelente, bem acima da média do que se espera para uma demo. Todas as músicas são excelentes, com destaque para “Corvos no trigal”, cujo andamento lento e hipnótico arrasta consigo o ouvinte para o universo do pintor holandês, “Demagogia”, pela pancadaria soberba e pelo refrão objetivo e contagiante, que faz todo mundo querer cantar junto “Vermes canalhas/vão se fudê!!!”, assim como a porrada de “Pérfida ilusão” e a empolgante “Tattoo, cerveja e metal”. Em resumo, é um trabalho altamente recomendável de uma banda que promete muito ainda!

Para quem curte um som mais voltado ao gore/grind com fortes raízes no death metal, com direito a blast beats e piggy vocals, a terceira banda da lista se chama SADE e vem de Fortaleza. Segundo Necrosadic, a princípio o Sade, formado em 2010, é um projeto paralelo dos membros da banda speed/thrash Carcará, sendo que 3 dos seus membros fazem parte desse grupo (Sodomizer, Dilacerator e o já citado Necrosadic), aliados à força do vocalista Depravator. Aqui, porém, diferentemente de sua outra banda, os caras apostam numa postura mais agressiva, misturando elementos de sadomasoquismo e anticristianismo que fazem lembrar a banda catarinense Osculum Obscenum, ao menos em termos visuais. Quanto ao som, a demo “The gore tantric sadism” (2012) traz, além de uma puta capa, 7 porradas em forma de música, mais uma intro que prepara o ouvinte para o caos subsequente. Todos os sons seguem uma linha altamente coerente com a proposta da banda, mesclando peso extremo, partes rápidas, vocais raivosos e alguns andamentos mais “lentos”, digamos assim, mostrando as tais raízes death metal do Sade, principalmente daquele deathzão bem old school, com influências de Autopsy e Master, bem como da escola sueca, da qual podemos citar Grotesque, Unleashed ou Dismember. Entre esses sons, fica difícil escolher quais se destacam, até pela consistência da proposta da banda, mas os que me chamaram mais atenção foram “Sade”, “The last supper”, “Obscene in the extreme” e “Ejaculating on the face of Christ”, embora os outros também sirvam para ferver o sangue de qualquer maníaco por música extrema. Altamente indicado para quem curte uma paulada gore/death metal regada a muito S&M, sangue e tripas! 

 

Para finalizar, devo apresentar a banda capixaba ORGIA NUCLEAR, cujo material – o fudido “Caos Total” (2013) – embora catalogado como ep, tem todas as características de uma demo. Aliás, uma demo bem produzida, diga-se, com capa em papel grosso, encarte colorido, com letras e fotos da banda e cd-r adesivado. Quanto ao som em si, Hellthrasher Maniac (baixo e voz) e Pesadelo Nuclear (guitarra), aliados ao batera Gabriel Bitch Hunter, que deu uma força na gravação, trazem aqui uma sonzeira que faz o ouvinte voltar mais de 25 anos no tempo, indo parar direto no final dos anos 80. Na real, o som lembra muito os primeiros discos do Sodom, recheado de referências a outras bandas da mesma época, criando uma avalanche sonora perfeita para o heabanging. Os vocais de Hellthrasher também lembram o velho Angel Ripper de “In the sign of evil”, ou seja, são agressivos, guturais e sujos, aspectos que são evidenciados por alguns efeitos de estúdio, como reverb e eco, que também nos transportam para a época em que bandas como MX, Cova, Blasphemer e Necromancia gravavam o clássico “Headthrashers Live”. A propósito, as duas faixas ao vivo presentes nesta demo mostram uma sonoridade bem semelhante ao da clássica coletânea. Por falar nas músicas da demo, todas seguem uma linha bem crua, com bases simples e eficientes e sem muitas firulas técnicas, como também era de se esperar de uma banda com os dois pés no metal oitentista, mas eu destacaria “Caos total”, “Maníaco sexual”, “Noite perdida” e “União hellthrasher”, que deve ser um hino nos shows da banda. Enfim, o Orgia Nuclear é mais uma boa banda do nosso cenário e que merece ser acompanhada com muita atenção pelos maníacos por som old school.  Em tempo: após a gravação da demo, a formação mudou completamente, restando apenas Hellthrasher da formação original. 

Enfim, como havia dito no início deste texto, é vasto o panorama underground brasileiro e, por isso, ainda temos muitas outras bandas a comentar por aqui. Vale ressaltar, entretanto, que isso se deve ao esforço das tantas bandas boas que se acotovelam no submundo em busca de um espaço ou simplesmente para fazerem o seu som, bem como dos pequenos selos, como Anaites, Metal Reunion, Underground Brasil Distro, Vomito Sangrento, Cianeto, Black Forest, Desgraça, entre outros, que ajudam a concretizar o resultado de tanta dedicação ao som pesado. 


Extremamente Tosco, representando a cena manaura


 
Postado por Cristiano Passos às 15:32Hs - Comentários (0)

Perfil de Cristiano Passos

Nascido em 1973, em Florianópolis-SC, encarnado em som underground desde 1987. Foi vocalista de bandas como Necrobutcher e Subversive Reek Mute Perturbation (SRMP), além de ter participado de diversos projetos paralelos entre 1989 e 1993. Atualmente, é baterista da banda Antichrist Hooligans e atua como rato dos porões do underground, buscando manter vivas as vozes do submundo extremo de outrora.






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