FANZINEIROS DO SÉCULO PASSADO – Um Documentário sobre o Submundo da Informação
Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013
 

Nos últimos anos, o meio underground tem acompanhado o crescimento vertiginoso de publicações alternativas sobre o Punk ou o Metal, como livros e, mais recentemente, documentários contando a sua história ou teorizando a respeito das cenas, gêneros e subgêneros. Claro, a “cena” envelheceu, seus membros desenvolveram outros interesses e atividades e resolveram fundi-los com o que sabiam sobre o underground, além de hoje termos uma maior distanciamento em relação aos fatos ocorridos nas décadas de 1980 e 1990, distância suficiente para que se possa entender sua importância e seu impacto, tanto em termos pessoais quanto na cultura em geral.  

 

Dentre esses novos lançamentos, fui presenteado com um documentário excelente chamado “Fanzineiros do Século Passado”, de autoria de Márcio SNO e lançado em 2012. Digo “excelente” pra simplificar os elogios, porque o documentário, pra quem vive ou viveu a cena underground, representa muito mais que isso: é um registro histórico sobre uma cultura marginal que “criou” muita gente. 

 

E o mais legal é que, em plena era digital, “Fanzineiros” resgata a história do zine de papel, que hoje em dia anda dando suas caras novamente, o que é muito saudável para a cena, mas não esquece de citar também os blogs e webzines, apresentando uma visão menos radical. Afinal, de ambos os lados, há defensores aguerridos e intransigentes, mas que acabam colocando suas preferências acima do que realmente importa: a distribuição democrática da informação.  

 

Como mencionam alguns dos entrevistados, o que sempre motivou as pessoas a fazerem zines, sejam eles de papel ou virtuais, foi a necessidade de se comunicar e passar adiante informações que a grande mídia não faz questão nenhuma de divulgar, com uma liberdade de expressão inimaginável nos domínios da informação enlatada. Como se sabe, a cultura underground é muito rica, mas nunca dependeu dessa chamada grande mídia para existir: praticamente tudo que ela produziu foi espalhado no submundo por algum fanzineiro, que o fazia (e ainda o faz) com a intenção de levar para os seus amigos e conhecidos informação independente e sem censura que, de outra forma, não circularia jamais. Afinal, assim como as bandas underground existem, acima de tudo, pelo prazer de fazer um som, os zines também devem sua existência ao prazer de poder, sem a mediação de um patrocinador ou de algum conglomerado midiático poderoso, divulgar as bandas, filmes e livros dos quais seu editor gosta e está a fim de divulgar. E ponto final!

 

Dessa forma, Márcio SNO mostra o papel fundamental dos zines na criação de uma cena ainda mais forte, entrevistando gente como Juninho, do Corpse Grinder, por exemplo, que ressalta a importância desse tipo de divulgação para as bandas independentes. Como diz um dos entrevistados a um dado momento, as bandas não existiriam sem os fanzines, afirmação com a qual concordo plenamente, pois, como assegura o mesmo Juninho, ver o material da sua banda publicado ou em uma entrevista ou resenha é algo totalmente estimulante. 

 

Mesmo as bandas mais radicais do undergroud topam sair em alguma página de fanzine, já que a condição de independência dos zines faz com que estes sejam encarados como veículos de comunicação confiáveis e autênticos, ao contrário das grandes publicações, cuja atmosfera “mainstream” (anúncios grandes, parcerias com lojas e gravadoras conhecidas, além do visual “clean” e colorido demais, destoando do aspecto artesanal dos zines e do preto e branco tradicional) não interessa a quem vive nos porões da música extrema.

 

A propósito, vale ressaltar que o documentário mostra fanzineiros de outros gêneros além do metal e da música em si, já que a história dos zines vai muito além do nosso meio e o que todos eles têm em comum é o fato de lidarem com algum assunto marginal ou underground e, como afirma um dos entrevistados, o “faça você mesmo”. Dos fanzineiros que trabalham com o metal e o punk, destaca-se a participação da equipe do saudoso Putrid zine, de Rikardo Chakal, do Visual Aggression, e de Fellipe CDC (no primeiro capítulo do documentário, que vem junto no DVD), verdadeira lenda da cena que editava, na década de 1980, o aclamado zine Metal Blood, que pra mim tem um valor simbólico e afetivo muito grandes, pois foi primeiro fanzine impresso que eu conheci na vida, lá em 1988! E é muito legal saber que todo aquele esforço feito pelo jovem Fellipe há tantos anos atrás foi tão marcante que até hoje ele é referência na área da comunicação alternativa e independente. 

 

Aliás, de todo o documentário, o que mais se destaca é exatamente essa força de vontade de todos aqueles que construíram essa cena, seja ela em papel ou na internet, pois os entrevistados são unânimes em afirmar, ao fim do vídeo, o quanto essa experiência de produzir zines foi muito importante em suas vidas e o quanto eles o fazem por paixão, nada mais além disso. “Dá pra dividir a vida em antes e depois do zine”, diz Daniel Villa Verde, do zine Nuclear Yogurte.

 

Então, pra quem ainda não viu, vale muito a pena ir atrás de “Fanzineiros do Século Passado”, que é um registro muito bem produzido de uma parte da história do underground, apesar de todas as dificuldades apontadas pelo seu autor, que não ganhou nada para realizar o documentário, mas mesmo assim fez um puta trabalho. E aguardem que, em abril, no III Ugra Zine Fest, Márcio SNO promete o lançamento do terceiro capítulo dessa incrível saga zineira.  100% recomendável!

 

 

 
Postado por Cristiano Passos às 18:09Hs - Comentários (0)

Perfil de Cristiano Passos

Nascido em 1973, em Florianópolis-SC, encarnado em som underground desde 1987. Foi vocalista de bandas como Necrobutcher e Subversive Reek Mute Perturbation (SRMP), além de ter participado de diversos projetos paralelos entre 1989 e 1993. Atualmente, é baterista da banda Antichrist Hooligans e atua como rato dos porões do underground, buscando manter vivas as vozes do submundo extremo de outrora.






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